Em entrevista ao programa Democracia no Ar, o professor Roberto Cardoso disseca o mito de Ciro Gomes como “grande quadro preparado” e vê no ex-governador um personagem útil à extrema direita em 2026, mas politicamente isolado
No programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 24 de outubro, a jornalista Sara Goes convocou o professor Roberto Cardoso para um exame sem anestesia da trajetória de Ciro Gomes e de seu retorno ao PSDB. Sob o título “Ciro Gomes: uma metralhadora cheia de mágoas”, a edição discutiu o papel que o ex-presidenciável pode desempenhar nas eleições de 2026, não mais como protagonista, mas como ferramenta discursiva da extrema direita.
A entrevista foi ao ar pela Rede Cearense de Comunicação Popular, que retransmite o Democracia no Ar, e está disponível no canal da TV Atitude Popular no YouTube. Ao longo da conversa, Cardoso alternou ironia, dados e memória política para desmontar o mito do “político mais preparado do Brasil” e situar Ciro na linha de frente de uma estratégia que interessa ao bolsonarismo e a Donald Trump, mas não necessariamente às urnas.
O mito do “mais preparado” e o peso das urnas
Logo no início, Roberto Cardoso foi direto ao ponto: o prestígio intelectual de Ciro não se converte em voto nem em resultados concretos.
“A última eleição executiva que ele venceu já tem quase quatro décadas”, lembrou o professor, ao comentar o currículo do ex-governador.
Em seguida, veio a frase que sintetiza sua avaliação e deu título à matéria:
“Gente, são quase quatro décadas só falando e ele é preparadíssimo porque ele fala, mas são quase quatro décadas só falando.”
Cardoso recorreu ao histórico eleitoral para sustentar o argumento. Nas três eleições presidenciais que disputou, Ciro nunca passou de 11% ou 12% dos votos, enquanto candidaturas como a de Marina Silva, em 2014, chegaram a cerca de 20%. “Ele nunca foi um candidato viável nem para segundo turno”, resumiu o convidado, classificando Ciro como um “candidato nanico” em termos nacionais, apesar da aura de grande quadro que ainda seduz parte da opinião pública, especialmente fora do Nordeste.
Do Arena Jovem ao PSDB: trajetória errática e partidos detonados
Sara Goes lembrou, no ar, o apelido cunhado pela ex-prefeita Luizianne Lins para definir o impacto de Ciro nas legendas por onde passou: “detonador de partidos”. Roberto Cardoso reforçou essa imagem ao traçar um breve histórico da trajetória do cearense:
Ciro começou na Arena Jovem, braço da antiga sigla da ditadura militar. Com a redemocratização, acompanhou a transformação da Arena em PDS, depois migrou para o PMDB, que fazia oposição à ditadura, seguiu para o PSDB, rumou ao PPS (antigo PCB), passou pelo PDT de Leonel Brizola e agora volta ao PSDB numa fase de crise e esvaziamento tucano.
Para Cardoso, essa rota ziguezagueante torna Ciro um corpo estranho tanto à esquerda quanto à direita:
“Essa trajetória errática do Ciro Gomes torna difícil ele ser visto como candidato, seja de esquerda, seja de direita. Ele já não conseguiu ser visto como candidato de esquerda estando no PDT de Leonel Brizola, agora tenta ser candidato de direita no PSDB.”
O professor previu “uma humilhação sem precedentes” caso Ciro dispute o governo do Ceará em 2026 sob essa bandeira: “Eu não sei que tipo de palhaçada, que tipo de fracasso, de fiasco que ele pode fazer numa eventual candidatura.”
De protagonista a ferramenta: o lugar de Ciro na estratégia da extrema direita
Ao longo do programa, Sara Goes insistiu numa hipótese central: Ciro não entra em 2026 para vencer, mas para servir. Não como candidato competitivo, e sim como peça auxiliar na construção de narrativas que interessam ao bolsonarismo e a Donald Trump.
A jornalista lembrou que Michele Bolsonaro, figura disciplinada na estrutura do PL Mulher e com pretensões próprias, compartilhou em suas redes um vídeo de Ciro atacando Lula e o governo, numa linguagem tão agressiva quanto a da ex-primeira-dama, porém com “palavras mais elaboradas”.
Para Sara, esse gesto é um sinal de alinhamento tático:
– Michele opera no registro religioso e da baixaria nas redes; Ciro oferece o verniz “intelectual” a um discurso igualmente virulento.
A partir daí, a apresentadora desenvolveu sua tese: o Ceará seria o laboratório de uma narrativa de “narcoestado” que o PL e a extrema direita pretendem nacionalizar, em sintonia com o discurso de Trump na América Latina. Segundo ela, Ciro tem repetido em eventos e falas públicas a acusação de que haveria um “acordo” entre o governo petista de Elmano de Freitas e facções criminosas, indo além de insinuações e falando de forma “muito clara” sobre supostos vínculos entre o Estado e o crime organizado.
Roberto Cardoso não descartou esse cenário e fez um alerta sobre a dificuldade de decifrar estratégias que envolvem Trump, Bolsonaro e seus aliados:
“É difícil a gente saber o que a direita está pensando, porque o Trump é uma figura errática, o Bolsonaro é uma figura errática e a gente não sabe muito bem os interesses que estão por trás, o financiamento de onde vem.”
