Segundo o Wall Street Journal, Trump busca apoio da Rússia e da China para levar Viktor Orbán à Secretaria-Geral da ONU. A articulação ainda não foi oficializada e enfrenta resistências europeias
Da Redação
O governo de Donald Trump está articulando uma iniciativa que poderá transformar a disputa pelo comando da Organização das Nações Unidas num dos episódios mais importantes da atual reorganização das relações internacionais. Segundo informações reveladas pelo jornal norte-americano Wall Street Journal e repercutidas nesta segunda-feira, 26 de outubro, pela RT e por veículos europeus, a administração americana procura viabilizar a candidatura de Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria e uma das principais referências do nacionalismo conservador europeu, para suceder António Guterres na Secretaria-Geral da ONU. O plano envolveria a construção de um entendimento entre Estados Unidos, Rússia e China, três das cinco potências com poder de veto no Conselho de Segurança, para apoiar um nome capaz de modificar a orientação política da organização.
A articulação representa uma iniciativa diplomática particularmente significativa porque reúne três países que enfrentam profundas disputas estratégicas, econômicas e militares, mas que, segundo os relatos publicados, poderiam encontrar em Orbán um candidato aceitável para seus interesses. A possibilidade de convergência não significa que Washington, Moscou e Pequim tenham superado suas diferenças. Demonstra, entretanto, que a escolha do secretário-geral pode se transformar num espaço de negociação entre potências que competem pela influência sobre a ordem internacional.
O mandato de António Guterres termina em 31 de dezembro de 2026, depois de dez anos à frente das Nações Unidas. Seu sucessor assumirá em 1º de janeiro de 2027, num momento marcado por guerras, tensões comerciais, disputas tecnológicas, dificuldades de financiamento dos organismos multilaterais e questionamentos sobre a capacidade da ONU de responder às principais crises globais. A escolha ultrapassa, portanto, a substituição de um dirigente administrativo: envolve a definição de quem ocupará uma posição diplomática central numa instituição que reúne praticamente todos os países do planeta.
De acordo com o Wall Street Journal, integrantes do governo Trump já procuraram Orbán para avaliar sua disposição de concorrer. O ex-governante húngaro teria demonstrado interesse, mas condicionado uma eventual candidatura à existência de perspectivas concretas de vitória. Fontes diplomáticas citadas pelo jornal afirmam que representantes americanos também discutiram a possibilidade com autoridades russas e chinesas, que teriam demonstrado receptividade à ideia.
Até agora, porém, não existe anúncio formal de candidatura, tampouco confirmação pública de apoio conjunto pelos governos dos três países. A Casa Branca e Pequim não oficializaram a iniciativa. A diferença entre conversas diplomáticas reservadas e um compromisso institucional é decisiva para avaliar a notícia: Washington estaria examinando uma estratégia, não apresentando um acordo concluído.
O jornal americano atribuiu a um integrante do Departamento de Estado a avaliação de que Orbán poderia conquistar com relativa facilidade oito dos quinze votos do Conselho de Segurança, com possibilidade de alcançar dez. A estimativa constitui uma avaliação política feita por uma fonte da administração Trump, não o resultado de uma votação formal sobre o nome do ex-premiê.
Para ser recomendado à Assembleia Geral, um candidato precisa obter pelo menos nove votos favoráveis no Conselho de Segurança e não sofrer veto de nenhum dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. A recomendação é posteriormente submetida à Assembleia Geral, responsável pela nomeação do secretário-geral.
Isso significa que um eventual entendimento entre Washington, Moscou e Pequim não seria suficiente, isoladamente, para garantir a escolha de Orbán. França e Reino Unido também possuem poder de veto, enquanto os demais integrantes do Conselho participam da formação da maioria necessária.
A iniciativa encontrou um obstáculo adicional nesta segunda-feira. O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Aleksandr Alimov, afirmou à agência Interfax que a candidatura de Orbán ainda não estava sendo discutida formalmente no Conselho de Segurança. Também esclareceu que Rússia, Estados Unidos e China, na condição de membros permanentes, não apresentariam diretamente sua indicação. Caso o ex-primeiro-ministro decida disputar o cargo, será necessário encontrar um Estado-membro disposto a formalizar sua candidatura.
A manifestação russa não equivale a uma rejeição definitiva ao nome de Orbán, mas demonstra que a articulação divulgada pela imprensa permanece distante de uma decisão institucional.
