Da Redação
Washington prepara ultimato diplomático a dezenas de governos e quer impedir que integrantes da aliança tecnológica Pax Silica participem simultaneamente da organização internacional de inteligência artificial criada pela China; semicondutores, minerais críticos, data centers e modelos de IA entram no centro de uma disputa que pode pressionar países como o Brasil a rejeitar a lógica dos blocos
A corrida mundial pela inteligência artificial está deixando definitivamente de ser apenas uma competição entre empresas de tecnologia. O governo de Donald Trump prepara uma ofensiva diplomática para exigir que dezenas de países definam de que lado pretendem ficar na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Segundo informações obtidas pela Reuters e repercutidas pelo Brasil 247, Washington pretende comunicar a aproximadamente 35 governos que a participação na iniciativa norte-americana Pax Silica será considerada incompatível com a adesão simultânea à Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, estrutura internacional impulsionada por Pequim. Na prática, a administração Trump procura transformar a construção da infraestrutura mundial da IA em uma escolha geopolítica: ou os países integram o ecossistema tecnológico liderado pelos Estados Unidos ou mantêm vínculos com a arquitetura que a China começa a construir.
A mensagem em preparação pelo Departamento de Estado é particularmente significativa porque revela que a disputa não está limitada aos grandes modelos de linguagem que chegaram ao público por meio de ferramentas como ChatGPT e seus concorrentes chineses. O que está sendo disputado é toda a cadeia material necessária para sustentar a inteligência artificial: minerais críticos, energia, semicondutores avançados, equipamentos para fabricação de chips, data centers, redes de telecomunicações, capacidade computacional, modelos fundacionais e serviços digitais. Quem conseguir organizar essa cadeia ao redor de suas empresas, tecnologias e padrões poderá adquirir uma vantagem econômica e estratégica comparável àquela conquistada pelas potências que dominaram o petróleo, as finanças ou as grandes infraestruturas industriais em períodos anteriores.
A Pax Silica é uma das principais peças dessa estratégia norte-americana. A iniciativa foi concebida para aproximar países considerados confiáveis por Washington e construir cadeias de suprimentos capazes de reduzir dependências consideradas perigosas, principalmente em relação à China. Japão, Austrália, Coreia do Sul e outros parceiros norte-americanos estão entre os participantes. O problema surgiu quando o Cazaquistão, que participa da Pax Silica, também decidiu aderir à organização internacional de cooperação em IA promovida por Pequim. Para Washington, essa dupla participação representa uma contradição. O rascunho da comunicação norte-americana deixa claro que os Estados Unidos querem transformar a cooperação tecnológica em compromisso estratégico e não apenas comercial.
A posição não surge isoladamente. Desde o início de seu novo governo, Trump vem tratando a liderança em inteligência artificial como questão de segurança nacional. O plano oficial norte-americano para IA estabelece como objetivos acelerar a inovação doméstica, ampliar maciçamente a infraestrutura necessária para sustentar a tecnologia e utilizar diplomacia e política de segurança para consolidar a liderança internacional dos Estados Unidos. O documento também prevê acompanhamento de projetos estrangeiros de IA que possam apresentar implicações para a segurança norte-americana. Em junho de 2026, Trump reforçou essa orientação ao determinar novas medidas para incorporar tecnologias avançadas de inteligência artificial ao aparato de segurança nacional.
O mesmo raciocínio aparece na política de semicondutores. Em janeiro, a Casa Branca voltou a enquadrar chips avançados e equipamentos para sua fabricação como ativos diretamente relacionados à segurança econômica e nacional. A justificativa norte-americana é compreensível do ponto de vista estratégico: semicondutores estão presentes nas telecomunicações, redes elétricas, sistemas militares, equipamentos médicos, satélites, automóveis e praticamente toda a infraestrutura tecnológica contemporânea. Mas justamente por isso, controlar o acesso a esses componentes significa possuir um instrumento extraordinário de poder sobre terceiros países.
