Atitude Popular

Trump elogia China e expõe crise do dogma liberal nos EUA

Da Redação

Ao reconhecer publicamente a força produtiva chinesa, Donald Trump não fez uma conversão ideológica ao socialismo, mas revelou algo politicamente mais importante: até o principal símbolo do nacionalismo empresarial norte-americano já não consegue esconder que o modelo chinês entrega resultados que o receituário liberal prometeu e não cumpriu.

Donald Trump voltou a falar da China de um modo revelador. Em discurso no Future Investment Initiative Priority Summit, em Miami, ele afirmou que respeita o país asiático porque é “incrível” que um sistema que, “em teoria, não deveria funcionar”, funcione tão bem e produza tanto. A formulação virou manchete porque toca no nervo da disputa do século XXI: a crise do monopólio ideológico do Ocidente sobre a ideia de eficiência econômica.

É importante fazer a distinção correta desde o início. Trump não declarou adesão ao socialismo nem fez uma defesa doutrinária do modelo chinês. O que ele fez foi algo talvez mais contundente do ponto de vista histórico: admitiu, ainda que em chave pragmática e contraditória, que a China alcançou uma capacidade produtiva e industrial que desafia a ortodoxia ensinada pelas escolas de negócios ocidentais. A manchete sobre “admitir que o socialismo funciona” é, portanto, uma interpretação política da fala, não uma citação literal de Trump.

Essa nuance importa porque o centro da questão não é semântico, mas material. Trump contrapôs explicitamente o que se aprende no universo ideológico do livre mercado com a realidade objetiva da economia chinesa. Ao dizer que o Ocidente lê sobre livre iniciativa e empreendedorismo, mas que a China “vai bem” e “produz tanto”, ele reconheceu que a prática histórica está desmentindo parte importante do catecismo liberal.

A fala ganha peso extra porque vem justamente de um presidente que construiu sua trajetória política atacando Pequim em temas comerciais, industriais e tecnológicos. Não se trata de um elogio vindo de um interlocutor simpático à experiência chinesa, mas de um adversário estratégico que, pressionado pelos fatos, foi obrigado a reconhecer a escala da máquina produtiva do rival. Esse detalhe muda tudo, porque transforma a frase em sintoma de correlação de forças, não em mero comentário de ocasião.

Hoje, a China segue sendo tratada por Washington como principal concorrente sistêmico dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os próprios movimentos diplomáticos recentes mostram que a Casa Branca precisa administrar essa rivalidade com cautela. A visita de Trump a Pequim, que havia sido adiada por causa da guerra contra o Irã, foi remarcada para 14 e 15 de maio de 2026, sinalizando que, apesar das tensões, os dois lados continuam tentando preservar algum grau de estabilidade estratégica e comercial.

Esse pano de fundo é decisivo. Não estamos diante de um elogio abstrato ao “sucesso chinês”, mas de uma fala emitida no momento em que os Estados Unidos enfrentam dificuldades para conter simultaneamente a China, sustentar a própria posição industrial e administrar novas frentes geopolíticas. A guerra contra o Irã, inclusive, já vinha sendo apontada como fator de distração estratégica para Washington e como janela de oportunidade para o aumento da influência chinesa, sobretudo na Ásia.

A grande ironia histórica é que Trump, figura associada ao protecionismo nacionalista e ao mito do empresário vencedor, acabou formulando uma crítica indireta ao coração do neoliberalismo. Quando ele afirma que um sistema “que em teoria não deveria funcionar” produz resultados superiores, o alvo implícito não é apenas a China como exceção. O alvo é também a teoria que prometia que a supremacia do mercado, da desregulação e do capital privado seria o caminho natural da prosperidade universal.

A experiência chinesa oferece exatamente o oposto dessa narrativa simplista. O país combina planejamento estatal, coordenação de longo prazo, proteção de setores estratégicos, política industrial robusta, controle sobre áreas sensíveis da economia e abertura seletiva ao mercado. Não é uma reprodução mecânica do socialismo clássico, mas tampouco cabe no molde liberal convencional. É precisamente essa combinação que tornou a China um problema teórico para o Ocidente e um problema geopolítico para os Estados Unidos.

