Antonio Ibiapino e Reynaldo Aragon discutem soberania digital, mobilização popular e os desafios das eleições de 2026 no Democracia no Ar
A influência das grandes empresas de tecnologia sobre as eleições e a necessidade de transformar seguidores em uma base política organizada foram discutidas em uma edição do programa Democracia no Ar, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular.
O debate foi realizado pelo ativista, sindicalista e professor Antonio Ibiapino e pelo jornalista e pesquisador Reynaldo Aragon. As informações e declarações reproduzidas nesta matéria foram apresentadas originalmente durante o programa idealizado pelo movimento Democracia Participativa.
Aragon abriu a edição destacando que a campanha eleitoral de 2026 ocorrerá em um ambiente digital controlado por grandes corporações estrangeiras, responsáveis pelas redes sociais, pelos mecanismos de busca, pela publicidade digital e por sistemas capazes de selecionar quais mensagens recebem maior circulação.
Segundo o jornalista, a atuação política não pode se limitar à produção de conteúdo para plataformas como Instagram, Facebook, TikTok, YouTube e X. Embora essas redes concentrem uma parcela expressiva da audiência, as campanhas não controlam os canais de comunicação nem os dados das pessoas que acompanham seus perfis.
“Hoje estamos presos a essas grandes plataformas digitais”, afirmou Aragon.
Para ele, o desafio consiste em utilizar as redes para ampliar a visibilidade, sem permitir que toda a organização política permaneça subordinada às decisões das empresas de tecnologia.
“A questão é construir alternativas desde já para que a gente tenha, no futuro, autonomia para construir nossos próprios espaços de debate”, declarou.
Seguidores não são uma base organizada
Um dos pontos centrais do programa foi a diferença entre reunir seguidores e construir uma militância capaz de atuar de forma permanente.
Nas redes sociais, uma campanha pode alcançar milhares de pessoas por meio de vídeos, transmissões e publicações. Esse público, no entanto, permanece vinculado à plataforma, e não diretamente à organização política.
Uma alteração no algoritmo pode reduzir o alcance de uma página, interromper a comunicação com os seguidores ou exigir investimentos financeiros para que uma publicação seja mostrada a pessoas que já acompanham determinado perfil.
A audiência também pode desaparecer depois da eleição ou se dispersar quando o tema deixa de receber destaque nas redes.
Uma base organizada estabelece vínculos mais duradouros. Ela pode ser formada por meio de listas de contatos, grupos territoriais, núcleos comunitários, sindicatos, associações, movimentos sociais e sistemas próprios de comunicação.
Nesse modelo, a tecnologia não substitui o trabalho político nos territórios. Ela ajuda a distribuir tarefas, organizar agendas, registrar apoiadores e conectar pessoas interessadas em participar da campanha.
Aragon afirmou que a preparação da militância deve começar antes do período oficial de campanha, especialmente diante da capacidade das plataformas de microssegmentar mensagens e interferir na circulação das informações.
Algoritmos participam da disputa política
As plataformas digitais não distribuem conteúdos de maneira neutra. Seus sistemas analisam o comportamento dos usuários e selecionam publicações com base em critérios comerciais, políticos e tecnológicos que não são inteiramente conhecidos pela sociedade.
Cada curtida, comentário, compartilhamento ou tempo de permanência diante de um vídeo ajuda a construir perfis detalhados dos usuários. Esses dados podem ser utilizados para direcionar publicidade e conteúdos políticos a grupos específicos.
Na avaliação de Aragon, esse sistema oferece às empresas de tecnologia uma capacidade inédita de interferir na formação das opiniões e no comportamento eleitoral.
“Essas grandes corporações de tecnologia utilizam seu capital, suas plataformas e seus algoritmos para modular o comportamento da sociedade”, disse.
O jornalista relacionou esse processo à eleição de Donald Trump, em 2016, nos Estados Unidos, e à campanha de Jair Bolsonaro, em 2018, no Brasil. Nos dois casos, as redes digitais tiveram papel importante na circulação de propaganda política, na segmentação dos públicos e na disseminação de informações falsas ou distorcidas.
A influência das plataformas não se resume à divulgação de notícias falsas. Ela também ocorre quando determinados assuntos recebem distribuição intensa enquanto outros desaparecem dos ambientes digitais.
O usuário acredita estar escolhendo livremente o que consome, mas suas opções são condicionadas por sistemas que definem a ordem das publicações e calculam quais conteúdos têm maior possibilidade de provocar reações.
