Por Sara Goes
As eleições de 2026 começaram cedo demais. Pesquisas sucessivas anteciparam o pleito e mantiveram o país por meses num ambiente de apuração permanente. A militância está cansada, as pessoas se dispersam e as pautas perdem capacidade de mobilização com uma velocidade assustadora. Mesmo reivindicações populares com apoio social amplo encontram dificuldade para atravessar o bloqueio do Congresso. O Centrão aprendeu que não precisa necessariamente derrotar uma reivindicação no voto. Pode deixá-la esperando, retirar sua urgência e permitir que o desgaste faça o serviço. As ruas também não serão ocupadas exatamente como em outros momentos. A disputa ocorre de maneira fragmentada, num ambiente em que cada assunto é consumido durante alguns dias antes de ser substituído por outro.
Mas na política, olhar o copo meio cheio é reconhecer, sobretudo nas dificuldades, aquilo que mudou a nosso favor, não por uma questão de fé, mas por estratégia fria e objetiva.
A própria Polícia Federal oferece um exemplo concreto dessa mudança. A instituição carrega, desde sua formação, a cultura autoritária do Estado brasileiro. Durante a ditadura militar, órgãos policiais e de inteligência vigiaram, prenderam e perseguiram estudantes, jornalistas, sindicalistas e parlamentares que se opunham ao regime.
A redemocratização modificou leis, comandos e procedimentos, mas não eliminou de imediato essa cultura. Permaneceram dentro das instituições de segurança concepções segundo as quais movimentos sociais, partidos de esquerda e organizações sindicais deveriam ser tratados como ameaças, enquanto agentes políticos conservadores eram vistos como aliados naturais da autoridade.
Muito antes de Jair Bolsonaro, portanto, já existia uma polícia inclinada à extrema direita. O bolsonarismo não inventou essa corrente. Deu a ela uma identidade política mais nítida, ofereceu representação eleitoral e tentou transformar afinidade ideológica em controle institucional.
A Lava Jato revelou o tamanho desse problema. Investigações, vazamentos e operações foram utilizados para interferir no debate público e atingir seletivamente determinados grupos políticos. Procedimentos policiais passaram a obedecer ao calendário do noticiário, enquanto delegados e procuradores eram apresentados como protagonistas de um projeto de poder.
Essa tradição não desapareceu com a derrota de Bolsonaro. Ela continuou presente na corporação e reapareceu nos últimos meses em pelo menos três momentos.
Em novembro de 2025, a primeira tentativa de limitar a Polícia Federal apareceu durante a discussão do Projeto de Lei Antifacção. Guilherme Derrite, escolhido relator após uma articulação de Hugo Motta com Arthur Lira e o grupo de Tarcísio de Freitas, apresentou um texto que condicionava parte da atuação da PF nos estados à solicitação dos governadores. A medida poderia submeter investigações contra o braço financeiro das facções a interesses políticos locais. A direção da corporação reagiu publicamente e Derrite recuou.
A divisão interna ficou mais evidente durante a CPMI do INSS. Enquanto as provas alcançavam empresários, associações e agentes políticos ligados a diferentes governos, um setor da PF produzia pedidos e informações que mantinham Frei Chico e Lulinha sob suspeita. André Mendonça autorizava diligências, informações sigilosas chegavam ao noticiário e a repercussão alimentava novos requerimentos da oposição. Quando a direção da PF reorganizou a equipe responsável pelo caso, o ministro cobrou explicações e passou a exigir acesso integral ao material relacionado a Lulinha.
A crise chegou ao comando da instituição quando relatórios da PF foram usados na disputa entre Mendonça e Alexandre de Moraes. Mensagens de Daniel Vorcaro levantaram dúvidas sobre Moraes, enquanto documentos sobre a atuação de Mendonça nos casos Master e INSS serviram de base para um pedido de investigação contra ele. Em resposta, Mendonça afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada.
A reação foi imediata. Onze dos treze diretores da PF colocaram seus cargos à disposição em apoio aos dois delegados. Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei e Almada e questionou a atuação de Mendonça numa disputa da qual ele próprio era parte interessada. Em 9 de setembro, Edson Fachin suspendeu as decisões dos dois ministros, mas manteve Andrei no comando da PF. Também concentrou na Presidência do STF as decisões sobre investigações contra integrantes da Corte e retirou de Moraes a condução do Inquérito das Fake News.
A sequência começou com uma tentativa de reduzir a autonomia da PF, passou pelo uso político das investigações do INSS e terminou, até agora, com uma intervenção direta sobre sua direção. Em todos esses momentos, porém, houve resistência dentro da própria corporação. O afastamento de Andrei não prevaleceu porque a Polícia Federal já não aceita passivamente interferências capazes de comprometer sua atuação.
A crise envolve relatórios frágeis, vazamentos e interesses eleitorais, mas também revela uma mudança dentro da Polícia Federal. A instituição, marcada por uma cultura autoritária e pela atuação de setores bolsonaristas, passou a abrigar uma resistência capaz de impedir interferências políticas.
A PF continua dividida e sujeita a interesses políticos. A diferença é que a extrema direita já não atua dentro da instituição sem encontrar oposição organizada e com presença em seus cargos de direção. A polícia que persegue inimigos ainda existe. A novidade histórica é que agora também existe uma Polícia Federal que se recusa a perseguir eleitores, que investiga tentativas de golpe e que resiste quando alguém procura subordinar sua atuação a interesses eleitorais. Olhar o copo meio cheio é uma necessidade para reconhecer os lugares onde a disputa avançou. E agora o que o copo nos conta é que além da Polícia Federal Bolsonarista, existe uma Polícia Federal do Brasil.






