Trump e Netanyahu sob pressão

Às vésperas das eleições legislativas americanas, projeções apontam para uma possível mudança no controle do Congresso, enquanto Netanyahu perde a maioria parlamentar em Israel. O impasse político nas duas potências coincide com a ameaça de uma nova escalada militar contra o Irã, capaz de atingir o Golfo Pérsico e provocar consequências profundas para a economia mundial.

Da Redação

Duas crises políticas avançam simultaneamente nos Estados Unidos e em Israel, justamente quando o Oriente Médio atravessa uma das situações militares mais perigosas das últimas décadas. Em Washington, Donald Trump se aproxima das eleições legislativas de 3 de novembro diante de pesquisas desfavoráveis ao Partido Republicano. Em Tel Aviv, Benjamin Netanyahu perdeu a maioria parlamentar nas eleições de 27 de outubro e enfrenta negociações difíceis para continuar governando. Entre as duas crises está o Irã, alvo de ataques americanos e israelenses desde fevereiro, em um conflito que ameaça envolver as monarquias do Golfo, comprometer o abastecimento mundial de petróleo e produzir uma nova onda de instabilidade econômica internacional.

O dado mais significativo da conjuntura americana é a possibilidade de uma mudança substancial no equilíbrio institucional de Washington. Em sua projeção divulgada neste sábado (31), o analista político Harry Enten, da CNN, apresentou uma probabilidade estimada de 92% de os democratas conquistarem a Câmara dos Representantes e de 71% de obterem o controle do Senado. O modelo considera pesquisas eleitorais e outros indicadores políticos, mas seus percentuais representam estimativas estatísticas, não resultados antecipados. Diferentes projeções apontam probabilidades distintas, sobretudo para o Senado, onde disputas estaduais competitivas tornam o resultado particularmente incerto.

A hipótese de uma vitória democrata nas duas Casas teria consequências importantes para a segunda metade do mandato presidencial. Com o Congresso sob controle da oposição, Trump encontraria obstáculos adicionais à aprovação de leis, à indicação de autoridades e à condução de determinadas políticas orçamentárias. A Câmara poderia intensificar investigações e audiências sobre decisões do governo, enquanto o Senado passaria a exercer maior influência sobre nomeações estratégicas. Isso não significaria a perda automática da Presidência nem impediria o exercício das atribuições constitucionais do Executivo, mas alteraria a relação de forças entre a Casa Branca e o Legislativo.

Uma das áreas potencialmente mais afetadas seria a estrutura superior das Forças Armadas americanas. A Constituição dos Estados Unidos atribui ao Senado a responsabilidade de aprovar numerosas nomeações militares, incluindo indicações para postos de quatro estrelas, o nível mais elevado da hierarquia regular de generais e almirantes. Uma maioria oposicionista poderia examinar com maior rigor determinadas escolhas presidenciais, realizar audiências sobre estratégias militares e estabelecer condicionantes políticos à aprovação de oficiais. Trata-se de uma prerrogativa institucional relevante porque o avanço aos cargos mais altos depende não apenas da trajetória profissional, mas também dos processos formais de indicação e confirmação.

O alcance desse mecanismo, contudo, precisa ser compreendido com precisão. A aprovação de promoções pelo Senado não significa que os generais passem a obedecer politicamente aos senadores, nem que uma vitória democrata produza automaticamente resistência militar a ordens presidenciais. Os comandantes permanecem subordinados à Constituição, à legislação e à cadeia de comando. Ainda assim, uma mudança na composição do Congresso poderia ampliar a fiscalização sobre decisões de guerra, exigir justificativas mais detalhadas para operações militares e elevar os custos políticos de iniciativas consideradas imprudentes por integrantes do Legislativo.