A possibilidade de um entendimento entre os três países ganha relevância particular quando se examina a trajetória política do ex-governante húngaro. Viktor Orbán esteve à frente da Hungria durante dezesseis anos consecutivos, entre 2010 e 2026, período em que consolidou uma orientação nacionalista, conservadora e contrária a diferentes aspectos da integração política europeia. Seu governo enfrentou conflitos recorrentes com as instituições da União Europeia sobre independência judicial, liberdade de imprensa, funcionamento das organizações civis, política migratória e garantias do Estado de Direito.
Orbán apresentou seu projeto como uma alternativa ao liberalismo político ocidental e passou a utilizar a expressão democracia iliberal para caracterizar a orientação de seu governo. Seus críticos argumentam que as mudanças institucionais realizadas durante seus mandatos concentraram poder, enfraqueceram mecanismos de fiscalização e ampliaram as vantagens políticas do partido governista, o Fidesz.
Em setembro de 2022, o Parlamento Europeu classificou a Hungria como um regime híbrido de autocracia eleitoral, apontando deterioração das instituições democráticas. Posteriormente, novas resoluções europeias criticaram a interferência sobre o Judiciário, problemas de corrupção, limitações à sociedade civil e dificuldades de fiscalização do uso de recursos públicos.
Essas avaliações não foram aceitas pelo governo húngaro da época, que alegava defender sua soberania nacional, preservar valores culturais tradicionais e impedir interferências externas em decisões internas. A disputa tornou Orbán uma figura de grande projeção no debate internacional sobre nacionalismo, democracia liberal e o papel das instituições supranacionais.
Seu governo também manteve relações particulares com Rússia e China. Mesmo depois da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Orbán resistiu a determinadas sanções europeias contra Moscou, defendeu a continuidade das compras de energia russa e apresentou-se como defensor de negociações para encerrar a guerra. Ao mesmo tempo, preservou relações econômicas com Pequim e apoiou investimentos chineses na economia húngara.
Essa posição provocou atritos frequentes com governos europeus que consideravam a cooperação energética com Moscou incompatível com a estratégia de pressão sobre o Kremlin. Para Orbán, entretanto, a manutenção dessas relações era apresentada como uma decisão destinada a proteger os interesses econômicos e energéticos da Hungria.
O ex-premiê também construiu uma relação política próxima com Donald Trump. Ambos compartilham críticas a diferentes aspectos do liberalismo político, defendem políticas migratórias restritivas e atribuem grande importância à soberania dos Estados nacionais. A aproximação transformou Orbán numa referência para setores do movimento conservador americano identificado com a expressão Make America Great Again, ou MAGA.
A relação tornou-se especialmente visível durante a eleição parlamentar húngara de abril de 2026. Trump declarou apoio ao então primeiro-ministro, enquanto o vice-presidente americano, JD Vance, viajou a Budapeste para participar de atividades políticas favoráveis à sua permanência no poder.
A intervenção diplomática e política de Washington, entretanto, não impediu a derrota eleitoral do Fidesz. O partido Tisza, liderado por Péter Magyar, conquistou uma maioria parlamentar de dois terços e encerrou os dezesseis anos consecutivos de Orbán no governo. Magyar assumiu o cargo de primeiro-ministro em maio, prometendo fortalecer as instituições democráticas, combater a corrupção e reconstruir as relações com a União Europeia.
Desde então, o futuro político de Orbán passou a ser objeto de especulações. A possibilidade de ocupar um cargo internacional apareceu como alternativa para preservar sua projeção depois da perda do Executivo húngaro.
A Secretaria-Geral da ONU representaria uma mudança extraordinária nessa trajetória. Um dirigente que construiu parte importante de sua identidade política contestando instituições internacionais e decisões supranacionais passaria a ocupar o comando administrativo e diplomático de uma organização fundada sobre a cooperação multilateral.
Essa contradição está no centro das reações à notícia.
O governo Trump considera Orbán, segundo as fontes do Wall Street Journal, um candidato identificado com suas prioridades conservadoras e com capacidade de enfrentar resistências institucionais. Na interpretação atribuída aos integrantes da administração americana, sua experiência política seria especialmente importante para dirigir uma organização que Trump acusa de ineficiência, burocratização e distanciamento dos objetivos originais.
Durante seu segundo mandato, o presidente americano ampliou as críticas às Nações Unidas, reduziu a participação dos Estados Unidos em determinadas entidades multilaterais e questionou o financiamento de programas internacionais. Washington também adotou medidas contra organismos e mecanismos jurídicos internacionais que considera incompatíveis com a soberania americana.
A insatisfação de Trump com a ONU possui, portanto, consequências administrativas e financeiras concretas. Os Estados Unidos estão entre os principais financiadores da organização e sua política de contribuição influencia a capacidade de funcionamento de agências humanitárias, operações de paz e programas internacionais.
