Sessão solene na Câmara de Fortaleza celebra os 100 anos do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, da Faculdade de Direito da UFC

Cerimônia reuniu diferentes gerações do movimento estudantil e teve como um dos momentos centrais o resgate histórico da resistência à ditadura militar feito pelo ex-presidente do CACB Inocêncio Uchôa

A Câmara Municipal de Fortaleza realizou, nesta segunda-feira (22), uma sessão solene em homenagem aos 100 anos do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua (CACB), entidade estudantil da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). A cerimônia reuniu estudantes, professores, magistrados, advogados, parlamentares e ex-dirigentes da organização que, ao longo de um século, participou de alguns dos principais debates políticos e universitários do Ceará.

Proposta pelo vereador Gabriel Biologia, com articulação do secretário municipal da Juventude, Júlio Brizzi, também ex-dirigente do CACB, a homenagem destacou o papel da entidade na defesa da universidade pública, da democracia e da participação estudantil.

Embora diversas gerações tenham compartilhado suas experiências durante a solenidade, um dos momentos mais marcantes foi a intervenção do advogado e juiz do trabalho aposentado Inocêncio Uchôa, presidente do Centro Acadêmico em 1968, quando a entidade foi fechada pela ditadura militar.

Ao tomar a palavra, Uchôa apresentou um amplo relato histórico sobre a trajetória do CACB e sua atuação nas mobilizações estudantis que marcaram os anos de enfrentamento ao regime instaurado após o golpe de 1964.

Segundo ele, o Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua sempre ocupou posição de destaque entre as entidades estudantis brasileiras e teve papel decisivo no fortalecimento do movimento universitário cearense.

“O Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua sempre pontificou entre as mais importantes entidades estudantis brasileiras”, afirmou.

Uchôa recordou que a entidade sofreu intervenção logo após o golpe militar e permaneceu sob controle de grupos alinhados à direita estudantil até 1966, quando voltou a ser dirigida por setores progressistas. Dois anos depois, em meio à intensa mobilização política que tomou conta do país, o CACB se transformou em um dos principais polos de organização da juventude universitária cearense.

Ele destacou que a Faculdade de Direito da UFC se tornou um espaço privilegiado para debates políticos, atraindo estudantes comprometidos com diferentes correntes da esquerda e fortalecendo a articulação do movimento estudantil estadual.

“O ano de 1968 foi marcado por grandes agitações nacionais e internacionais. E o CACB, com larga representatividade interna e externa, foi palco privilegiado dos grandes debates políticos que então se travavam”, declarou.

Durante sua fala, Uchôa descreveu o ambiente de intensa mobilização que caracterizou aquele período. Segundo ele, o movimento estudantil cearense alcançou projeção nacional por sua capacidade de organização e por construir alianças que extrapolavam os limites da universidade.

Ele lembrou especialmente a Passeata dos 20 Mil, realizada em Fortaleza, que reuniu estudantes, trabalhadores, representantes da Igreja Católica e setores democráticos da sociedade em oposição ao regime militar.

Para Uchôa, um dos fatores que explicam a força do movimento estudantil cearense foi sua capacidade de preservar a unidade política nas ruas, apesar das divergências ideológicas internas.

“Nós brigávamos muito antes das manifestações, mas na hora que decidia fazer as manifestações, todos cumpríamos”, recordou.

O ex-presidente do CACB também destacou a dimensão da repressão enfrentada pelos estudantes cearenses. Segundo ele, dos 70 líderes estudantis brasileiros processados pela Lei de Segurança Nacional após o Congresso da UNE realizado em Ibiúna, em 1968, dez eram da Universidade Federal do Ceará.

Embora os estudantes cearenses representassem apenas 5% dos participantes do congresso, respondiam por cerca de 14% dos dirigentes enquadrados pela ditadura.

“Veja como o movimento estudantil do Ceará teve uma importância muito grande internamente. A gente tinha uma coesão muito importante”, afirmou.

Uchôa relembrou ainda o fechamento do Centro Acadêmico após a edição do AI-5. A entidade foi invadida, fechada e teve suas atividades interrompidas pela repressão. Seu presidente e outros estudantes da Faculdade de Direito foram expulsos da universidade.

Entre os nomes citados por ele estavam José Arlindo Soares, José Genoíno Neto, Pedra Albuquerque Neto e Francisco de Assis Costa Machado.

