Economista analisa queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, disputa interna da direita e os movimentos que já reorganizam a corrida presidencial de 2026
Da Redação
O programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, recebeu o economista e professor universitário Fábio Sobral para uma análise sobre os efeitos políticos da queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais e os rearranjos que começam a movimentar o campo conservador para a disputa presidencial de 2026. A entrevista foi conduzida por Sara Goes e discutiu desde os conflitos internos do bolsonarismo até a possível ascensão de novos nomes na extrema direita brasileira.
Ao longo da conversa, Sobral argumentou que o enfraquecimento de Flávio Bolsonaro abriu uma disputa silenciosa por espaço dentro da direita, envolvendo figuras como Michelle Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e, principalmente, Ciro Gomes, apontado pelo economista como um possível beneficiário do desgaste do clã Bolsonaro.
“O Ciro tem todos os elementos do Bolsonaro, menos a burrice”, afirmou Sobral ao analisar o movimento de aproximação do ex-governador cearense com setores conservadores e bolsonaristas.
Segundo o economista, o cenário revela uma fragmentação cada vez mais evidente dentro da extrema direita brasileira. Para ele, Michelle Bolsonaro trabalha um projeto político de longo prazo, sustentado por lideranças neopentecostais e pela consolidação de uma base ideológica ligada à teocracia e ao conservadorismo religioso.
“Ela está construindo a base. Ela é a pessoa que mantém o espírito bolsonarista vivo”, afirmou.
Flávio Bolsonaro perde espaço dentro do próprio bolsonarismo
Durante a entrevista, Fábio Sobral avaliou que Flávio Bolsonaro enfrenta um processo acelerado de desgaste político, agravado pelas investigações envolvendo emendas parlamentares, ligações com empresários investigados, suspeitas relacionadas à Refit e os desdobramentos do caso envolvendo Daniel Vorcaro.
Sobral afirmou que a crise não se restringe ao impacto eleitoral imediato. Para ele, há uma perda concreta de apoio dentro do próprio ecossistema bolsonarista.
“O PL está esperando esse cadáver político”, disse.
O economista observou ainda que parte da extrema direita religiosa já começa a abandonar Flávio Bolsonaro e reorganizar seus interesses para além da família Bolsonaro. Segundo ele, Silas Malafaia, setores do PL e lideranças evangélicas estariam mais preocupados em preservar um projeto político de longo prazo do que defender especificamente o senador.
Michelle Bolsonaro e o projeto de poder da extrema direita
Na avaliação de Sobral, Michelle Bolsonaro representa um projeto mais estruturado e potencialmente mais perigoso do que o próprio Flávio Bolsonaro.
“O plano dela é instaurar no Brasil uma teocracia dominada por pastores de certas igrejas neopentecostais”, afirmou.
O economista acredita que Michelle Bolsonaro deve priorizar uma candidatura ao Senado em 2026, especialmente pelo Distrito Federal, utilizando o Congresso como plataforma de consolidação política rumo a 2030.
Para ele, a ex-primeira-dama atua como uma liderança simbólica do bolsonarismo e mantém influência sobre setores religiosos, redes digitais e grupos conservadores que enxergam na pauta moral um instrumento de reorganização política.
Ciro Gomes reaparece como alternativa para a direita
Um dos pontos centrais da entrevista foi a possibilidade de Ciro Gomes surgir como alternativa competitiva para setores da direita e do bolsonarismo diante do desgaste de Flávio Bolsonaro.
Sobral afirmou que o ex-ministro vem há anos construindo um deslocamento político gradual.
“Ele foi desistindo da ideia de ser de esquerda para caminhar para a direita”, declarou.
O economista lembrou que aliados históricos de Ciro migraram para partidos conservadores e apontou sinais de aproximação com setores bolsonaristas no Ceará. Segundo ele, o ex-prefeito Roberto Cláudio, o deputado André Fernandes e integrantes do União Brasil fazem parte de um movimento que tenta consolidar uma nova composição política no estado.
“Todos os caminhos estão apontando para o Ciro Gomes”, resumiu.
Apesar disso, Sobral afirmou acreditar que Ciro só disputaria a Presidência caso recebesse apoio explícito do núcleo bolsonarista nacional.
A disputa pela herança do bolsonarismo
Ao analisar os diferentes grupos da extrema direita, Sobral argumentou que o bolsonarismo entrou em uma crise estrutural. Segundo ele, Jair Bolsonaro não conseguiu construir um sucessor sólido e os filhos acumulam fragilidades políticas próprias.
Sobre Eduardo Bolsonaro, afirmou que a mudança para os Estados Unidos acabou inviabilizando sua consolidação como herdeiro político do pai.
“O bolsonarismo podia ter reservado ele para ser o substituto do pai, mas ele queimou essa alternativa”, disse.
Já Carlos Bolsonaro, segundo Sobral, não teria capacidade de sustentar uma candidatura nacional, enquanto Jair Renan foi citado pelo economista como alguém sem densidade política.
Congresso, fake news e influência das big techs
A entrevista também abordou o papel do Congresso Nacional e das plataformas digitais na disputa política brasileira.
Sobral afirmou estar pessimista em relação à renovação parlamentar em 2026 e criticou duramente o atual sistema eleitoral, especialmente o peso do poder econômico nas campanhas.
Segundo ele, o Congresso atual aprofundou políticas de destruição ambiental e captura do Estado por interesses privados.
“Eles estão passando a boiada”, afirmou ao comentar medidas recentes aprovadas pelo Legislativo.
O economista também demonstrou preocupação com o papel das big techs e da inteligência artificial nas próximas eleições. Para ele, a extrema direita deve buscar apoio de empresas de tecnologia e redes digitais para ampliar mecanismos de propaganda política, desinformação e manipulação eleitoral.
Viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos levanta suspeitas
No fim da entrevista, Sara Goes trouxe a informação de que Flávio Bolsonaro estaria viajando aos Estados Unidos após suposto convite ligado ao presidente Donald Trump.
Sobral avaliou que a movimentação pode ter diferentes objetivos, incluindo tentativa de reposicionamento político internacional e até receio de novas operações judiciais no Brasil.
“Isso tem cara de fuga”, afirmou. Segundo ele, a viagem também poderia representar uma tentativa de aproximar o bolsonarismo das grandes empresas de tecnologia norte-americanas visando influência eleitoral futura.
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