A China procura responder construindo uma arquitetura alternativa. O avanço dos modelos chineses, especialmente daqueles disponibilizados com pesos abertos, reduziu parte da distância tecnológica que separava as empresas chinesas das norte-americanas e tornou mais difícil para Washington preservar uma liderança incontestável apenas por meio da superioridade comercial de suas grandes plataformas. A disputa passou, então, a envolver também padrões tecnológicos, alianças diplomáticas, acesso a matérias-primas e capacidade de oferecer infraestrutura de inteligência artificial a países que não possuem recursos suficientes para desenvolver sistemas próprios. A própria Reuters aponta que o crescimento dos modelos chineses de pesos abertos está entre os fatores que intensificam a preocupação de Washington.
É nesse ponto que a questão deixa de ser uma disputa distante entre Washington e Pequim e passa a interessar diretamente ao Sul Global.
Países da América Latina, África e Ásia possuem justamente alguns dos recursos necessários para a expansão mundial da inteligência artificial. Minerais críticos entram na fabricação de equipamentos eletrônicos e sistemas energéticos; grandes territórios oferecem espaço e energia para data centers; mercados populosos fornecem usuários, dados e demanda; redes elétricas e de telecomunicações tornam-se ativos fundamentais. Ao mesmo tempo, muitos desses países ainda não controlam os principais chips, modelos, plataformas de nuvem ou sistemas operacionais que formarão a infraestrutura da nova economia digital. A dependência tecnológica pode, portanto, reproduzir no século XXI relações semelhantes àquelas que marcaram antigas dependências industriais e financeiras.
Para o Brasil, esse problema é particularmente importante. O país reúne características que o tornam estratégico para qualquer arquitetura internacional de inteligência artificial: possui um dos maiores mercados digitais do mundo, enorme capacidade de geração de energia renovável, reservas relevantes de minerais críticos, universidades e centros de pesquisa, empresas de tecnologia, infraestrutura financeira digital própria e uma tradição diplomática baseada na autonomia e na diversificação de parceiros. Ao mesmo tempo, mantém relações econômicas fundamentais tanto com Estados Unidos quanto com China. Washington continua sendo uma fonte central de investimentos e tecnologia, enquanto Pequim é o maior parceiro comercial brasileiro.
Por isso, uma lógica de “EUA ou China” é especialmente problemática para os interesses brasileiros.
O Brasil tem muito mais a ganhar preservando a capacidade de negociar simultaneamente com diferentes polos tecnológicos do que aceitando antecipadamente uma dependência exclusiva. Isso não significa tratar Estados Unidos e China como atores idênticos nem ignorar riscos de segurança associados às tecnologias estrangeiras. Significa avaliar cada parceria segundo o interesse nacional brasileiro, exigir transferência tecnológica quando possível, proteger dados estratégicos, desenvolver capacidade científica própria e impedir que infraestrutura crítica fique subordinada integralmente às decisões de qualquer potência estrangeira.
A questão dos minerais críticos torna essa discussão ainda mais concreta. Terras raras, lítio, níquel, grafite e outros recursos passaram a ocupar posição central na disputa internacional porque são necessários para baterias, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa, energia renovável e diversas tecnologias avançadas. O risco para o Brasil é repetir uma velha especialização econômica: retirar recursos do território, exportá-los com baixo processamento e posteriormente importar produtos tecnológicos de altíssimo valor agregado fabricados com a mesma matéria-prima.
Uma política de soberania tecnológica precisa romper esse ciclo. Minerais estratégicos somente representarão uma vantagem estrutural se estiverem associados a processamento, indústria, pesquisa, formação de trabalhadores, fabricação de componentes e desenvolvimento tecnológico dentro do próprio país. Caso contrário, o Brasil poderá possuir recursos fundamentais para a revolução da inteligência artificial e ainda assim permanecer consumidor dependente das tecnologias produzidas no exterior.
A disputa entre Washington e Pequim também demonstra que a ideia de uma internet completamente globalizada e independente dos Estados está perdendo força. A infraestrutura digital está se fragmentando em zonas de influência. Chips podem ter restrições de exportação; plataformas podem ser proibidas; modelos podem sofrer controles; serviços de nuvem podem ser submetidos a regras nacionais; cabos submarinos, satélites e data centers passaram a ser discutidos como questões de segurança. O que durante décadas foi apresentado simplesmente como “mercado global de tecnologia” está se revelando uma infraestrutura profundamente geopolítica.
