Da Redação
Presidente do México afirmou que nenhum país deve interferir no processo eleitoral de outra nação e pediu que a decisão dos brasileiros nas urnas seja respeitada. Declaração ocorre um dia depois de Lula levar à Assembleia Geral da ONU uma advertência contra ingerências estrangeiras e afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Sheinbaum também classificou Lula como “um muito bom presidente” e destacou a redução da fome, mas suas palavras não representam apoio institucional do México a uma candidatura brasileira.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, entrou nesta quarta-feira, 23 de setembro, no debate internacional sobre as eleições brasileiras com uma declaração direta: cabe exclusivamente aos brasileiros escolher o próximo presidente da República, sem interferência de qualquer governo estrangeiro.
Questionada durante sua entrevista coletiva sobre o processo eleitoral brasileiro e as denúncias de possível ingerência dos Estados Unidos, Sheinbaum invocou um princípio histórico da política externa mexicana — a autodeterminação dos povos — e pediu respeito ao resultado das urnas.
“Não deve haver ingerência estrangeira em nenhuma eleição. De nenhum país”, declarou. Sobre o Brasil, acrescentou que brasileiras e brasileiros devem decidir “livremente” e que aquilo que o povo escolher deve ser respeitado.
A manifestação ganha relevância pelo momento em que ocorre. Faltam menos de duas semanas para o primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro, e a possibilidade de interferência externa tornou-se um dos temas da reta final da campanha. Na terça-feira, diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula afirmou que o país não permitirá que “inimigos da democracia, internos e externos” atentem contra a vontade popular.
Sheinbaum não pediu voto em Lula nem anunciou qualquer participação no processo eleitoral brasileiro. Sua declaração formal foi mais ampla: governos estrangeiros não deveriam interferir em eleições de outros países. Ao mesmo tempo, ao ser perguntada sobre o presidente brasileiro, fez uma avaliação positiva de sua administração e o classificou como “um muito bom presidente”.
São duas dimensões que precisam ser distinguidas. A primeira é diplomática e diz respeito à soberania eleitoral brasileira. A segunda é a opinião pública da presidente mexicana sobre a gestão de Lula.
Sheinbaum destaca combate à fome e políticas sociais
Ao explicar sua avaliação sobre Lula, Sheinbaum mencionou particularmente os resultados brasileiros no combate à fome e à pobreza.
A presidente mexicana recordou que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO. O resultado foi reconhecido em 2025 com base na média dos indicadores referentes ao período 2022–2024. Para deixar o Mapa da Fome, a prevalência de subalimentação precisa permanecer abaixo do patamar de 2,5% da população considerado pela metodologia da organização.
“Isso é importantíssimo”, disse Sheinbaum ao comentar o resultado.
Não é a primeira manifestação positiva da presidente mexicana sobre o atual governo brasileiro. Em agosto, numa entrevista coletiva oficial, Sheinbaum afirmou que Lula havia realizado um “trabalho extraordinário” à frente do Brasil e disse que os indicadores sustentavam sua avaliação. Na mesma ocasião, explicou que havia conversado com o presidente brasileiro, mas que não poderia realizar determinada visita durante o período eleitoral.
Essa cautela é significativa.
Embora exista proximidade política e diplomática entre os dois governos, Sheinbaum está falando sobre uma eleição em outro país. A posição institucional que apresentou nesta quarta-feira foi a de que a escolha pertence aos brasileiros.
O princípio possui raízes profundas na política externa mexicana. A tradição diplomática do México atribui especial importância à não intervenção, à autodeterminação e à solução pacífica das controvérsias — elementos que Sheinbaum voltou a mencionar ao responder sobre o Brasil.
A declaração aparece, portanto, simultaneamente como manifestação sobre a conjuntura brasileira e reafirmação de uma posição histórica do Estado mexicano.
A fala ocorre um dia depois da advertência de Lula na ONU
O momento escolhido por Sheinbaum torna impossível separar sua declaração do pronunciamento realizado por Lula na véspera.
Na abertura do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o presidente brasileiro colocou a soberania no centro de sua intervenção e afirmou que a América Latina voltou a enfrentar pressões associadas ao que chamou de “tentações hegemônicas”.
