Da Redação
Inundações repentinas devastaram o norte do Nepal, próximo à fronteira com a China, deixando pelo menos 1.003 mortos e quase 4 mil desaparecidos. Centenas de trabalhadores ligados a hidrelétricas estão entre os que ainda não foram localizados, enquanto equipes nepalesas, indianas, chinesas e sul-coreanas avançam por túneis inundados na esperança de encontrar sobreviventes. Mais de 21 mil agentes de segurança participam da gigantesca operação de busca e socorro.
O Nepal enfrenta uma das maiores catástrofes de sua história recente. Sete dias depois de uma inundação repentina atingir violentamente regiões montanhosas do norte do país, próximas à fronteira com a China, o número de mortos chegou a 1.003, enquanto quase 4 mil pessoas permanecem desaparecidas. A dimensão da tragédia continua, porém, em aberto: equipes de resgate ainda tentam acessar túneis de grandes projetos hidrelétricos onde centenas de trabalhadores podem ter ficado presos quando a água, a lama e os detritos avançaram pelo corredor do rio Trishuli.
Os números foram divulgados pela Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal (NDRRMA) e pelo Ministério das Relações Exteriores, segundo informações reunidas pela RT. Cerca de 11,8 mil pessoas já foram resgatadas, mas a quantidade de desaparecidos transforma cada hora transcorrida em um elemento crítico para as operações. Entre os que ainda não foram localizados estão aproximadamente 590 estrangeiros de 39 países, ampliando a dimensão internacional da emergência.
O centro da operação está agora numa extensa rede de túneis associados às hidrelétricas construídas nas montanhas nepalesas. As autoridades registram 639 desaparecidos ligados aos projetos de geração de energia, embora ainda não consigam determinar quantos estavam efetivamente dentro das galerias no momento da inundação e quantos podem ter sido arrastados pela correnteza. Há entre 12 e 13 túneis considerados prioritários para as equipes de busca.
A geografia transforma o resgate numa operação extremamente complexa. São estruturas subterrâneas com quilômetros de extensão, parcialmente inundadas e atingidas por lama, rochas e destroços. Antes que os socorristas consigam avançar, é necessário drenar água, remover obstáculos e verificar a estabilidade das galerias.
No projeto hidrelétrico Upper Trishuli-3A, as equipes conseguiram localizar e perfurar a entrada de um túnel e passaram a bombear ar para seu interior enquanto retiravam a água acumulada. Máquinas escavadeiras e equipamentos para fragmentação de rochas trabalham simultaneamente na abertura das vias de acesso. Segundo informações reproduzidas pela RT a partir do Kathmandu Post, entre 30 e 40 pessoas podem estar na casa de força subterrânea, conectada a um túnel com aproximadamente quatro quilômetros de extensão.
A esperança de encontrar sobreviventes permanece porque centenas de trabalhadores conseguiram escapar das instalações hidrelétricas logo depois da inundação. O Exército nepalês informa que 279 pessoas foram retiradas com vida dos projetos, sendo 221 somente do Upper Trishuli-3A e outras 33 do Upper Trishuli-1.
Operação internacional entra nos túneis
A magnitude do desastre levou o Nepal a mobilizar ajuda externa especializada. Vinte e quatro especialistas indianos e nove chineses em salvamento subterrâneo foram enviados às áreas afetadas, enquanto uma equipe da Coreia do Sul também chegou ao país. Eles trabalham ao lado das forças nepalesas em operações nas quais alguns metros de avanço podem exigir a retirada de grandes volumes de água e lama.
No Upper Trishuli-1, uma equipe conjunta conseguiu avançar cerca de 200 metros dentro de uma galeria de 9,5 quilômetros. No túnel de Chilime, os socorristas alcançaram aproximadamente 50 metros, enquanto em Langtang chegaram a cerca de 150 metros. Os dois últimos possuem aproximadamente três quilômetros de extensão.
Mais de 21 mil integrantes das forças de segurança nepalesas estão envolvidos nas buscas, evacuações e distribuição de ajuda humanitária. O governo também mobilizou caminhões e veículos utilitários carregados com alimentos e materiais de emergência, além de utilizar helicópteros para alcançar localidades onde estradas e pontes foram destruídas ou bloqueadas.
A lista de equipamentos solicitados internacionalmente revela a escala e a dificuldade da operação. O Nepal pediu sistemas LiDAR, capazes de realizar mapeamento tridimensional, unidades para construção de pontes temporárias, drones de alta capacidade, equipamentos de conservação de corpos e kits para testes de DNA. A identificação das vítimas poderá se tornar uma das etapas mais dolorosas da tragédia caso o número de mortos continue aumentando.
O Ministério das Relações Exteriores nepalês também montou uma estrutura destinada às famílias dos estrangeiros desaparecidos, oferecendo informações e, quando necessário, apoio para identificação e repatriação das vítimas. A presença de centenas de cidadãos estrangeiros entre os desaparecidos transformou a emergência numa operação diplomática paralela às buscas.
O desastre expõe ainda uma vulnerabilidade estrutural do Nepal. O país possui enorme potencial hidrelétrico graças à combinação entre grandes rios e relevo montanhoso, mas parte dessa infraestrutura está instalada justamente em corredores sujeitos a enchentes, deslizamentos e eventos extremos. Quando uma inundação de grandes proporções atravessa essas regiões, trabalhadores, túneis, estradas, pontes e instalações energéticas podem ser atingidos simultaneamente, dificultando tanto a fuga quanto a chegada das equipes de socorro.
Neste momento, entretanto, a prioridade não é calcular o impacto econômico, mas localizar os desaparecidos. Com quase 4 mil pessoas ainda sem paradeiro conhecido, o balanço de 1.003 mortos permanece provisório e pode mudar rapidamente conforme novas áreas sejam alcançadas e os túneis sejam drenados.
A dimensão humana aparece com particular força justamente debaixo das montanhas. Centenas de famílias ainda não sabem se seus parentes conseguiram sair das hidrelétricas, foram arrastados pelas águas ou permanecem isolados em alguma seção subterrânea. Para os socorristas que avançam lentamente pelas galerias inundadas, encontrar bolsões de ar ou áreas que tenham permanecido protegidas continua representando a possibilidade de localizar sobreviventes.
Sete dias depois da inundação, a operação no Nepal continua sendo uma corrida contra o tempo. Enquanto milhares de militares, policiais, especialistas e voluntários trabalham entre lama, rios e montanhas, cada novo metro conquistado dentro dos túneis pode significar a diferença entre recuperar vítimas e ainda encontrar alguém com vida.