Soberania digital e eleições
O debate sobre tecnologia foi relacionado à soberania nacional. Para Aragon, o Brasil enfrenta um cenário em que parte significativa da comunicação pública e eleitoral depende de empresas sediadas no exterior.
Essas corporações armazenam dados de milhões de brasileiros e administram estruturas utilizadas por governos, partidos, empresas, veículos de comunicação e organizações sociais.
A dependência limita a capacidade do país de definir, de forma autônoma, como suas informações circulam e quais regras devem orientar os sistemas de recomendação.
Durante o programa, Aragon também relacionou as eleições de 2026 ao cenário internacional. Segundo ele, o Brasil ocupa uma posição relevante na disputa entre diferentes projetos políticos e econômicos, especialmente por sua extensão territorial, seus recursos naturais e sua participação em iniciativas de integração do Sul Global.
O jornalista defendeu que a campanha pela reeleição do Presidente Lula deverá enfrentar pressões externas e uma disputa digital intensa.
Para Aragon, a defesa da soberania exige tanto políticas públicas de desenvolvimento tecnológico quanto a formação de redes próprias de comunicação e mobilização.
Antonio Ibiapino critica direita latino-americana
Antonio Ibiapino concentrou parte de sua participação na análise do avanço da direita na América Latina e nas consequências das políticas adotadas pelo governo de Javier Milei na Argentina.
O ativista criticou os cortes promovidos em políticas sociais, na educação, na cultura, na saúde e nos direitos trabalhistas argentinos. Também associou esse programa econômico às propostas defendidas por integrantes da família Bolsonaro no Brasil.
Na avaliação de Ibiapino, parte da direita apresenta a retirada de direitos como sinônimo de modernização econômica.
“Eles acham que progredir é exatamente tirar direitos”, declarou.
O professor também criticou a participação de lideranças internacionais em eventos políticos da direita brasileira e afirmou que governos estrangeiros procuram ampliar sua influência sobre os países latino-americanos.
Segundo ele, o domínio político da região está relacionado ao controle de matérias-primas, recursos naturais e mercados consumidores.
“Eles precisam dessa matéria-prima. Então precisam de lacaios que não respeitem sua pátria nem seu povo”, afirmou ao comentar a estratégia dos Estados Unidos para a América Latina.
Algumas declarações feitas por Ibiapino durante o programa utilizaram generalizações ofensivas contra judeus ao tratar das ações do governo de Israel. A crítica às decisões de um governo não pode ser transformada em responsabilização de uma comunidade religiosa ou étnica. Esse tipo de generalização não contribui para a compreensão do conflito e reproduz preconceitos históricos.
Relato sobre educação e políticas sociais
Ao analisar o cenário eleitoral brasileiro, Ibiapino relatou sua experiência como estudante em uma comunidade rural do Ceará.
“Eu estudei no alpendre de uma casa. Não tinha merenda escolar, não tinha nenhum recurso, não tinha nem cadeira”, contou.
Segundo ele, a escola reunia crianças de diferentes níveis de ensino em uma única sala e a professora recebia menos de um salário mínimo.
O professor comparou aquela realidade com a expansão das escolas de tempo integral, das universidades e das políticas de financiamento estudantil implementadas durante os governos do PT.
Também citou o piso salarial dos professores, os programas de combate à fome, a agricultura familiar e as políticas de transferência de renda como fatores que explicariam a liderança do Presidente Lula nas pesquisas eleitorais.
Para Ibiapino, a eleição de 2026 terá como temas centrais a proteção das políticas sociais e a defesa da soberania brasileira.
“O que nós temos que fazer é um grande esforço para defender nossa soberania, nossa democracia, nossa economia e os trabalhadores que só agora estão tendo oportunidade de uma vida melhor”, disse.
Tecnologia não substitui participação política
O debate entre Antonio Ibiapino e Reynaldo Aragon mostrou que a disputa eleitoral nas redes sociais não pode ser separada da organização presencial.
Vídeos com grande alcance podem ampliar uma mensagem, mas não garantem que os espectadores participem de reuniões, defendam propostas em suas comunidades ou ajudem a construir uma campanha.
Uma estratégia política menos dependente das plataformas precisa transformar o interesse momentâneo em vínculos estáveis. Isso envolve a criação de canais diretos, a formação de lideranças e a participação de organizações que já atuam nos territórios.
As redes sociais continuarão sendo importantes nas eleições de 2026. A questão levantada pelo Democracia no Ar é quem controlará as relações construídas nesses ambientes depois que uma publicação desaparecer da tela.
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