Essa possibilidade ganha importância diante das ameaças de novos ataques americanos contra o Irã. O conflito iniciado em fevereiro de 2026, com operações militares dos Estados Unidos e de Israel, já demonstrou capacidade de atingir instalações estratégicas, rotas comerciais e países vizinhos. Depois de tentativas frustradas de cessar-fogo e de um entendimento diplomático firmado em junho, as hostilidades não foram encerradas definitivamente. A persistência de ataques limitados, bloqueios marítimos e divergências sobre o programa nuclear iraniano mantém aberta a possibilidade de uma escalada mais ampla.

O calendário político americano acrescenta uma variável delicada. Autoridades e governos do Golfo acompanham com preocupação a possibilidade de Washington retomar operações militares de maior intensidade depois das eleições legislativas. Neste sábado, negociadores iranianos e mediadores do Catar mantiveram contatos diplomáticos para tentar evitar uma nova ofensiva. As conversas envolvem propostas relacionadas ao Estreito de Ormuz, ao bloqueio de portos iranianos, às sanções econômicas e às condições necessárias para um acordo mais abrangente. A continuidade da diplomacia demonstra que ainda existem alternativas à ampliação da guerra, embora permaneçam diferenças fundamentais entre as exigências de Teerã e Washington.

Em Israel, a crise política apresenta características próprias. A apuração das eleições parlamentares de 27 de outubro confirmou que o bloco de Netanyahu obteve 53 das 120 cadeiras do Knesset, oito a menos do que o mínimo necessário para constituir maioria. A oposição agrupada em torno do ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot conquistou 48 cadeiras, enquanto os partidos de liderança árabe alcançaram 19, resultado histórico que praticamente dobrou sua representação anterior. Nenhum dos dois blocos principais possui, isoladamente, condições parlamentares para formar um governo majoritário.

O resultado colocou os partidos árabes em uma posição decisiva nas negociações. Sua representação poderia proporcionar à oposição os votos necessários para superar a maioria de 61 deputados, mas dirigentes de diferentes partidos israelenses rejeitaram durante a campanha a possibilidade de depender do apoio político árabe. O impasse expõe uma contradição profunda do sistema político israelense: uma parcela expressiva da representação parlamentar pode ser indispensável à formação de uma maioria e, simultaneamente, permanecer excluída das alternativas consideradas aceitáveis por importantes lideranças judaicas.

Netanyahu também enfrenta dificuldades para ampliar sua coalizão. A formação de um governo de unidade nacional exigiria concessões a adversários que fizeram campanha justamente contra sua permanência no poder. Eisenkot havia rejeitado um acordo que permitisse a Netanyahu continuar como primeiro-ministro, enquanto setores da oposição reivindicam mudanças na condução política e na responsabilidade pelos fracassos de segurança associados aos acontecimentos de 7 de outubro de 2023. Mesmo que algum compromisso parlamentar venha a ser alcançado, persistirão divergências sobre a guerra, a relação entre religião e Estado, o serviço militar obrigatório e a própria liderança do governo.

A crise não equivale, porém, à queda imediata de Netanyahu. O sistema parlamentar israelense admite negociações prolongadas, coalizões de composição heterogênea e diferentes modalidades de apoio legislativo. O presidente Isaac Herzog deverá consultar os partidos e indicar um parlamentar para tentar formar governo. Caso as negociações fracassem, o país poderá enfrentar uma nova eleição. Até que uma alternativa seja constituída, Netanyahu permanece no exercício do cargo, embora sem uma maioria renovada pelas urnas.

É nesse ambiente que surge uma das questões mais sensíveis da conjuntura: de que maneira as crises internas em Washington e Tel Aviv podem influenciar as decisões militares relacionadas ao Irã? A história internacional apresenta situações em que governos recorreram à confrontação externa enquanto enfrentavam dificuldades domésticas. Uma operação militar pode alterar temporariamente o debate político, produzir sentimentos de unidade nacional ou deslocar a atenção pública. Entretanto, não há evidência suficiente para afirmar que Trump e Netanyahu tenham decidido promover uma nova ofensiva de grandes proporções como instrumento para preservar suas posições políticas.