E inteligência artificial significa poder porque não estamos falando apenas de chatbots. IA será incorporada à indústria, agricultura, logística, medicina, educação, sistemas financeiros, produção científica, inteligência militar, defesa cibernética, administração pública e praticamente todas as atividades econômicas intensivas em informação. O país que depender integralmente de sistemas estrangeiros para realizar essas funções poderá descobrir, em uma crise internacional, que sua autonomia possui limites tecnológicos.
Há precedentes recentes que alimentam esse temor. O debate europeu sobre “IA soberana” ganhou força justamente diante da percepção de que acesso a tecnologias fundamentais pode ser condicionado por decisões tomadas fora do continente. Uma análise do Atlantic Council observa que os controles norte-americanos sobre tecnologias de inteligência artificial, embora direcionados principalmente à China, também produzem consequências para as ambições europeias de inovação e soberania digital.
É por isso que a ofensiva de Trump precisa ser observada para além da retórica de uma nova Guerra Fria tecnológica. O objetivo norte-americano é preservar uma vantagem estratégica construída por décadas de investimento público e privado, universidades de ponta, indústria de semicondutores, capacidade financeira e gigantes como Nvidia, Microsoft, Google, Amazon, Meta e OpenAI. É racional que Washington queira proteger essa posição. Da mesma maneira, é racional que Pequim tente romper sua dependência tecnológica e construir mercados internacionais para suas empresas. O problema surge quando os interesses das duas potências passam a ser apresentados aos demais países como escolhas obrigatórias.
Para o Sul Global, existe uma terceira possibilidade: cooperação sem alinhamento automático e desenvolvimento de capacidade própria.
O Brasil possui tamanho econômico, recursos naturais e tradição diplomática suficientes para defender essa posição, mas isso exigirá mais do que discursos sobre soberania. Será necessário investimento pesado em ciência, universidades, semicondutores, computação de alto desempenho, modelos brasileiros, armazenamento de dados, cibersegurança, energia e formação de pesquisadores. Soberania digital não significa isolamento tecnológico. Significa possuir capacidade suficiente para que a interdependência não se transforme em submissão.
A pressão norte-americana sobre os integrantes da Pax Silica é, portanto, um sinal de algo muito maior. A inteligência artificial começa a organizar alianças internacionais da mesma maneira que petróleo, armas nucleares, sistemas financeiros e rotas comerciais organizaram disputas de poder em outras épocas. Os Estados Unidos procuram construir uma cadeia tecnológica entre países considerados confiáveis. A China responde oferecendo sua própria arquitetura de cooperação. No meio dessa disputa estão dezenas de países que possuem mercados, minerais, energia e dados cobiçados pelos dois lados.
O grande desafio brasileiro será não permitir que o país seja reduzido a fornecedor desses recursos enquanto outros controlam as máquinas, os chips, os modelos e os lucros.
Se inteligência artificial será uma das infraestruturas fundamentais do século XXI, a pergunta decisiva para o Brasil não deveria ser simplesmente “Estados Unidos ou China?”. A pergunta precisa ser outra: qual relação com Estados Unidos e China permite ao Brasil construir sua própria capacidade tecnológica, proteger seus dados, industrializar seus recursos e preservar o direito soberano de decidir seu futuro?
Aceitar a escolha binária proposta pelas grandes potências significaria entrar na nova ordem tecnológica ocupando um lugar definido por outros. Construir autonomia significa cooperar com todos aqueles que contribuam para o desenvolvimento nacional, sem entregar a nenhum deles o poder de determinar com quem o Brasil pode conversar.
Na corrida mundial da inteligência artificial, essa talvez seja a verdadeira disputa brasileira: não escolher quem será nosso proprietário tecnológico, mas garantir que o Brasil não pertença tecnologicamente a ninguém.





