Atitude Popular

Violência eclode nos protestos na Sérvia: gás lacrimogêneo, confronto com aliados de Vučić

Da Redação

Após nove meses de mobilizações, manifestações anti-governo na Sérvia deram lugar a confrontos violentos: apoiadores de Vučić atacam estudantes com rojões e tacos, enquanto policiais intervêm com gás lacrimogêneo; regime acusa opositores de influência estrangeira e clama por diálogo.

Os protestos anti-governo na Sérvia, iniciados em novembro de 2024 após o colapso de uma cobertura de estação ferroviária em Novi Sad que deixou 16 mortos, atingiram seu ponto mais tenso nesta semana. O movimento, inicialmente pacífico e liderado por estudantes, se espalhou para diversas cidades, incluindo Belgrado, Niš, Kragujevac, Čačak e Vrbas. Agora, confrontos diretos entre manifestantes e apoiadores do presidente Aleksandar Vučić marcam uma nova fase da crise.

Em Vrbas, grupos leais ao governo usaram rojões, pedras e garrafas contra manifestantes, que responderam com objetos improvisados. A polícia interveio para separar os lados, mas em Belgrado a resposta foi mais dura, com uso de gás lacrimogêneo e força física para dispersar os protestos. O saldo foi de dezenas de feridos, incluindo civis, policiais e simpatizantes do governo.

O movimento estudantil, que conduz as mobilizações, acusa o governo de infiltrar provocadores para gerar violência e justificar repressão. Já Vučić acusa os manifestantes de serem “influenciados por forças estrangeiras” e de tentar provocar mortes entre seus apoiadores. A retórica agressiva alimenta um ambiente de polarização e desconfiança, dificultando qualquer espaço para negociação política.

As demandas centrais incluem a convocação de eleições antecipadas, o combate efetivo à corrupção e a proteção da liberdade de imprensa, áreas onde o governo é acusado de retrocessos. O presidente, contudo, mantém apoio do aparato estatal e de setores da mídia, descartando eleições antes de 2027 e apelando para o “diálogo público” como resposta.

Contexto histórico e político
Os protestos começaram após a tragédia de Novi Sad expor deficiências graves na manutenção de obras públicas e suspeitas de superfaturamento em contratos. A indignação popular foi potencializada por denúncias de corrupção sistêmica e por uma percepção de concentração de poder nas mãos do presidente e de seu círculo próximo.

A mobilização ganhou força com adesão de professores, sindicatos e profissionais liberais, unindo diferentes segmentos sociais em uma pauta ampla de reformas políticas e institucionais. Estratégias simbólicas como minutos de silêncio e bloqueios coordenados foram adotadas para manter a pressão e visibilidade na mídia.

Riscos e possíveis desdobramentos
A escalada da violência representa um divisor de águas. Organizações internacionais já expressaram preocupação com a estabilidade democrática na Sérvia, alertando para riscos de repressão mais dura e erosão de direitos civis. Analistas avaliam que, se o governo mantiver a postura de confronto e a retórica de acusação contra opositores, a polarização pode aumentar a ponto de comprometer as aspirações do país à integração plena na União Europeia.

Sem mudanças de postura ou abertura para negociações, a crise tende a se prolongar, com impacto negativo para a imagem internacional da Sérvia e potencial para gerar instabilidade política interna duradoura.