Os números mais recentes ajudam a entender por que Trump foi obrigado a falar em tom de respeito. A China fechou 2025 com crescimento em torno de 5%, segundo Xi Jinping, e para 2026 estabeleceu uma meta entre 4,5% e 5%, mesmo em meio à desaceleração global e à rivalidade tecnológica com Washington. Não é um desempenho trivial para uma economia do tamanho da chinesa. É, na prática, a continuidade de uma trajetória em que o Estado segue coordenando investimento, inovação e infraestrutura em escala difícil de replicar no Ocidente contemporâneo.

Trump também mencionou o caso da indústria automobilística, dizendo que a China produz tantos carros que chega a haver competição sobre quem consegue produzir menos, porque há carros demais. A formulação é hiperbólica, mas aponta para um dado real: a potência industrial chinesa atingiu tamanha escala em setores como veículos elétricos e baterias que o próprio governo chinês passou a discutir riscos de excesso de capacidade em alguns segmentos. Ou seja, até o “problema” chinês deriva de produzir demais, não de desindustrialização.

A comparação implícita com os Estados Unidos é devastadora. Nas últimas décadas, Washington promoveu financeirização, deslocamento produtivo, concentração corporativa e erosão de parte de sua base industrial, ao mesmo tempo em que preservava o discurso de superioridade absoluta do livre mercado. O resultado foi a coexistência entre poder financeiro, liderança tecnológica em áreas-chave e crescentes vulnerabilidades produtivas. Quando Trump elogia a capacidade fabril chinesa, ele também está confessando a ansiedade norte-americana diante de um rival que não apenas exporta bens, mas organiza cadeias inteiras de produção.

Há ainda um componente ideológico importante. Durante décadas, o discurso hegemônico dos Estados Unidos vendeu a imagem de que sistemas com forte intervenção estatal seriam necessariamente ineficientes, burocráticos e incapazes de inovar em alto nível. Mas a China avançou em manufatura, infraestrutura, tecnologia, energia, logística e planejamento de longo prazo, desmontando a ideia de que só o mercado desregulado seria capaz de entregar dinamismo. O reconhecimento de Trump tem peso precisamente porque vem de dentro do centro imperial, não da periferia crítica ao neoliberalismo.

Isso não significa ignorar os problemas chineses. A economia do país enfrenta desafios importantes, inclusive no mercado imobiliário, no consumo doméstico e em áreas onde a própria liderança reconhece necessidade de ajuste. Mas o ponto central permanece: mesmo com esses obstáculos, Pequim segue operando numa escala produtiva, tecnológica e estatal que obriga Washington a negociar, conter, rivalizar e, às vezes, elogiar. A fala de Trump nasce desse impasse histórico.

Também por isso a frase tem forte valor simbólico. Ela não representa a rendição estratégica dos Estados Unidos à China. O que ela mostra é algo mais complexo: a elite norte-americana já não consegue sustentar integralmente a ficção de que o sucesso chinês seria apenas um acidente ou uma distorção passageira. Quando até Trump reconhece a eficácia do modelo rival, fica evidente que a disputa atual não é apenas entre países, mas entre formas de organizar desenvolvimento, soberania econômica e poder tecnológico.

A verdade desconfortável para Washington é que a China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” e se tornou um polo de coordenação estratégica em cadeias industriais, comércio, energia e tecnologia. O anúncio de novas investigações comerciais recíprocas entre chineses e norte-americanos, às vésperas da visita de Trump a Pequim, mostra que a rivalidade continua intensa. Mas mostra também que os EUA não conseguem mais se relacionar com a China apenas pela via da intimidação. Precisam administrá-la como potência equivalente em várias frentes.

No fim, o episódio revela menos uma conversão de Trump e mais a falência de uma arrogância histórica. O líder da maior potência capitalista do planeta foi obrigado a admitir que o país que o Ocidente passou décadas tratando como anomalia produziu uma combinação de escala, coordenação e resultados que já não cabe na caricatura. Não é que Trump tenha virado socialista. É que a realidade material da ascensão chinesa ficou grande demais para caber na propaganda liberal.