O risco merece análise precisamente porque os incentivos envolvidos são contraditórios. Uma escalada militar poderia ser apresentada por seus defensores como demonstração de força e determinação estratégica, mas também poderia ampliar o desgaste dos governos caso provocasse baixas, perdas econômicas e prolongamento das hostilidades. Para Trump, uma guerra de maiores dimensões exigiria administrar pressões do Congresso, preocupações de setores empresariais e divisões dentro do próprio campo político republicano. Para Netanyahu, um novo confronto poderia intensificar discussões sobre a segurança nacional, sem necessariamente resolver o bloqueio parlamentar produzido pelas eleições.

A dimensão econômica é particularmente relevante. Os Estados Unidos mantêm vínculos financeiros, tecnológicos e comerciais extensos com as monarquias árabes do Golfo, especialmente Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar. Esses países acumulam grandes ativos internacionais, investem em empresas americanas, participam de mercados financeiros e desenvolvem projetos de infraestrutura, energia, tecnologia e inteligência artificial. A estabilidade regional possui, portanto, importância que ultrapassa os interesses petrolíferos tradicionais. Uma guerra ampliada poderia comprometer investimentos, interromper cadeias de suprimentos e elevar os custos de financiamento de projetos estratégicos.

O Estreito de Ormuz concentra parte fundamental dessas vulnerabilidades. A passagem marítima conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e constitui uma das rotas estratégicas do comércio internacional de petróleo e gás natural liquefeito. Desde o início da guerra, ataques contra embarcações, ameaças de bloqueio e restrições de navegação demonstraram a capacidade de perturbação desse corredor. Uma intensificação prolongada das hostilidades poderia ampliar os preços da energia, encarecer seguros marítimos, pressionar transportes internacionais e atingir atividades industriais dependentes de combustíveis e insumos importados.

Os efeitos não se limitariam às economias diretamente envolvidas. A elevação persistente dos preços energéticos poderia alimentar pressões inflacionárias, dificultar a política monetária dos bancos centrais e reduzir a capacidade de crescimento de países importadores. Mercados financeiros também poderiam reagir à incerteza por meio da redução de investimentos em setores expostos, da procura por ativos considerados mais seguros e da reavaliação de riscos. Para economias emergentes, as consequências poderiam incluir volatilidade cambial, aumento dos custos de importação e dificuldades adicionais de financiamento.

Nada disso autoriza concluir que uma nova ofensiva provocaria inevitavelmente a destruição dos Estados do Golfo, de Israel ou o colapso completo da economia mundial. A intensidade das consequências dependeria da escala dos ataques, da capacidade de resposta militar iraniana, da duração das interrupções comerciais e da atuação diplomática de outras potências. Entretanto, os riscos de uma escalada regional de grandes proporções são concretos, sobretudo quando instalações energéticas, portos, bases militares e centros urbanos passam a integrar o campo de possíveis retaliações.

Para as monarquias árabes, o dilema é especialmente complexo. Esses governos mantêm relações estratégicas com Washington, recebem investimentos internacionais e dependem da estabilidade necessária ao funcionamento de suas economias. Ao mesmo tempo, encontram-se geograficamente expostos às capacidades militares iranianas e às consequências de ataques contra instalações americanas presentes em seus territórios. A possibilidade de uma guerra mais extensa coloca em tensão os compromissos de segurança com os Estados Unidos e a necessidade de evitar que suas próprias infraestruturas se transformem em alvos.

A atuação do Catar nas negociações demonstra a importância dessa contradição. Como parceiro estratégico americano e interlocutor diplomático com Teerã, o país procura preservar canais capazes de impedir a ampliação das hostilidades. A continuidade dessas iniciativas indica que os governos regionais possuem interesses próprios e não podem ser tratados simplesmente como participantes passivos de decisões tomadas em Washington ou Tel Aviv. Sua capacidade de influência decorre de recursos financeiros, posições geográficas, relações diplomáticas e participação nas cadeias globais de energia.

