Atitude Popular

Trump aponta para o céu. O algoritmo captura o dedo. Israel devasta o mundo

Por Sara Goes

A fotografia da Lua opera como uma indenização simbólica e vazia, projetada para que o deslumbramento com o progresso alheio neutralize a percepção da violência real sobre corpos e territórios

A fragmentação da imagem da Artemis II nas telas globais revela menos sobre a Lua e muito mais sobre a mecânica de captura da atenção. Se em 1969 a transmissão única da TV estatal norte-americana operava como um monólito de consenso, em 2026 a missão se transformou em uma matéria-prima maleável, um estoque de pixels à disposição de nichos radicalmente distintos.

Desde as fotografias de alta resolução feitas  pelos astronautas até os registros granulados da chegada ao mar, cada frame foi imediatamente sequestrado por narrativas particulares. Não existe mais o evento comum, mas sim a sua decomposição em ativos digitais. Essa dispersão é evidente na forma como a composição da tripulação foi utilizada. De um lado, grupos isolaram as trajetórias pessoais dos astronautas para alimentar discursos sobre uma suposta contaminação ideológica da ciência, transformando critérios de diversidade em munição para guerras culturais. De outro, o mesmo material serviu para o enaltecimento biográfico, convertendo os astronautas em ícones de representatividade esvaziados de contexto técnico. O fenômeno mais curioso, contudo, reside na exploração da performance humana. Recortes do comportamento dos astronautas sob estresse ou em isolamento foram embalados por influenciadores para a venda de mentorias sobre controle mental e desenvolvimento pessoal. A conquista espacial, nesse cenário, é reduzida a um estudo de caso para cursos de produtividade, onde a Lua é apenas o cenário de fundo para o marketing da alta performance.

A Artemis II, portanto, foi um excelente ativo para a economia da influência, mas teria falhado em cumprir a função social de coesão que a televisão um dia exerceu. O fim do controle centralizado da informação não resultou em uma democratização do saber, mas em uma dispersão planejada. Planejada. Esse descontrole não é um acidente de percurso; é o próprio projeto da rede: a transformação de um marco histórico em um caleidoscópio de interesses privados, onde a verdade científica é apenas mais um elemento na disputa pelo engajamento.

A transição da audiência passiva da era Apollo para a lógica de engajamento da Artemis II alterou profundamente a natureza do evento público. Ao integrar a Netflix ao ecossistema da missão, a NASA não buscou apenas espectadores, mas usuários inseridos em um fluxo de consumo contínuo. A entrada do streaming foi o movimento decisivo para romper a bolha da astronomia técnica e converter a exploração lunar em entretenimento de massa, estabelecendo uma simbiose entre ciência e plataforma que deve se consolidar como o padrão de visibilidade para a Artemis III. Quando a imagem oficial é diluída em milhares de recortes, ela perde sua capacidade de balizar a realidade. O resultado é um fenômeno de dispersão onde a missão espacial deixa de ser um projeto de Estado ou de humanidade para se tornar um repositório de metadados.

Para compreender a profundidade dessa transformação, é crucial revisitar o contexto de 1969. Enquanto a imagem de Neil Armstrong era convertida em um símbolo de união global, os Estados Unidos enfrentavam uma fratura interna profunda sob a gestão de Richard Nixon. O investimento astronômico no programa espacial servia como uma peça de propaganda necessária para ofuscar o ceticismo gerado pela Guerra do Vietnã e a repressão doméstica contra movimentos sociais, estabelecendo uma cortina de fumaça tecnológica sobre uma sociedade em conflito. Essa mesma lógica de poder se estendia para além das fronteiras norte-americanas, onde o pragmatismo geopolítico de Washington abandonava qualquer pretensão de defesa democrática em favor de uma estabilidade autoritária no Sul Global.

No Brasil, o ano da chegada à Lua marcou o endurecimento definitivo da ditadura sob o AI-5 e a ascensão de Médici. O suporte técnico e financeiro fornecido pelos Estados Unidos não se limitava ao campo das comunicações por satélite, mas infiltrava-se nas estruturas de repressão através da profissionalização da tortura e do treinamento de forças policiais. A mesma infraestrutura que permitia a transmissão global do feito lunar era utilizada para articular uma rede transnacional de regimes autoritários na Argentina, no Uruguai e na Grécia. A consolidação dessa “internacional do terror” anticomunista demonstra que o descontrole informacional observado hoje na fragmentação da Artemis II é o herdeiro direto de um projeto de poder que, em 1969, já utilizava a tecnologia para modular a realidade e silenciar dissidências em nome de uma ordem global imposta.

A consagração de 1969 como o ápice do excepcionalismo estadunidense na cultura pop não foi um acidente, mas uma operação de memória que cristalizou a conquista lunar como o emblema definitivo de uma nação unificada e vitoriosa. Enquanto as telas de cinema e as capas de revistas imortalizavam o astronauta como o herói arquetípico, a sociedade estadunidense mergulhava em um grau de alienação que permitia a coexistência do deslumbramento tecnológico com a indiferença sistemática diante das atrocidades cometidas em seu nome. A imagem do homem na Lua funcionou como um anestésico visual, uma distração sublime que oferecia uma fuga das imagens perturbadoras do Massacre de My Lai no Vietnã e da violência policial contra os Panteras Negras no front doméstico. A Lua deixou de ser o espelho da imaginação humana para se tornar o espelho do poder, primeiro como espetáculo unificador, agora como fragmento disputado na economia da atenção.

