Valdemar admite discussão de golpe no governo Bolsonaro e diz “sei lá” sobre repetição com Flávio

Presidente do PL reconhece articulação ocorrida após eleição de 2022, minimiza planejamento e, questionado se situação poderia se repetir em eventual governo do candidato do partido, evita inicialmente dar garantia

Da Redação

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu nesta quarta-feira (7) que houve discussão sobre a possibilidade de um golpe de Estado no final do governo Jair Bolsonaro, depois da derrota eleitoral de 2022. Durante entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, o dirigente afirmou que integrantes do grupo político chegaram a discutir uma ruptura, mas tentou diferenciar o planejamento da execução do crime.

“Discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe. E daí?”, afirmou Valdemar.

A declaração ganhou dimensão adicional quando o presidente do PL foi questionado sobre o candidato de seu partido à Presidência, Flávio Bolsonaro. O entrevistador perguntou se Valdemar poderia garantir que um planejamento semelhante não aconteceria em um eventual governo do senador.

A primeira resposta foi direta: “Sei lá”.

Valdemar então ampliou a resposta, afirmou que poderia existir planejamento e, em seguida, descartou a possibilidade de uma nova tentativa ao citar as consequências jurídicas enfrentadas por Jair Bolsonaro. Segundo ele, o desfecho do processo contra o ex-presidente serviria de demonstração suficiente para impedir uma repetição.

A fala ocorre em pleno segundo turno da eleição presidencial, num momento em que a campanha de Flávio Bolsonaro procura apresentar o candidato como capaz de construir uma relação institucional diferente daquela mantida por seu pai com o Supremo Tribunal Federal e outras instituições.

O próprio PL vinha trabalhando publicamente para reforçar essa diferenciação. Integrantes da campanha passaram a falar em diálogo com o Supremo e em uma relação de maior previsibilidade institucional caso Flávio chegue à Presidência.

A declaração de Valdemar introduz uma contradição nesse esforço porque parte justamente do presidente nacional da legenda e trata como fato a existência de discussões golpistas durante o governo anterior.

Valdemar tenta separar planejamento de tentativa de golpe

Durante a entrevista, Valdemar procurou sustentar que discutir ou planejar um golpe não deveria necessariamente resultar em responsabilização criminal caso a ação não fosse executada.

“Quantos planejamentos você não faz e vê que depois está errado e para no meio?”, questionou.

O dirigente comparou a situação ao planejamento de um assassinato e argumentou que a simples elaboração de uma ideia criminosa, sem execução ou tentativa, não seria suficiente para punição.

A comparação, entretanto, não corresponde integralmente ao que foi decidido pelo Supremo no processo envolvendo Jair Bolsonaro e outros integrantes de seu governo.

A condenação do ex-presidente não foi fundamentada apenas na existência de conversas sobre uma eventual ruptura institucional. A Primeira Turma do STF considerou comprovada a participação de Bolsonaro em uma organização que realizou atos destinados a impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e manter o então presidente no poder.

Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão. Entre os crimes reconhecidos pelo Supremo estão golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e participação em organização criminosa armada. O STF concluiu que o núcleo considerado central na trama participou do planejamento e da articulação de atos destinados à ruptura da ordem constitucional.

Assim, a decisão judicial não tratou como crime simplesmente uma opinião privada ou uma conversa abstrata sobre um golpe. O julgamento considerou um conjunto de ações, reuniões, documentos e articulações que, segundo a maioria dos ministros, ultrapassaram a fase de mera cogitação.

Valdemar, apesar disso, reiterou durante a entrevista que considera Bolsonaro injustamente preso e voltou a defender anistia para envolvidos nos acontecimentos relacionados à tentativa de ruptura institucional.

Anistia volta ao centro da campanha

O presidente do PL afirmou ainda que espera que Flávio Bolsonaro, caso eleito, adote medidas para libertar o pai. Valdemar já havia declarado anteriormente acreditar que o candidato do partido atuaria para permitir a saída de Jair Bolsonaro da prisão.

O ex-presidente cumpre atualmente prisão domiciliar humanitária. Sua condenação tornou-se definitiva depois do encerramento dos recursos cabíveis no processo original, embora a defesa continue utilizando outros instrumentos jurídicos para tentar rever o resultado.

A anistia aos condenados pelos atos relacionados à tentativa de golpe tornou-se uma das principais bandeiras de setores do PL. Valdemar afirmou na entrevista que pretende beneficiar também militares que considera presos injustamente.

Essa posição convive com outra linha adotada pela campanha de Flávio Bolsonaro, que procura ampliar o diálogo com setores políticos fora do núcleo mais identificado com o governo de seu pai e apresentar compromissos de estabilidade institucional.

É nesse contexto que a frase “sei lá” ganha peso político. Ela não significa que Valdemar tenha afirmado que Flávio pretende organizar uma ruptura institucional. O próprio dirigente, segundos depois, disse acreditar que ninguém repetiria uma tentativa diante das consequências sofridas por Jair Bolsonaro.

Mas também não ofereceu imediatamente a garantia solicitada pelo entrevistador. Antes de dizer “nunca, jamais”, reconheceu a possibilidade abstrata de planejamento e voltou a relativizar a gravidade das discussões ocorridas em 2022.

A entrevista ocorre dois dias depois de Valdemar afirmar que, caso Flávio vença a eleição, Jair Bolsonaro poderia voltar a disputar a Presidência em 2030. Flávio posteriormente rejeitou essa possibilidade e disse não saber de onde o presidente do partido havia tirado a ideia.

As divergências públicas mostram que, nos primeiros dias do segundo turno, a campanha ainda precisa administrar declarações diferentes dentro do próprio campo político sobre o futuro de Jair Bolsonaro, a relação com o Supremo, a anistia e o significado dos acontecimentos que levaram à condenação do ex-presidente.

No caso da entrevista desta quarta-feira, a declaração mais objetiva de Valdemar permanece registrada: houve discussão de golpe no fim do governo Bolsonaro.

O debate agora se desloca também para o candidato que tenta suceder politicamente o ex-presidente. Questionado sobre a possibilidade de repetição de um planejamento semelhante sob Flávio, o presidente do partido começou respondendo “sei lá” — e somente depois afirmou que uma nova tentativa não ocorreria.