A eventual escolha de Orbán poderia representar, na perspectiva de seus defensores, uma tentativa de alterar prioridades administrativas e reduzir resistências institucionais às políticas americanas. Seus críticos, por outro lado, questionam se um dirigente fortemente identificado com posições nacionalistas e com disputas contra organismos multilaterais possuiria a independência necessária para representar o conjunto dos Estados-membros.
A questão central não é apenas ideológica. O secretário-geral da ONU possui responsabilidades relacionadas à prevenção de conflitos, à mediação diplomática, à proteção dos direitos humanos, à coordenação de respostas humanitárias e ao funcionamento administrativo da instituição. Sua atuação exige diálogo com governos de orientações políticas profundamente diferentes e capacidade de preservar a credibilidade da organização diante de disputas entre potências.
A Carta das Nações Unidas estabelece que o secretário-geral e os funcionários internacionais não devem solicitar nem receber instruções de governos ou autoridades externas à organização. Essa independência é um princípio essencial para que a Secretaria-Geral possa exercer suas funções sem se transformar num instrumento exclusivo dos interesses de qualquer Estado.
Uma candidatura construída por meio de entendimentos entre grandes potências não seria inédita na história da ONU. A própria estrutura do Conselho de Segurança atribui aos cinco membros permanentes capacidade decisiva sobre a escolha. O problema político consiste em saber se o candidato escolhido poderá atuar com autonomia depois da nomeação.
A possível articulação também coloca Rússia e China diante de uma decisão estratégica importante. Embora mantenham profundas divergências com Washington sobre segurança, comércio, tecnologia e distribuição do poder internacional, os dois países compartilham críticas a determinados aspectos da ordem global e defendem maior respeito à soberania estatal.
Essa convergência parcial, entretanto, não significa identidade de interesses.
A Rússia procura preservar sua influência geopolítica e enfrenta sanções e isolamento diplomático de parte dos países ocidentais em consequência da guerra na Ucrânia. A China busca ampliar sua participação econômica e tecnológica global, ao mesmo tempo em que contesta políticas americanas de contenção comercial e estratégica. Os Estados Unidos procuram preservar sua posição internacional e limitar a expansão de concorrentes.
Um eventual acordo sobre Orbán representaria, portanto, uma convergência em torno de uma escolha específica, e não o surgimento automático de uma nova aliança global entre Washington, Moscou e Pequim.
A reação europeia demonstra que a proposta enfrentará resistências. O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, manifestou oposição à possibilidade de apoiar Orbán para a Secretaria-Geral. O chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, também criticou a ideia, lembrando o histórico de conflitos entre o ex-premiê húngaro e as decisões europeias relacionadas à Ucrânia.
As objeções refletem preocupações com as posições de Orbán sobre a guerra, sua proximidade com Vladimir Putin e o uso de instrumentos institucionais para bloquear decisões coletivas durante seu período como primeiro-ministro.
França e Reino Unido, que ainda não anunciaram uma posição definitiva sobre uma candidatura formal inexistente, possuem capacidade de bloquear sua escolha no Conselho de Segurança. A resistência europeia poderá, portanto, ter consequências decisivas para o futuro da articulação.
A disputa também acontece num momento em que diversas candidaturas já foram formalmente apresentadas à ONU.
Entre os nomes estão Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e dirigente da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento; Rafael Grossi, diplomata argentino que dirige a Agência Internacional de Energia Atômica; Carolyn Rodrigues-Birkett, representante da Guiana; Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile; e Lana Nusseibeh, diplomata dos Emirados Árabes Unidos.
Grynspan apareceu à frente em uma votação informal realizada no Conselho de Segurança em meados de outubro, recebendo nove manifestações favoráveis. Entretanto, também enfrentou votos contrários de membros permanentes, demonstrando que nenhum dos principais candidatos havia conseguido superar os obstáculos impostos pelo poder de veto.
A ausência de consenso ajuda a explicar por que novos nomes continuam surgindo numa fase avançada do processo.
Há ainda uma questão histórica relacionada à representação feminina. Desde a fundação da ONU, em 1945, todos os secretários-gerais foram homens. A sucessão de Guterres voltou a mobilizar governos e organizações internacionais que defendem a escolha da primeira mulher para comandar a instituição.
A candidatura de Michelle Bachelet possui significado particular para a América Latina. Ex-presidente chilena e antiga alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Bachelet foi formalmente apresentada em fevereiro de 2026 com apoio do Brasil, do Chile e do México. Posteriormente, o Chile retirou seu apoio oficial, enquanto a candidatura permaneceu em discussão no processo internacional.
