Apresentar o Bancos da Democracia é viver a comunicação como parte da vida, onde moedas sociais, bancos comunitários e cooperativas mostram que a transformação não está no espetáculo,
Por Sara Goes
Desde junho de 2024, apresento o programa Bancos da Democracia na Atitude Popular, webradio e webTV comunitária do Ceará, com apoio do Instituto e-dinheiro e da Rede de Bancos Digitais Solidários. É uma experiência profundamente transformadora, não só pelo conteúdo que levamos ao ar, mas pelo lugar que ele ocupa em minha trajetória e nas disputas contemporâneas entre narrativas, territórios e futuros possíveis.
Sou filha de uma família comunista e cresci ouvindo histórias de repressão, resistência, reuniões clandestinas e livros escondidos na estante da casa da minha avó. Do lado do meu pai havia o petismo disciplinado, entusiasmado com a ideia de fazer a revolução pelo voto. Funcionário da CHESF, ele acreditava que o Brasil se tornaria mais justo com Lula no poder. A primeira vez que o vi chorar foi em 2003, quando Lula subiu a rampa. Guardava a fita VHS daquela posse como símbolo de um sonho coletivo. Para nós, a régua revolucionária ia de 1917 a 2003, da Revolução Russa ao operário-presidente, até que o tempo começou a tensionar certezas.
Trabalhando em home office desde 2011, acompanhei quase em tempo real a ascensão do discurso de Olavo de Carvalho, o reacionarismo embalado em memes e o cinismo programado. Também vi sinais no continente, como o golpe paraguaio de 2012, que soou como alerta precoce. Acabei mergulhando nos estudos sobre comunicação, vigilância, subjetividade e disputa de narrativas. O que me afastou da minha área de formação (Arte) não foi o desinteresse, mas a frustração. Sentia que a formação artística na universidade se tornava cada vez mais autorreferente, centrada em microuniversos ególatras que se diziam críticos, mas eram indiferentes à realidade material. Era como se a estética tivesse se desconectado da política e da vida. E eu precisava reencontrar a materialidade dialética, aquela que ancora a reflexão no chão histórico e social, onde pensamento e prática se alimentam mutuamente e a transformação deixa de ser metáfora para se tornar processo concreto.
Esse deslocamento me levou ao jornalismo. Passei a escrever, produzir conteúdo progressista e me envolver com a comunicação independente, aproximando-me do DCM, onde entrei anos depois. Já trazia, no entanto, um incômodo com o discurso empreendedor, presente até no jornalismo alternativo, que muitas vezes replicava a lógica das plataformas que criticava. Foi nesse contexto que conheci a economia solidária, não como teoria, mas como prática concreta e resposta real.
Na Atitude Popular comecei a me aproximar das experiências de moedas sociais, bancos comunitários, feiras autogestionadas e cooperativas de base territorial. Logo percebi que ali havia um projeto de sociedade inteiro, que escapava ao discurso sedutor do empreendedorismo e oferecia algo mais essencial: pertencimento e dignidade. Não se tratava de negócios de impacto ou de cases escaláveis, mas de sobrevivência organizada, autonomia coletiva e resistência cotidiana. Sobretudo, de uma linguagem que não precisava performar eficiência, mas sustentava afeto e urgência.
Essa disputa entre economia solidária e empreendedorismo é, antes de tudo, uma disputa narrativa sobre o que parece natural. O empreendedorismo, impulsionado por plataformas digitais e discursos institucionais, exalta a superação individual, a eficiência, a marca pessoal. É uma narrativa performática e sedutora, com palco garantido nos algoritmos. A economia solidária se constrói em rede, no silêncio das cozinhas coletivas, nas assembleias das cooperativas, nas filas do banco comunitário. Não se impõe, constrói.
Nesse embate, a infocomunicação é decisiva. É no cruzamento entre informação e afeto, técnica e desejo, que se forma o imaginário social sobre o que é economia, o que é sucesso, o que é possível. O empreendedorismo se apresenta como espetáculo; a economia solidária, como infraestrutura. E a qualidade da informação não se mede apenas pela exatidão técnica, mas pela capacidade de representar de forma justa sujeitos e práticas historicamente silenciados.
Apresentar o Bancos da Democracia tornou-se, para mim, um gesto de reencontro material com a vida concreta. Comecei o programa durante a licença-maternidade e me marcou o fato de o diretor da rádio, Souza Júnior, achar absolutamente natural que eu entrasse no ar com o berço do meu filho ao fundo. Em outras redações, inclusive no Brasil 247, onde sigo trabalhando, essa cena seria impensável. Mas na rádio comunitária, fazia sentido. Ali, a maternidade não era interrupção, era parte da vida, e a vida cabia no ar.
Essa experiência me reconectou ao território, ao sotaque, à possibilidade de comunicar o que importa sem filtros artificiais. Percebi que a revolução também se dá nesse gesto: não esconder o berço, falar do banco digital sem glamour, ouvir uma agricultora com o mesmo interesse que se ouve um analista de mercado. Minha régua revolucionária, que ia de 1917 a 2003, agora se desdobra em outros marcos: em cada bairro onde uma moeda social circula, em cada aplicativo que serve ao povo e não ao lucro, em cada programa em que a comunicação deixa de ser espetáculo e volta a ser ferramenta.
No fundo, minha revolução ainda tem o rosto do meu pai, mas agora também tem a voz da mulher que faz parte de uma cooperativa de costura e aprendeu a usar o celular para vender sem atravessador. Tem o silêncio concentrado do agricultor que ouve a rádio no intervalo do plantio. E tem o choro leve do meu filho, lembrando que a transformação também se constrói nas interrupções, na materialidade viva do que é possível aqui e agora.