Segundo Uchôa, a reabertura do CACB, em 1979, simbolizou muito mais do que a retomada de uma entidade estudantil.

“A reabertura do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua representou a recuperação do direito de organização dos estudantes e o reencontro da Faculdade de Direito com as liberdades democráticas”, afirmou.

Para o ex-dirigente, o legado construído ao longo de um século demonstra que o movimento estudantil pode desempenhar papel relevante nos processos de transformação social e política, mesmo diante da perseguição estatal.

“Sua trajetória esteve intimamente ligada às grandes lutas em defesa da democracia, dos direitos civis e da participação popular”, declarou.

Ao final da intervenção, Uchôa resumiu o significado histórico da entidade.

“O movimento estudantil organizado pode desempenhar papel relevante nos processos de transformação social e política. Os ideais que animaram seus militantes sobreviveram ao autoritarismo.”

A fala foi recebida com aplausos pelos presentes e serviu como fio condutor para várias das intervenções realizadas ao longo da noite.

O deputado estadual Renato Roseno ressaltou que o movimento estudantil da Faculdade de Direito formou diversas gerações comprometidas com a vida pública e com a defesa da democracia. Segundo ele, muitos dos que passaram pelo CACB seguiram atuando na advocacia, na magistratura, no parlamento, na universidade e nos movimentos sociais.

Roseno também alertou para o crescimento de correntes autoritárias entre os jovens em diferentes países e defendeu a importância de entidades estudantis comprometidas com valores democráticos.

“A participação nas lutas democráticas nos permitiu debater o Brasil, debater o mundo”, afirmou.

O desembargador federal Leonardo Rezende, que integrou a direção do CACB nos anos 1990, relembrou a mobilização estudantil que impediu a descaracterização do auditório da Faculdade de Direito e destacou como a experiência no Centro Acadêmico influenciou sua trajetória na magistratura.

Já João Alfredo, responsável pela reabertura da entidade em 1979, afirmou que o movimento estudantil foi uma verdadeira escola política para sua geração.

“Quem passou por esse período não passou impunemente. Aquilo ficou marcado”, disse.

A advogada Cristiane Jimenes Pimentel definiu o CACB como uma instituição fundamental para a formação cidadã.

“O Centro Acadêmico foi, é e será sempre uma escola de democracia”, declarou.

O diretor da Faculdade de Direito da UFC, Gustavo César Cabral, também ex-dirigente da entidade, afirmou que uma das principais lições deixadas pela história do Centro Acadêmico é a necessidade de vigilância permanente em defesa das instituições democráticas.

“A democracia nunca será suficientemente forte a ponto de não precisar de uma defesa diária”, afirmou.

Representando a atual gestão do CACB, Maria Yasmin Santos da Silva destacou que a entidade chega ao centenário mantendo seu compromisso com a participação estudantil e com a construção de uma universidade mais inclusiva.

Ela lembrou que a ampliação do acesso ao ensino superior trouxe novos desafios para o movimento estudantil, especialmente aqueles relacionados à permanência dos estudantes na universidade.

“Se antes a luta era pelo acesso, hoje a luta é por permanência. Permanência de qualidade”, afirmou.

Yasmin também ressaltou que a história centenária do Centro Acadêmico demonstra a importância da participação dos estudantes nos processos decisórios da universidade.

“Nenhuma universidade existe sem escutar seus estudantes.”

Ao final da solenidade, foram entregues certificados a ex-dirigentes e personalidades que contribuíram para a trajetória do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua. A cerimônia encerrou-se com uma homenagem coletiva às diferentes gerações que mantiveram viva uma entidade que atravessou ditaduras, processos de redemocratização, transformações sociais e mudanças na própria universidade.

Mais do que uma celebração do passado, a sessão transformou-se em um exercício de memória sobre o papel do movimento estudantil na defesa da democracia brasileira. E, entre todos os relatos apresentados, a narrativa de Inocêncio Uchôa ofereceu um testemunho direto de um período em que organizar estudantes, realizar assembleias e ocupar as ruas significava enfrentar perseguições, prisões e expulsões. Um lembrete de que a história do CACB se confunde, em muitos momentos, com a própria história da resistência democrática no Ceará.

As informações são da sessão solene promovida pela Câmara de Fortaleza e transmitida pela TV Câmara.

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