Foi nesse contexto que pronunciou uma das frases de maior repercussão do discurso:
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Lula não mencionou Donald Trump nominalmente nessa passagem, mas a declaração ocorreu em meio a um período de forte tensão entre Brasília e Washington. Na mesma Assembleia Geral, Trump reafirmou a intenção dos Estados Unidos de exercer maior poder no Hemisfério Ocidental e prometeu empregar seu “poderio militar inigualável” contra ameaças que seu governo identifica na região.
O governo americano vem ampliando sua campanha contra organizações que classifica como narcoterroristas e recuperou a linguagem da primazia dos Estados Unidos no hemisfério. O México, diretamente confrontado com a pressão americana sobre os cartéis, também está no centro dessa discussão.
Isso ajuda a explicar por que as palavras de Sheinbaum possuem significado que ultrapassa a relação pessoal com Lula.
Brasil e México são as duas maiores economias da América Latina e mantêm relações profundamente diferentes com os Estados Unidos. O México compartilha mais de três mil quilômetros de fronteira com o território americano e possui enorme integração comercial com seu vizinho. O Brasil não possui essa dependência geográfica e mantém uma política externa mais diversificada.
Mesmo partindo de posições diferentes, Brasília e Cidade do México encontram-se diante de uma mesma questão: quais são os limites da influência dos Estados Unidos sobre decisões políticas e de segurança dos países latino-americanos?
Eleição brasileira virou tema de política externa
O processo eleitoral brasileiro ganhou dimensão internacional ao longo dos últimos meses.
As tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos já haviam entrado na campanha depois da imposição de tarifas americanas a produtos brasileiros. A Reuters registrou em julho que as medidas de Washington passaram a alimentar diretamente o debate eleitoral, com governo e oposição atribuindo responsabilidades diferentes pela deterioração das relações bilaterais.
Mais recentemente, Lula passou a acusar integrantes do governo Trump de interferirem politicamente no processo brasileiro. Seus adversários rejeitam essa acusação. Flávio Bolsonaro, principal candidato da oposição, afirmou na semana passada que sua campanha não recebe ajuda do governo americano.
Essas posições precisam permanecer claramente separadas.
Há uma acusação política do governo brasileiro de que Washington procura influenciar o ambiente eleitoral. Há uma negativa pública do principal candidato oposicionista de que sua campanha receba apoio do governo dos Estados Unidos. E há decisões concretas americanas — como tarifas e mudanças na política regional — que produzem efeitos objetivos sobre a relação bilateral.
A declaração de Sheinbaum não resolve essa controvérsia nem apresenta novas evidências sobre eventuais ações americanas.
Ela estabelece uma posição normativa: nenhum governo estrangeiro deveria interferir na eleição brasileira.
Foi exatamente nesse ponto que sua fala coincidiu com o discurso apresentado por Lula na ONU.
O presidente brasileiro afirmou que o pleito será “transparente e competitivo”, disse que todos os candidatos dispõem de liberdade de expressão e acusou alguns atores políticos, sem nomeá-los naquele trecho, de se associarem a interesses estrangeiros contrários ao país.
Sheinbaum, no dia seguinte, evitou entrar nessa disputa doméstica e formulou a questão em termos de soberania nacional.
“Que brasileiras e brasileiros decidam livremente.”
A frase pode parecer simples, mas ocorre num momento em que a autonomia política latino-americana voltou ao centro das relações hemisféricas.
Trump utiliza a Assembleia Geral para falar em reafirmação do poder americano no Hemisfério Ocidental. Lula responde que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. E a presidente mexicana, governando o país que possui a relação territorial mais intensa com os Estados Unidos, afirma que nenhum país deve interferir nas eleições brasileiras.
Não há, a partir dessas declarações, uma nova aliança formal entre Brasil e México contra Washington. Tampouco existe uma posição latino-americana uniforme: governos da região mantêm relações muito diferentes com a administração Trump e divergem sobre segurança, comércio, Venezuela, Cuba e presença militar americana.
O que existe é uma convergência pública entre Lula e Sheinbaum sobre um princípio específico: processos eleitorais nacionais devem ser decididos pelos cidadãos de cada país.
E, no caso brasileiro, essa discussão deixou de ser exclusivamente doméstica.
Depois de Lula levá-la à tribuna das Nações Unidas e Sheinbaum se manifestar publicamente no dia seguinte, a preservação da soberania sobre as eleições brasileiras tornou-se também um tema explícito da diplomacia latino-americana.