Essa alienação manifestava-se na capacidade de consumir o espetáculo espacial como um triunfo moral da democracia, ignorando que os mesmos laboratórios que desenvolviam os sistemas de suporte à vida para a missão Apollo eram responsáveis pelo aperfeiçoamento dos agentes químicos utilizados para desfolhar as selvas do Sudeste Asiático. A cultura de massa operou para santificar o ano de 1969, construindo uma nostalgia que ignorava a participação direta de Washington na erosão democrática global. No imaginário popular, a Lua era o território da paz e do progresso, um contraste necessário com uma Terra que, sob a influência direta da política externa de Nixon, financiava a profissionalização da tortura no Brasil e sustentava ditaduras sanguinárias de modo a garantir que o “mundo livre” permanecesse sob seu controle.

O registro histórico da cultura pop acabou por isolar o feito técnico de seu contexto político sangrento, permitindo que a sociedade ignorasse a engrenagem que conectava o lançamento de um foguete na Flórida ao financiamento de aparatos repressivos na América Latina. Essa desconexão é a essência da alienação daquele período: a crença de que os Estados Unidos poderiam ser, simultaneamente, o farol da civilização no espaço e o arquiteto da repressão sistemática no solo. A narrativa de 1969, assim, foi moldada para ser uma celebração da capacidade humana de superação, enquanto servia para ocultar que o mesmo governo que levava o homem à Lua utilizava o silêncio e o controle da informação para gerir uma rede global de autoritarismo que mutilava a soberania de nações inteiras sob o pretexto da segurança nacional.

A transição para o ano de 2026 revela que a fragmentação informacional observada na missão Artemis II não era apenas um subproduto tecnológico, mas o reflexo de uma nova arquitetura de poder global sob o governo de Donald Trump. Se em 1969 a exploração espacial servia para projetar a supremacia da democracia liberal, o cenário atual é dominado por um realismo transacional que utiliza a órbita terrestre como mais uma fronteira de expansão econômica e coerção política. A NASA, outrora um símbolo de esforço estatal unificado, opera agora sob a égide da Estratégia de Segurança Nacional de 2025, que funde a segurança econômica à defesa militar, priorizando a eliminação de influências adversárias em todo o Hemisfério Ocidental.

Nesse contexto, o Projeto 2025 surge como o manual doutrinário para uma “Fortaleza Hemisférica”, onde a exploração espacial é privatizada e vinculada a interesses diretos de soberania nacional. A relação oscilante entre o governo e figuras como Elon Musk simboliza essa tensão: o sonho do avanço espacial, antes visto como um horizonte de progresso humano, foi capturado por uma lógica mercantilista de “paz através da força”. A SpaceX e outros atores privados tornaram-se ferramentas de uma diplomacia comercial agressiva, onde o acesso às estrelas e a soberania digital são moedas de troca para coagir elites locais e garantir o domínio energético e financeiro dos Estados Unidos.

Essa política expansionista manifesta-se em solo firme através de intervenções diretas e cercos econômicos que repetem, com nova tecnologia, as estratégias de 1969. A Operação Absolute Resolve na Venezuela e a asfixia energética contra Cuba em 2026 demonstram que a norma de não intervenção foi substituída pelo Corolário Trump à Doutrina Monroe. O uso de bloqueios que colapsam sistemas elétricos e paralisam serviços públicos em nações vizinhas reflete uma face colonial renovada, onde a superioridade técnica não busca mais inspirar, mas subjugar.

O genocídio e a negligência tornam-se, assim, instrumentos de gestão regional e global. Em Gaza, a criação do Board of Peace sob supervisão de Washington resultou em um estado de “negligência e limbo”, onde a ajuda humanitária é estrangulada enquanto o foco diplomático se desloca para novos teatros de guerra, como o Irã. A guerra cognitiva e o controle biológico da informação através de inteligência artificial completam esse quadro, criando um caos epistêmico que impede a coesão social e facilita a imposição de um novo sistema global de autoritarismo. O “salto gigante” da humanidade foi definitivamente reabsorvido por um projeto de poder que utiliza o espaço e a tecnologia para consolidar uma hegemonia unilateral, sacrificando a ética e a soberania no altar da segurança nacional absoluta. A fragmentação informacional, portanto, não é um mero efeito colateral da era digital, mas uma ferramenta estratégica que desarticula a compreensão coletiva e serve a interesses geopolíticos, transformando a busca pelo conhecimento em um campo de batalha pela atenção e pelo controle.

Eu tenho pensado muito que estamos vivendo o oposto de Melancolia. No filme de Lars von Trier, o desastre vem do céu e encerra qualquer possibilidade de fuga. Aqui, o céu permanece como promessa enquanto a ruína se instala no solo. Não é mais o planeta que ameaça a Terra, mas a Terra que projeta no espaço uma imagem de futuro para suportar a própria decomposição.

Resta a esperança de algum planeta colorido, como aqueles falsificados das imagens tratadas da Artemis II, oferecidos ao público como descoberta e redenção. Um pequeno ou grande deus, onipotente naquela região específica do cosmos, que ainda não nos tenha notado. Um deus atrasado, distraído ou indiferente, que ao nos perceber decida intervir, interromper genocídios, suspender cercos, desativar máquinas de morte.

Ou não há mais nada a esperar da órbita e o único gesto possível é outro. Abandonar a expectativa de redenção externa e assumir, aqui, a tarefa que insistimos em adiar. Construir uma metafísica que não aponta para o alto, mas se organiza no chão, pragmática, progressista, humanista e profundamente urgente.

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