Presidente dos EUA prevê nova rodada de conversas nesta semana, depois de rejeitar proposta iraniana de trégua, enquanto mantém sobre a mesa a retomada dos bombardeios
Da Redação
Donald Trump voltou a falar em negociação com o Irã neste domingo, 27, mas sem retirar a ameaça militar que acompanha a diplomacia norte-americana desde o início da guerra. Um dia depois de rejeitar uma proposta apresentada por Teerã para interromper os combates e avançar na reabertura do Estreito de Ormuz, o presidente dos Estados Unidos afirmou esperar uma nova rodada de conversas já nesta semana.
“Eles querem fazer um acordo, mas não é o acordo que eu quero fazer”, disse Trump.
A declaração resume o impasse.
Washington e Teerã continuam conversando, direta ou indiretamente, mas partem de exigências diferentes sobre aquilo que deveria ser negociado. O governo iraniano tenta colocar no centro das conversas o fim das hostilidades, o bloqueio e a situação do Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos querem incluir concessões iranianas sobre seu programa nuclear.
A possibilidade de negociação, porém, continua acompanhada pela ameaça de força.
Questionado neste domingo sobre a possibilidade de retomar ataques contra o Irã, Trump respondeu que está “sempre pensando nisso”.
Não se trata de uma declaração isolada.
Cinco dias antes, diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente norte-americano havia colocado publicamente diante do Irã duas alternativas. Segundo Trump, Teerã poderia aceitar um acordo ou enfrentar uma escalada militar capaz, em suas palavras, de “aniquilar” a República Islâmica.
A ameaça foi feita dentro da própria sede da instituição criada, depois da Segunda Guerra Mundial, justamente para estabelecer mecanismos multilaterais destinados a impedir que conflitos entre Estados fossem resolvidos exclusivamente pela força.
Ao mesmo tempo em que ameaçava o Irã, Trump afirmava acreditar na possibilidade de um acordo.
É essa combinação que marca a atual estratégia norte-americana.
Negociação e coerção militar não aparecem como caminhos opostos. Washington mantém canais diplomáticos enquanto utiliza a possibilidade de novos ataques como instrumento de pressão sobre a mesa de negociação.
A proposta recusada
O Irã levou às negociações realizadas durante a Assembleia Geral da ONU uma proposta que previa uma trégua inicial de sete dias e passos para a reabertura do Estreito de Ormuz.
A passagem marítima é uma das rotas energéticas mais importantes do planeta. Qualquer interrupção significativa do tráfego na região possui consequências que ultrapassam imediatamente o conflito entre Washington e Teerã, atingindo preços do petróleo, transporte marítimo, cadeias logísticas e inflação em diferentes países.
Trump rejeitou a proposta.
Segundo o presidente norte-americano, as condições apresentadas pelo Irã poderiam ter sido aceitáveis anteriormente, mas já não seriam suficientes diante da nova correlação criada pela guerra.
Teerã, por sua vez, insiste que uma solução negociada continua possível.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que o país está preparado tanto para a continuidade da guerra quanto para a diplomacia. Segundo ele, as condições iranianas para a reabertura de Ormuz permanecem vinculadas a concessões dos Estados Unidos.
As duas mensagens parecem contraditórias apenas à primeira vista.
Os dois governos dizem aceitar negociações enquanto simultaneamente procuram demonstrar que possuem capacidade e disposição para continuar o confronto.
A diplomacia acontece, portanto, sob pressão militar permanente.
Uma negociação cercada por ameaças
A dificuldade não começou nesta semana.
Ao longo dos últimos meses, Estados Unidos e Irã mantiveram contatos enquanto operações militares e ameaças públicas continuavam ocorrendo paralelamente.
Em julho, Trump chegou a classificar as conversas com Teerã como positivas enquanto reiterava que instalações iranianas poderiam voltar a ser atacadas caso suas exigências não fossem atendidas.
No mês seguinte, o presidente anunciou a realização de uma negociação que teria durado um dia inteiro.
Agora, em setembro, a mesma dinâmica reaparece em escala ainda maior.
A diferença é que Trump elevou publicamente o nível da ameaça.
Na Assembleia Geral da ONU, afirmou que poderia “aniquilar” a República Islâmica caso não houvesse acordo. Dias depois, rejeitou a proposta iraniana. Neste domingo, voltou a anunciar negociações e simultaneamente deixou aberta a possibilidade de novos ataques.
Não é possível saber, neste momento, se essa combinação produzirá um acordo ou uma nova escalada.
O que está documentado é que Washington utiliza simultaneamente dois instrumentos: negociação diplomática e pressão militar.
Ormuz está no centro do conflito
Por trás da disputa diplomática existe uma questão material decisiva.
O Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico. Por ali circula uma parcela importante do petróleo e do gás comercializados internacionalmente.
Isso transforma a passagem marítima em instrumento estratégico tanto para o Irã quanto para os Estados Unidos.
Teerã possui capacidade geográfica e militar para ameaçar o fluxo marítimo. Washington possui enorme superioridade naval e capacidade de projetar força sobre a região.
A disputa sobre Ormuz, portanto, não envolve apenas soberania iraniana ou segurança norte-americana. Ela atinge diretamente o funcionamento do mercado mundial de energia.
Trump afirmou neste domingo que mais de 20 milhões de barris haviam atravessado o estreito durante uma operação recente. Uma autoridade norte-americana confirmou à imprensa um fluxo de aproximadamente 22 milhões de barris na sexta-feira.
A Casa Branca tenta demonstrar, com esses números, que consegue manter a circulação de petróleo apesar da pressão iraniana.
Teerã tenta demonstrar o contrário: que nenhuma normalização permanente de Ormuz será possível sem uma solução política para a guerra.
É justamente aí que a disputa deixa de ser apenas militar.
Diplomacia sob a mira das armas
Existe ainda um problema fundamental de confiança.
O governo iraniano acusa Washington de utilizar negociações sem abandonar operações militares. Autoridades norte-americanas, por sua vez, acusam Teerã de descumprir compromissos anteriores e afirmam não confiar nas propostas apresentadas pelo governo iraniano.
Cada lado utiliza o comportamento do outro para justificar sua própria postura.
Isso cria um círculo difícil de romper.
Quanto menor a confiança, maior a tentativa de produzir garantias por meio da força. Quanto maior a utilização da força, menor a confiança necessária para qualquer acordo duradouro.
A próxima rodada de negociações, caso efetivamente ocorra, começará dentro dessa contradição.
Trump diz querer conversar.
O Irã também.
Mas nenhum dos dois governos retirou da mesa a possibilidade de continuar a guerra.
A diferença decisiva está na assimetria de poder. Os Estados Unidos negociam apoiados pela maior capacidade militar do planeta e deixam explicitamente aberta a possibilidade de voltar a utilizá-la. O Irã tenta preservar instrumentos de pressão próprios, entre eles sua posição estratégica sobre Ormuz.
É por isso que a negociação desta semana será mais do que uma discussão diplomática sobre os termos de um eventual cessar-fogo.
Será também uma disputa sobre quem consegue transformar poder militar em vantagem política antes que a próxima decisão seja tomada no campo de batalha.