Trump, “narcoestado” e o uso político do medo
O programa também abordou a construção, a partir de Washington, da imagem de uma América Latina permanentemente associada ao tráfico de drogas, em especial governos como os de Nicolás Maduro e Gustavo Petro. Sara lembrou que essa moldura encontra terreno fértil numa indústria cultural que há décadas retrata latino-americanos como traficantes, enquanto russos aparecem como mafiosos, criando estereótipos que facilitam a legitimação de intervenções.
No Brasil, alertou a jornalista, esse roteiro pode ser adaptado com a colaboração de atores internos. Ela citou as articulações do senador Flávio Bolsonaro com o governador Cláudio Castro para transformar facções como PCC e Comando Vermelho em “organizações terroristas”, abrindo caminho jurídico e político para uma eventual intervenção norte-americana sob o pretexto de combate ao terrorismo e ao narcotráfico.
Nesse quadro, a retórica de Ciro sobre crime organizado no Ceará, combinada com o discurso de Michele e da extrema direita nacional, pode ajudar a colar no governo Lula a imagem de conivência com o crime, uma narrativa que ecoa o redesenho de Trump para a região.
Bolsonarismo: nem direita clássica, nem projeto democrático
Em um dos momentos mais duros da entrevista, Roberto Cardoso procurou separar o bolsonarismo da direita tradicional. Para ele, trata-se de um fenômeno essencialmente criminoso, que disputa o poder por fora das regras do jogo democrático:
“O bolsonarismo não é o movimento de direita, é contra a esquerda, isso é verdade. Mas ele também é contra a direita. Ele é um movimento de fora da política, é um movimento golpista, é um movimento bandido.”
Cardoso lembrou que Jair Bolsonaro chegou ao Planalto prometendo “acabar com a mamata” e com a “velha política”, atacando não apenas a esquerda, mas também o Centrão e os métodos tradicionais da direita brasileira. Ao mesmo tempo, cercou-se de figuras como milicianos e operadores de rachadinha, transformando o Estado em plataforma de negócios familiares.
Segundo o professor, esse caráter destrutivo tem um efeito colateral que, paradoxalmente, favorece Lula em 2026: o bolsonarismo impede a reorganização de uma direita competitiva. Os possíveis nomes do campo conservador — governadores como Ratinho Jr., Ronaldo Caiado ou Romeu Zema — não conseguem se afirmar nacionalmente, enquanto Bolsonaro, agora condenado e sob forte restrição, resiste em transferir seu capital político a qualquer aliado.
“O Bolsonaro não permite que surja uma liderança na direita, porque ele sabe que só o que sobrou para ele é apoio popular. Se ele passar isso para alguém, esse apoio vai e não volta nunca mais.”
Narcisismo, sabotagem e limites da “empresa familiar”
Na parte final da conversa, Sara Goes aproximou o padrão de comportamento de Bolsonaro e Ciro, apontando o narcisismo como eixo comum. Ela recordou episódios de destruição de relações familiares na órbita de Bolsonaro — como a disputa eleitoral em que o filho Carlos foi lançado para derrotar a própria mãe, Rogéria, na Câmara de Vereadores do Rio — e comparou com o histórico de rompimentos de Ciro com aliados e com os próprios irmãos Ferreira Gomes.
Roberto Cardoso reforçou a imagem de um bolsonarismo estruturado como “empresa familiar”, na qual ninguém que não seja da família tem autorização para crescer demais, e nem mesmo os filhos escapam de serem usados e descartados conforme a conveniência do patriarca. Para ele, é improvável que Bolsonaro permita que Michele se torne um polo autônomo de poder:
“O velho da lancha, se a novinha quiser andar na lancha, tem que ser na lancha do velho da lancha. Ele nunca vai dar uma lancha para Michele. Ele não vai dar mandato para ela, não vai dar poder para ela, porque ele sabe que se ela sair, ela não volta mais.”
Esse padrão, na avaliação do professor, ajuda a explicar por que a extrema direita segue fragmentada na saída de Bolsonaro de cena institucional — e por que figuras como Ciro Gomes surgem como peças úteis, mas não centrais, na engrenagem radicalizada que se prepara para 2026.
Ciro entre o ressentimento e a irrelevância
Ao fim do programa, o balanço que emerge da conversa é duro para o ex-governador cearense. Ciro aparece como personagem marcado por ressentimento, trajetória errática e um capital eleitoral em declínio, mas ainda capaz de oferecer à extrema direita algo que Michele Bolsonaro e seus pares não têm: uma retórica agressiva vestida de pseudo-racionalidade técnico-intelectual.
Na leitura de Roberto Cardoso, porém, o risco maior é de desgaste para o próprio Ciro, que pode sair das próximas eleições ainda mais isolado, enquanto Lula consolida um quarto mandato embalado tanto pelos resultados do governo quanto pela incapacidade da direita de produzir um projeto alternativo coerente.
“Eu vou ficar esperando para ver de camarote o que vai dar essa eleição, caso ele dispute”, disse o professor, avaliando que as chances de fiasco são maiores do que as de qualquer reviravolta histórica.
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