Outro fator é a resistência potencial dentro das próprias instituições americanas. Uma maioria democrata no Congresso teria instrumentos para ampliar investigações, questionar operações militares e exercer pressão política sobre a administração. A Constituição atribui ao Congresso poderes relevantes sobre declarações de guerra e recursos orçamentários, embora a prática histórica tenha produzido disputas recorrentes sobre os limites da autoridade presidencial no emprego das Forças Armadas. A aplicação desses mecanismos depende de decisões políticas concretas, procedimentos legislativos e, em determinados casos, de maiorias capazes de superar vetos presidenciais.

A influência do Senado sobre nomeações militares integra esse conjunto de instrumentos, mas não substitui os mecanismos legais de controle da guerra. Oficiais podem discordar de avaliações estratégicas, apresentar riscos operacionais e aconselhar contra determinada intervenção, porém suas obrigações institucionais não desaparecem quando muda a maioria parlamentar. A possibilidade de maior fiscalização democrática é relevante justamente porque permite examinar decisões militares por procedimentos constitucionais, e não pela expectativa de resistência informal de comandantes preocupados com suas carreiras.

A transformação do equilíbrio político americano e a fragmentação parlamentar israelense criam, portanto, um cenário de incerteza simultânea. De um lado, Trump enfrenta eleições que podem modificar sua capacidade de governar com apoio legislativo. De outro, Netanyahu precisa negociar sua sobrevivência parlamentar depois de perder a maioria. Entre ambos, permanecem interesses militares, econômicos e diplomáticos que não se subordinam automaticamente às necessidades políticas individuais de seus governantes. A condução da guerra contra o Irã será influenciada por essa combinação de fatores, mas não pode ser explicada exclusivamente pelas dificuldades eleitorais enfrentadas pelas duas lideranças.

Para o Brasil e os demais países do Sul Global, a questão possui consequências estratégicas diretas. Uma escalada no Golfo Pérsico poderia afetar custos energéticos, fertilizantes, fretes marítimos, inflação e fluxos internacionais de capital. Mesmo economias produtoras de petróleo poderiam experimentar efeitos contraditórios, beneficiando-se em determinados segmentos de preços mais elevados enquanto enfrentam encarecimento de importações, instabilidade financeira e desaceleração do comércio mundial. A segurança econômica brasileira depende, assim, não apenas de sua capacidade produtiva interna, mas também da estabilidade das rotas comerciais e da preservação de canais diplomáticos internacionais.

A conjuntura atual reúne três processos que precisam ser acompanhados conjuntamente: a possibilidade de mudança na composição do Congresso americano, a dificuldade de formação de governo em Israel e a persistência de um conflito militar com o Irã ainda sem solução negociada. Cada processo possui dinâmica própria, mas suas interações podem modificar decisões estratégicas e ampliar os efeitos de acontecimentos aparentemente localizados. Uma votação parlamentar em Washington, uma negociação de coalizão em Jerusalém ou um incidente naval em Ormuz podem produzir repercussões muito além de seus contextos imediatos.

O que está em jogo não é apenas o futuro político de Trump ou Netanyahu, mas a capacidade das instituições e da diplomacia de administrar conflitos em um ambiente internacional profundamente interdependente. A possibilidade de novos controles legislativos nos Estados Unidos, a pluralidade parlamentar em Israel e a atuação diplomática dos países do Golfo oferecem diferentes mecanismos de contenção, sem constituírem garantias contra a escalada militar. O desfecho dependerá de decisões políticas, capacidades institucionais e compromissos que ainda não estão definidos.

A coincidência entre crises de poder e confrontação internacional torna o momento particularmente delicado. O perigo maior surge quando governos submetidos a pressões internas precisam decidir sobre operações militares cujos custos podem ultrapassar amplamente suas fronteiras. Em um sistema econômico conectado por energia, investimentos e comércio, uma guerra ampliada no Golfo Pérsico não seria apenas uma crise regional: suas consequências alcançariam países e populações que não participaram das decisões responsáveis por desencadeá-la.