Superintendentes da Polícia Federal saem em defesa da direção-geral e reagem à crise com André Mendonça

Da Redação

Em nota conjunta, os 27 chefes regionais da PF afirmam que a corporação atua com independência técnica e rejeitam interferências políticas, ideológicas ou pessoais nas investigações. Manifestação amplia o embate institucional envolvendo o ministro do STF André Mendonça.

Os 27 superintendentes regionais da Polícia Federal divulgaram uma nota conjunta em defesa da Direção-Geral da corporação, em meio ao agravamento da crise institucional entre a cúpula da PF e o gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento reafirma que as investigações conduzidas pela Polícia Federal seguem exclusivamente critérios técnicos, legais e constitucionais, afastando qualquer influência de interesses políticos ou pessoais.

Na manifestação, os dirigentes destacam que a credibilidade da instituição foi construída ao longo de décadas por meio da atuação técnica e independente de seus servidores. “A atividade investigativa da Polícia Federal não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei”, afirmam os superintendentes no texto divulgado nesta quinta-feira.

O posicionamento ocorre após semanas de tensão envolvendo a condução de investigações sob relatoria de André Mendonça. Um dos principais pontos de atrito diz respeito às apurações sobre supostas irregularidades envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O gabinete do ministro passou a cobrar esclarecimentos sobre diligências e procedimentos adotados pela Polícia Federal, enquanto integrantes da corporação consideram que determinadas decisões judiciais interferem na autonomia administrativa e investigativa da instituição.

Outro foco da controvérsia envolve restrições impostas pelo ministro ao compartilhamento interno de informações sensíveis entre delegados e superiores hierárquicos da Polícia Federal. A direção da corporação entende que essas limitações podem comprometer a gestão das investigações e, por isso, acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) para avaliar juridicamente as decisões tomadas pelo gabinete de Mendonça.

O desgaste entre o ministro do STF e a direção da PF não é recente. A relação já vinha sendo tensionada pelas investigações relacionadas ao chamado Caso Banco Master e às fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nos bastidores, interlocutores da Polícia Federal sustentam que algumas decisões do gabinete de Mendonça dificultaram o fluxo operacional das investigações. Já auxiliares do ministro afirmam que as medidas adotadas têm como objetivo preservar o sigilo processual e garantir o cumprimento das normas legais, negando qualquer tentativa de interferência na atuação da corporação.

Na nota, os superintendentes também fazem referência ao ambiente de críticas públicas dirigido à instituição. Embora reconheçam que o debate público seja legítimo em uma democracia, afirmam que ataques destinados a fragilizar a confiança da sociedade na Polícia Federal representam um risco para o funcionamento das instituições republicanas.

A manifestação conjunta dos 27 superintendentes é considerada incomum e demonstra o grau de preocupação da cúpula regional da Polícia Federal com o atual cenário institucional. Em uma estrutura marcada pela hierarquia e pela discrição, posicionamentos públicos dessa natureza costumam ocorrer apenas em momentos de forte tensão interna. O episódio também evidencia a crescente complexidade das relações entre órgãos de investigação, Poder Judiciário e Executivo em processos de grande repercussão política. Para além do caso específico, a controvérsia recoloca no centro do debate a necessidade de preservar a autonomia funcional dos órgãos de investigação e, ao mesmo tempo, assegurar os mecanismos constitucionais de controle jurisdicional previstos no Estado Democrático de Direito.