“Ser subversível no Brasil é contrariar os interesses da classe proprietária”

Em entrevista ao Café com Democracia, a historiadora Marcília Gama reconstrói a rede de órgãos de informação e segurança criada antes e durante a ditadura de 64 e mostra como seus métodos de vigilância, censura e desinformação ainda ecoam na política brasileira

Mais de 40 anos depois do fim formal da ditadura, o Brasil ainda vive sob a sombra de uma máquina de vigilância e controle criada para sustentar o regime instaurado em 1964. A chamada Rede Nacional de Órgãos de Informação e Segurança articulou polícias, Forças Armadas, empresas privadas, igrejas e grandes meios de comunicação num sistema que monitorava ideias, pessoas e instituições em todo o território nacional.

A análise foi feita pela professora Marcília Gama, doutora em História e especialista em Arquivologia, em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na Web Rádio e TV Atitude Popular, no dia 22 de outubro de 2025. Ao longo da conversa, a pesquisadora mostrou como essa engrenagem se construiu desde a Segunda Guerra Mundial, foi refinada pela ditadura e, em outras bases, segue influenciando o presente.

“Ser subversível no Brasil é você contrariar os interesses da classe proprietária”, resumiu Marcília, ao explicar quem sempre foi o verdadeiro alvo da repressão política.

Rede de espionagem de norte a sul do país

Segundo a historiadora, o que se convencionou chamar de “rede nacional” não era um único órgão, mas um sistema articulado de espionagem e repressão.

Ela lembra que as bases foram lançadas ainda nos anos 1930 e 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, com a estruturação de secretarias de segurança pública e a criação de órgãos especializados:

“Essa rede começa a se estruturar a partir da Segunda Guerra Mundial, por incrível que pareça, e é uma rede de órgãos, porque vai compor um sistema de informação e de controle. Em Pernambuco, por exemplo, a antiga SSP e o DOPS desempenham esse papel.”

Criado em 23 de dezembro de 1935 como Delegacia de Ordem Política e Social, o DOPS se transforma em departamento a partir de 1961, ampliando seu alcance. A partir daí, explica a professora, o país passa a ser coberto por uma malha integrada:

Polícias civis e militares nos estados;
Secretarias de Segurança Pública;
DOPS/DEOPS como órgãos centrais de operação política e social;
Serviços de informação das Forças Armadas – Centro de Informações do Exército, da Aeronáutica (CISA) e da Marinha (CENIMAR);
Divisões e agências de segurança e informação (DSI e ASI) em repartições públicas;
Polícia do Exército e setores internos de espionagem, os chamados S-2;
E, no topo da hierarquia, o Serviço Nacional de Informações (SNI), criado sob a batuta do general Golbery do Couto e Silva.

“Era um sistema de vigilância permanente em relação às ideias”, explica Marcília. “Havia monitoramento em portos, aeroportos, rodoviárias, correios, rádios, TVs, sindicatos, universidades, escolas, partidos, clubes, tudo. Onde houvesse debate, havia censura e vigilância.”

Olhos e ouvidos em todos os lugares – inclusive dentro de casa

A rede de informação não se limitava aos gabinetes oficiais. A ditadura mobilizava também arapongas infiltrados em espaços do cotidiano e estimulava a delação entre vizinhos, colegas de trabalho e até parentes.

“Você tinha agentes em mercados públicos, nos comércios, em todos os lugares. A parte conservadora das igrejas, dos partidos das elites, das empresas, auxiliava. As próprias famílias tinham esse protagonismo de auxiliar a polícia”, relata a pesquisadora.

O slogan de época era emblemático: “A nossa vigilância é a sua segurança”. Na prática, isso significava transformar qualquer crítica ao regime ou defesa de reformas sociais em caso de polícia, especialmente se viesse de movimentos camponeses, estudantes, sindicatos e organizações de esquerda.

Reforma agrária: o ponto em que o golpe não negocia

Para Marcília Gama, a questão agrária é uma chave central para entender tanto o golpe de 1964 quanto a atuação da rede de informação e segurança.

“Um país que nasce agrário, com mais de 350 anos de escravidão, e uma elite latifundiária mandatária, jamais vai querer perder um centímetro de controle de suas terras”, afirma.

Ela lembra que, no pós-guerra, experiências como as Ligas Camponesas, lideradas por figuras como Francisco Julião, passaram a defender abertamente a reforma agrária e a organização dos trabalhadores rurais. Um dos símbolos desse processo foi o Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão (PE), desapropriado pelo então governador Cid Sampaio e reconhecido como a primeira experiência de reforma agrária no Brasil.

“Essa experiência trouxe um temor enorme, porque reforma agrária significa quebra de privilégios, fim de uma estrutura de mando. Por isso, há uma aproximação de interesses entre latifundiários e órgãos de segurança, para impedir o avanço dessa pauta”, explica.

