Atitude Popular

Sem TerraBrás, Brasil arrisca perder soberania sobre minerais críticos

Da Redação

Decisão do governo de não criar estatal para minerais estratégicos aposta na industrialização, mas levanta dúvidas profundas sobre controle nacional, dependência externa e futuro da soberania econômica.

A decisão do governo Lula de não avançar com a criação da TerraBrás marca um ponto de inflexão na política mineral brasileira. Em seu lugar, o Executivo aposta em um modelo baseado na exigência de processamento local e incentivos à industrialização. A proposta, à primeira vista, parece equilibrada. Mas, quando analisada com mais profundidade, revela um risco estrutural que não pode ser ignorado: o Brasil pode estar abrindo mão do controle estratégico de uma das riquezas mais importantes do século XXI.

O novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio defendeu que o foco será garantir agregação de valor no país, com incentivos fiscais e possíveis restrições à exportação de matéria-prima, buscando evitar o velho padrão primário-exportador . A lógica é correta. O problema não está na intenção. Está no instrumento.

Porque existe uma diferença fundamental entre industrializar sob controle nacional e industrializar sob controle do capital internacional.

Sem uma empresa estatal ou um mecanismo forte de coordenação pública, quem tende a dominar essa cadeia são grandes corporações globais, especialmente em um setor altamente concentrado, tecnologicamente complexo e geopoliticamente sensível. E os sinais disso já estão aparecendo. A venda da mineradora Serra Verde, uma das principais operações de terras raras do país, para uma empresa norte-americana por bilhões de dólares acendeu o alerta dentro do próprio governo .

Esse episódio não é isolado. Ele é sintoma.

O Brasil está no centro de uma corrida global por minerais críticos, insumos essenciais para a indústria de alta tecnologia, energia limpa, inteligência artificial e defesa. Terras raras, lítio, níquel e outros minerais deixaram de ser commodities comuns. São ativos estratégicos, comparáveis ao petróleo no século XX.

E, historicamente, países que abriram mão do controle sobre seus recursos estratégicos pagaram caro.

A ausência de uma estatal como a TerraBrás não significa neutralidade. Significa, na prática, transferência da coordenação do setor para o mercado. E o mercado, nesse caso, não é nacional. É global. É concentrado. É dominado por grandes conglomerados financeiros e industriais.

O argumento de que a presença estatal afugenta investimentos é recorrente. De fato, há setores que defendem que uma estatal poderia gerar insegurança regulatória e afastar capital estrangeiro . Mas essa leitura ignora uma questão central: investimento estrangeiro não é sinônimo de desenvolvimento soberano.

O capital externo entra, investe, extrai, processa e lucra. O que fica no país depende da capacidade do Estado de regular, coordenar e participar da cadeia. Sem isso, o Brasil corre o risco de repetir o padrão histórico de exportador de riqueza bruta ou, no máximo, de etapas intermediárias da cadeia produtiva.

A exigência de processamento local é um avanço. Mas é insuficiente.

Porque quem controla o processamento controla a tecnologia, os preços, os contratos, as cadeias globais e, principalmente, o destino final desses minerais. Sem uma estrutura pública forte, o país pode até industrializar, mas continuará subordinado.

Esse é o ponto mais delicado da decisão.

A soberania não está apenas na terra. Está na cadeia.

E cadeia produtiva não se controla apenas com incentivos fiscais.

Outro fator relevante é a fragmentação dentro do próprio governo. Há divergências entre ministérios, setores e parlamentares sobre o caminho a seguir. Parte da base defende explicitamente a criação de uma estatal para garantir controle nacional sobre esses recursos . O recuo atual, portanto, não é consenso. É correlação de forças.

E isso revela que a decisão não foi apenas técnica. Foi política.

Ao optar por não criar a TerraBrás, o governo tenta equilibrar dois objetivos: atrair investimento e manter algum nível de controle. Mas esse equilíbrio é instável. E, em setores estratégicos, a história mostra que soluções híbridas tendem a favorecer o lado mais forte — que, nesse caso, é o capital global.

Há ainda um fator geopolítico incontornável.

Os minerais críticos estão no centro da disputa entre Estados Unidos, China e outras potências. O Brasil não está fora dessa disputa. Está dentro dela. E sem instrumentos próprios de controle, tende a ser objeto, não sujeito, dessa geopolítica.

Ou seja, o risco não é apenas econômico.

É estratégico.

O Brasil pode se tornar um elo subordinado na cadeia global de minerais críticos, fornecendo insumos para a indústria de outros países sem construir autonomia tecnológica, industrial e geopolítica.

Isso não significa que a TerraBrás, por si só, resolveria o problema.

Mas significa que, sem ela — ou sem algum mecanismo equivalente de controle público robust

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