1932: celebrado em São Paulo e esquecido no Ceará

Enquanto São Paulo transforma o 9 de julho em feriado e celebra a Revolução Constitucionalista, o mesmo ano guarda no Ceará a memória dos campos onde mais de 70 mil retirantes da seca foram confinados

Da Redação

Nesta quinta-feira, 9 de julho, São Paulo parou para lembrar uma guerra. O feriado estadual marca o início da Revolução Constitucionalista de 1932, levante armado contra o governo provisório de Getúlio Vargas. A data tornou-se oficialmente a Data Magna do estado e ocupa um lugar destacado na memória política paulista.

Mas 1932 guarda outra história brasileira, ocorrida a mais de 2 mil quilômetros dos campos de batalha paulistas e praticamente ausente das grandes celebrações nacionais. Enquanto São Paulo se mobilizava para uma guerra contra o governo federal, o Ceará enfrentava uma das secas mais severas de sua história. Para impedir que retirantes famintos chegassem em massa a Fortaleza, milhares de pessoas foram confinadas nos chamados campos de concentração da seca.

Uma reportagem da Marco Zero Conteúdo recuperou documentos, depoimentos e pesquisas sobre esse capítulo da história cearense. Segundo dados oficiais publicados pela imprensa da época, 73.918 pessoas estavam distribuídas pelos campos de concentração do Ceará em junho de 1932.

A coincidência do calendário expõe a desigualdade na preservação da memória brasileira. O levante paulista começou em 9 de julho, durou quase três meses e terminou com a derrota militar dos revoltosos. Sua memória, porém, foi preservada por instituições, monumentos, nomes de avenidas, cerimônias oficiais e, desde 1997, por um feriado estadual.

No Ceará, o Estado também estava presente em 1932, mas sua ação assumiu outra forma. Diante da fome e do deslocamento de milhares de sertanejos, o governo estadual, em articulação com o Ministério da Viação e Obras Públicas do governo Vargas, adotou uma política de confinamento.

Os campos foram instalados em pontos considerados estratégicos para controlar o deslocamento dos retirantes. Havia unidades em Ipu, Fortaleza, Quixeramobim, Senador Pompeu, Crato e Cariús. A intenção declarada era oferecer assistência aos chamados flagelados, mas a localização dos campos e os mecanismos de vigilância também atendiam ao objetivo de impedir a chegada dos sertanejos à capital.

Os números registrados pela imprensa cearense dão dimensão à política. No campo de Cariús estavam concentradas 28.648 pessoas. Em Senador Pompeu, o campo do Patu chegou a reunir 16.221 retirantes. No Buriti, no Crato, eram 16.200. Ipu tinha 6.507 pessoas e Quixeramobim, 4.542. Nos campos do Alagadiço e do Urubu, em Fortaleza, havia 1.800 pessoas.

A política não surgiu em 1932. O Ceará já havia instalado um campo de concentração durante a seca de 1915. Na estiagem seguinte, a experiência foi ampliada e distribuída pelo território estadual. O controle das estações ferroviárias e das principais rotas de deslocamento permitia interceptar famílias que tentavam seguir em direção a Fortaleza.

No campo do Patu, em Senador Pompeu, foram utilizados casarões construídos originalmente para trabalhadores envolvidos nas obras do açude. Barracões improvisados completavam a estrutura destinada a receber uma população que, em determinado momento, chegou a superar o número de habitantes da própria cidade.

Não existe um registro oficial preciso do número de mortos nos campos cearenses. Documentos desapareceram e parte importante dessa experiência foi preservada por pesquisadores, moradores das regiões onde funcionaram os campos e descendentes dos retirantes.

A expressão usada oficialmente na época, “campos de concentração dos flagelados”, aparece nos próprios registros da imprensa. Décadas depois, o termo provoca estranhamento pela associação imediata aos campos nazistas da Segunda Guerra Mundial, que ainda não havia ocorrido. No Ceará, entretanto, a denominação já era utilizada para designar locais onde retirantes eram reunidos e submetidos ao controle das autoridades.

A experiência cearense de 1932 também revela como as respostas às crises sociais eram atravessadas pela posição econômica e política dos grupos envolvidos. Em São Paulo, setores das elites estaduais, militares, estudantes e parcelas da sociedade civil organizaram uma insurreição armada capaz de produzir uma memória pública transmitida por gerações. No Ceará, sertanejos atingidos pela seca foram tratados como problema de circulação e ordem urbana.

O movimento paulista reuniu a reivindicação por uma nova Constituição, a oposição ao governo provisório e os interesses das forças políticas que haviam perdido espaço depois da Revolução de 1930. O conflito terminou em outubro, com a derrota militar de São Paulo. Em 1933, o país realizou eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, e uma nova Constituição foi promulgada no ano seguinte.

Em Senador Pompeu, a memória dos mortos permanece nas ruínas do campo do Patu e na Caminhada da Seca, manifestação religiosa e cultural que reúne milhares de pessoas. Os mortos são reverenciados por devotos como um “santo coletivo”, expressão nascida da memória popular da região.

O contraste entre essas duas memórias ajuda a compreender não apenas o Brasil de 1932, mas também os critérios que determinaram quais acontecimentos o país decidiu celebrar e quais precisaram lutar para permanecer conhecidos.