Master terapeuta e escritor Lúcio Pessoa explica como traumas do passado podem desencadear crises de ansiedade e defende a terapia como caminho para enfrentar a causa do problema
A ansiedade tem se tornado um dos principais desafios da saúde emocional contemporânea. Em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas no dia 12 de junho, o terapeuta TRG e escritor Lúcio Pessoa discutiu as origens da ansiedade, seus sintomas, os impactos na vida cotidiana e os caminhos para o tratamento.
Autor do livro Desvendando os mistérios da ansiedade, Lúcio explicou que a ansiedade nem sempre é um problema. Segundo ele, existe uma ansiedade considerada natural, ligada às expectativas do futuro, como a espera por uma viagem, uma entrevista de emprego ou um encontro com amigos. O problema surge quando as crises se tornam frequentes, intensas e passam a comprometer a rotina.
“A ansiedade é um medo. Quando a gente pensa em ansiedade, pensa logo na crise. E a crise nada mais é do que sintomas que o corpo produz para enfrentar um medo que muitas vezes você não sabe o que é nem de onde vem”, afirmou.
Segundo o terapeuta, os sinais físicos mais comuns incluem aceleração dos batimentos cardíacos, respiração ofegante, tonturas, dores de cabeça, sensação de aperto no peito e extremidades frias. No plano emocional, predominam o medo difuso, a angústia e a sensação constante de que algo ruim está prestes a acontecer.
Ansiedade benéfica e ansiedade patológica
Durante a conversa, Lúcio destacou a diferença entre a ansiedade considerada saudável e aquela que exige atenção profissional.
A ansiedade benéfica, explicou, funciona como um mecanismo de preparação diante de desafios e situações futuras. Já a ansiedade que leva pessoas a hospitais, tratamentos e uso de medicamentos costuma estar associada a experiências traumáticas vividas anteriormente.
“Essa ansiedade que adoece tem relação com o passado. Quando o cérebro identifica alguma situação parecida com algo traumático que você viveu, ele dispara um alerta como se aquele sofrimento estivesse prestes a acontecer novamente.”
Segundo ele, muitas pessoas convivem durante anos com crises sem compreender sua origem. Não é raro que pacientes procurem inicialmente cardiologistas por acreditarem estar sofrendo de problemas cardíacos, devido às palpitações e dores no peito.
O peso das experiências traumáticas
Ao longo da entrevista, Lúcio reforçou que o trauma desempenha papel central na construção dos quadros de ansiedade.
Para ele, situações marcantes da infância, experiências de violência, perdas afetivas, fracassos ou episódios de humilhação podem permanecer registradas no inconsciente e voltar à tona por meio de gatilhos aparentemente insignificantes.
“Não existe crise de ansiedade que venha do nada. Ela pode parecer repentina, mas existe sempre algum elemento que acionou uma experiência traumática armazenada.”
O terapeuta citou como exemplo vítimas de assalto que, anos depois, desenvolvem crises ao se depararem com ambientes, sons ou situações que lembram o episódio vivido.
Dinheiro, relacionamentos e vida cotidiana
Questionado sobre a influência das dificuldades financeiras, Lúcio afirmou que a ansiedade pode estar relacionada a qualquer área da vida, dependendo da forma como cada pessoa lida com seus desafios.
Segundo ele, não é a falta ou o excesso de dinheiro que determina o surgimento da ansiedade, mas a maneira como cada indivíduo interpreta e enfrenta suas circunstâncias.
“O que acontece comigo é importante, mas mais importante ainda é como eu lido com o que acontece comigo.”
O especialista também abordou o impacto da ansiedade nos relacionamentos afetivos. Em pleno Dia dos Namorados, destacou que experiências amorosas traumáticas podem gerar medo de novas relações.
“Precisamos tomar cuidado para não punir quem está entrando na nossa vida por algo que aconteceu com alguém que já saiu dela.”
Compulsões e tentativas de alívio
Um dos pontos centrais da entrevista foi a discussão sobre os mecanismos utilizados pelas pessoas para aliviar a ansiedade.
Lúcio explicou que muitos indivíduos recorrem a comportamentos compulsivos em busca de uma sensação momentânea de bem-estar. Entre eles estão compras excessivas, alimentação descontrolada, jogos, consumo exagerado de internet e pornografia.
“Quando a pessoa compra demais, come demais ou busca qualquer outro comportamento compulsivo, ela está tentando compensar o excesso de tensão provocado pela ansiedade.”
Segundo ele, essas estratégias produzem apenas um alívio temporário, sem resolver a origem do sofrimento.
Medicação ajuda, mas não resolve sozinha
O terapeuta ressaltou que medicamentos podem ser fundamentais em determinados momentos, especialmente para estabilizar sintomas e melhorar a qualidade de vida.
No entanto, ele alertou que a medicação não atua sobre a origem dos traumas.
“A medicação controla os sintomas, mas não alcança a causa da ansiedade. Por isso, quando a pessoa interrompe o tratamento sem trabalhar a raiz do problema, as crises tendem a voltar.”
Para Lúcio, a terapia continua sendo o principal caminho para compreender e enfrentar os fatores que alimentam a ansiedade.
O papel do autoconhecimento
Outro tema recorrente da entrevista foi o autoconhecimento. Segundo o terapeuta, conhecer as próprias fragilidades e fortalezas ajuda a lidar melhor com as situações da vida e reduz o sofrimento desnecessário.
Ele defendeu a importância de aceitar aquilo que não pode ser controlado e concentrar esforços nas ações que dependem de cada pessoa.
“Quanto mais eu me conheço, mais consigo reagir de forma coerente diante dos desafios que aparecem.”
Além da terapia, Lúcio recomendou práticas respiratórias e meditação como ferramentas auxiliares para reduzir os sintomas fisiológicos da ansiedade.
O primeiro passo para mudar
Ao final da entrevista, o terapeuta deixou uma orientação para quem percebe que a ansiedade está afetando sua qualidade de vida.
“Reconhecer que está sofrendo e procurar ajuda é o primeiro passo. Quanto mais cedo a pessoa busca suporte adequado, maiores são as possibilidades de superar esse sofrimento.”
Lúcio também apresentou seu livro Desvendando os mistérios da ansiedade, no qual aprofunda os temas abordados durante a conversa e oferece reflexões sobre o enfrentamento dos transtornos emocionais.
Referências
Livro citado
- Desvendando os mistérios da ansiedade — Lúcio Pessoa
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