A presença de candidaturas latino-americanas reforça o debate sobre a distribuição regional do poder nas instituições multilaterais. Países da América Latina, África e Ásia há décadas reivindicam maior participação nas decisões globais, argumentando que a estrutura internacional ainda reflete, em grande medida, a correlação de forças estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial.
A possibilidade de escolha de Orbán acrescenta uma dimensão diferente a essa discussão. Em vez de priorizar a representação de regiões historicamente menos influentes ou a nomeação inédita de uma mulher, o acordo ventilado pelo governo Trump poderia levar ao cargo um político europeu com longa trajetória nacionalista e relações privilegiadas com algumas das maiores potências.
Essa possibilidade constitui uma escolha política com consequências institucionais relevantes, mas seu desfecho permanece aberto. Não existe indicação formal de Orbán, e o processo continua envolvendo os candidatos que já apresentaram seus programas e participaram dos debates organizados pela ONU.
Para o Brasil, a discussão possui importância direta. O país defende historicamente a reforma das instituições multilaterais, a ampliação da participação do Sul Global e mudanças na composição do Conselho de Segurança. Também procura fortalecer mecanismos de negociação internacional diante de guerras, disputas comerciais e conflitos ambientais.
A política externa brasileira, especialmente durante os governos Lula, atribui importância à ONU como espaço de mediação entre países que possuem capacidades militares e econômicas muito diferentes. O Brasil considera que instituições multilaterais podem contribuir para limitar ações unilaterais, ampliar a cooperação e oferecer condições de participação a Estados que não dispõem do mesmo poder das grandes potências.
A posição brasileira não significa ausência de críticas ao funcionamento da organização. Ao contrário, os governos do país reiteradamente defendem reformas na representação internacional, na capacidade de resposta às crises e nos mecanismos decisórios do Conselho de Segurança.
A eventual escolha do próximo secretário-geral terá consequências para esses debates. Um dirigente comprometido com a preservação do sistema multilateral poderá procurar ampliar negociações e reformas institucionais. Um dirigente mais identificado com as prioridades de determinadas potências poderá enfrentar dificuldades adicionais para preservar a confiança de países que defendem maior autonomia internacional.
Nenhuma dessas possibilidades está determinada antecipadamente. A atuação concreta dependerá das decisões tomadas pelo escolhido, das condições políticas de seu mandato e da correlação de forças entre os Estados-membros.
O episódio revela, entretanto, um aspecto estrutural da organização internacional contemporânea. A ONU foi criada para preservar a paz e organizar a cooperação entre nações soberanas, mas sua estrutura decisória continua atribuindo privilégios permanentes a cinco Estados. Essa distribuição de poder permite que interesses nacionais influenciem diretamente a escolha de uma liderança formalmente responsável por representar a organização como um todo.
O debate sobre Viktor Orbán torna essa contradição particularmente visível.
O antigo primeiro-ministro construiu sua trajetória recente questionando instituições europeias, defendendo uma concepção nacionalista de soberania e mantendo relações com governos frequentemente colocados em lados opostos das disputas internacionais. Agora, segundo as informações divulgadas, poderá tornar-se objeto de uma negociação entre potências interessadas em redefinir a orientação política da principal organização multilateral do planeta.
Por enquanto, a articulação permanece no terreno das consultas diplomáticas. Washington não apresentou uma candidatura oficial, Moscou esclareceu que os membros permanentes não farão diretamente a indicação, Pequim não anunciou apoio e governos europeus já demonstraram resistência.
O resultado da disputa dependerá da formação de uma maioria no Conselho de Segurança, da ausência de vetos e da decisão posterior da Assembleia Geral.
Mas a iniciativa atribuída ao governo Trump já coloca uma questão fundamental no centro do debate internacional: a sucessão de António Guterres será orientada prioritariamente pela busca de uma liderança capaz de mediar os conflitos do sistema internacional ou por negociações entre potências interessadas em ampliar sua influência sobre a própria ONU?
A resposta será conhecida nas próximas etapas do processo. O que a notícia desta segunda-feira demonstra é que a escolha do próximo secretário-geral deixou de ser apenas uma disputa entre diplomatas experientes e passou a incorporar diretamente os conflitos políticos que marcam a reorganização do poder global.
A eventual candidatura de Viktor Orbán transforma a sucessão da ONU num retrato das contradições da ordem internacional: uma instituição criada para representar a comunidade das nações continua tendo sua liderança condicionada ao poder de negociação e veto de um pequeno grupo de Estados.