Segundo a professora, isso se reflete na própria história institucional da República:

“Em 136 anos de República, nós tivemos sete golpes de Estado, seis vezes o Congresso fechado e seis constituições. O que isso quer dizer? Um cenário de instabilidade produzido para manter o controle sobre pautas sociais consideradas subversivas.”

Daí a frase que sintetiza o núcleo duro da repressão:

“O que é ser subversivo no Brasil? Ser subversível no Brasil é você contrariar os interesses da classe proprietária.”

Imprensa entre o silêncio, a conivência e a perseguição

Questionada sobre o papel da mídia, Marcília foi direta: houve censura, mas houve também colaboração ativa.

De um lado, jornais e jornalistas que tentavam furar o bloqueio eram censurados, tinham redações fechadas e viam repórteres perseguidos. De outro, veículos que aderiram ao projeto da ditadura cresceram sob proteção e financiamento do regime.

“Quando os jornais ousavam furar esse cerco, eram empastelados, censurados, a redação fechada, jornalistas perseguidos. Mas havia parte da imprensa que comungava com essas ideias, financiada por esse sistema, divulgando inverdades”, afirma.

Ela cita o exemplo de casos em que jornais publicavam notas afirmando que militantes haviam “morrido em tiroteios”, quando na verdade ainda estavam vivos, sob tortura, nos porões da repressão.

Marcília também lembrou a ascensão de grandes redes de televisão no período da ditadura:

“A Rede Globo é criada em 1965 como concessão dada pelos militares. Ela cresce ajudando a expandir essa nova ordem, a ideia de ordem acima de tudo”, aponta, ao lado de outros grupos de mídia que se beneficiaram do alinhamento com o regime.

Igreja dividida: conservadorismo e resistência

Outro ator fundamental nesse tabuleiro foi a Igreja Católica, além de segmentos evangélicos conservadores.

“Há uma parte conservadora da igreja que vai aderir a esse modelo autoritário, concentrador. Ela propaga essa ideologia nas igrejas, junto aos fiéis, trazendo um evangelho que contraria os interesses da maior parte da população”, explica a historiadora.

Ao mesmo tempo, emergem dissidências progressistas, que passam a ser tratadas como inimigas do regime:

Setores da chamada Igreja progressista, comprometidos com a Teologia da Libertação;
A atuação de Dom Hélder Câmara, rotulado pela repressão como “arcebispo vermelho”;
Pastorais sociais e organizações de base que defendiam igualdade, justiça social e direitos humanos.

“Esses segmentos, seja na igreja, na imprensa, nos partidos ou nas organizações sociais, eram perseguidos por essa rede nacional de informação”, ressalta Marcília.

Do SNI ao gabinete do ódio: heranças e mutações

Embora a ditadura tenha terminado formalmente em 1985, a rede de informação e segurança não desapareceu de uma hora para outra. Muitas práticas se transformaram, migrando para estruturas paralelas e, mais recentemente, para o ambiente digital.

“Essa rede permanece em outras bases. Hoje a sociedade é monitorada pelas redes sociais. As pessoas postam tudo: dizem onde estão, o que estão fazendo. É uma forma de vigiar oficialmente e, ao mesmo tempo, de maneira potencializada pela internet”, afirma a pesquisadora.

Ela destaca a continuidade de estruturas clandestinas que atuaram, por exemplo, na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023:

“Temos, no Estado democrático de direito, redes paralelas convivendo com a institucionalidade. O gabinete do ódio é um exemplo. A extrema direita que atuou no passado volta agora em outras bases”, diz Marcília, lembrando que essas redes são muitas vezes alimentadas e monitoradas a partir do exterior, inclusive pelos Estados Unidos.

Na avaliação da professora, a lógica é a mesma: criar inimigos internos — hoje personificados em movimentos como o MST — para justificar a criminalização de lutas sociais, impedir reformas estruturais e manter privilégios intocados.

A batalha da memória e da informação

Ao final da entrevista, Marcília Gama destacou que enfrentar esse legado exige organização da sociedade civil, leitura crítica e disputa de narrativa.

“A sociedade precisa continuar organizada, precisa ler, sair dessa bolha ideológica que se cria para impor controle. É fundamental combater permanentemente essa ordem de controle que permanece”, defendeu.

Para ela, programas como o Café com Democracia têm papel estratégico ao recuperar a história da repressão e expor suas continuidades na política atual:

“A importância é desconstruir desinformações ilegais e ingratas, que servem para dominar ideologicamente a população e impedir a luta pelos direitos.”

Enquanto o país ainda convive com nostalgias da ditadura e tentativas de golpe em pleno século XXI, revisitar o funcionamento da rede de informação e segurança do regime de 64 não é um exercício de passado — é uma forma de compreender o presente e defender, com mais lucidez, a democracia e a soberania popular.

https://www.youtube.com/watch?v=vm4cwr-8wcI

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