Atitude Popular

“A África passa no nosso sangue”

Marcília Gama apresenta a Minkah, centro de memória em Porto de Galinhas que quer “colocar a justiça dentro da história” e enfrentar o apagamento da diáspora africana

Em edição exibida em 10/12 no Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, o apresentador Luiz Regadas entrevistou a historiadora e arquivista Marcília Gama, professora doutora em História e especialista em Arquivologia, para discutir a criação da Minkah, um centro de memória dedicado à diáspora africana no Brasil. A entrevista, realizada com Marcília diretamente de Recife, foi atravessada por um diagnóstico duro sobre permanências autoritárias no país e por uma aposta: enfrentar o presente passa por reabrir o arquivo do passado, com método, provas e pedagogia pública.

Antes de entrar no tema, o programa registrou a indignação do dia, com críticas à condução de votações no Congresso e à repressão contra parlamentares e imprensa. Marcília respondeu conectando o episódio à ideia de tutela autoritária que sobrevive no interior do regime democrático. “É lamentável a gente ver mais uma vez outro atentado… à democracia”, disse, avaliando como “absurdas” práticas de silenciamento, censura e repressão “visivelmente para toda a sociedade”. Na leitura da professora, a assimetria se repete: “as esquerdas recebem essa pecha eternamente”, enquanto a direita “sai impune”, apoiada por “conluio” e por uma cultura política que normaliza a exceção.

É desse lugar — onde história não é passatempo, mas ferramenta — que Marcília apresenta a Minkah. O próprio nome já anuncia o projeto: “Minkah significa justiça”, explicou. Para ela, trata-se de um esforço coletivo para oferecer à sociedade um espaço de memória capaz de narrar, com rigor documental e recursos contemporâneos, o que foram mais de 350 anos de escravização e como essa violência estruturou territórios, elites e desigualdades que ainda se reproduzem no cotidiano brasileiro.

Porto de Galinhas: turismo, apagamento e “porto alternativo” do tráfico

O centro nasce em torno de um ponto sensível: Porto de Galinhas, internacionalmente conhecido pelo cartão-postal, mas atravessado por uma camada histórica que, segundo Marcília, foi empurrada para fora do imaginário público. A professora descreve a área como parte de uma engrenagem do tráfico clandestino após proibições formais, apontando que portos “alternativos” teriam funcionado como rotas de continuidade de um comércio perverso.

No relato, a praia teria sido cercada por um “cenário de apagamento”, inclusive no nome, usado como disfarce para “despistar fiscalização” e esconder a “real atividade” do lugar. Marcília não poupa palavras ao tratar o tema: fala em “desovas” e em um tráfico “clandestino, alternativo, perverso”, sustentado por uma “sociedade oligárquica açucareira” interessada em manter o “plantel” de trabalhadores escravizados e garantir mão de obra barata.

Uma rede multidisciplinar e uma arquitetura da memória

Marcília afirma que foi convidada a integrar uma equipe interdisciplinar vinculada ao projeto — presidido hoje por Irage Ferreira e idealizado, segundo ela, por Marcos Antônio Pereira da Silva e sua esposa, a alemã Cristiane Hotboss. A Minkah, diz, pretende ser um espaço de conscientização, cultura, troca de informações e referenciamento, com interface com países africanos e articulação com outros lugares onde a memória da escravização vem sendo revisitada.

A professora relata que o projeto dialoga com iniciativas em diferentes territórios, citando conexões com espaços como Salvador e o Rio de Janeiro, com o objetivo de criar uma rede de debate que reposicione a diáspora africana no centro da narrativa nacional — não como rodapé, mas como estrutura.

O que se constrói ali, insistiu Marcília, não é uma vitrine de dor, e sim um mecanismo de empoderamento histórico: “Quem são as nossas raízes? Quem são esses ancestrais? Essa herança ancestral que nos toca”, questionou, defendendo que a memória precisa servir também à valorização cultural e ao enfrentamento do racismo que continua organizando oportunidades, territórios e vidas.

Acervos, provas e tecnologia: do livro de batismo ao telão interativo

Ao detalhar o que o público poderá encontrar, Marcília explica que o espaço passa por revitalização e deverá reunir um conjunto amplo de materiais e linguagens: registros documentais, pesquisa histórica e recursos interativos. Entre as fontes mencionadas, ela cita livros de batismo e arquivos ligados a igrejas e ao clero nordestino; também fala em resgatar “as marcas” das famílias envolvidas com o tráfico e de expor a amplitude internacional das rotas, além da imagem simplificada do “comércio triangular”.

A professora ainda conecta passado e presente ao afirmar que o tráfico de pessoas não é apenas capítulo encerrado, mas prática que, infelizmente, persiste sob outras formas — e que o “escravismo moderno” continua no campo e em cadeias produtivas que a fiscalização pública não alcança plenamente. Para ela, a Minkah pode funcionar como espelho incômodo: um lugar onde a sociedade reconhece permanências históricas e entende por que a precarização do trabalho e a naturalização da exploração não surgiram do nada.

Um dos pontos mais fortes do depoimento de Marcília é o exemplo pessoal que ilustra o impacto do arquivo quando ele deixa de ser invisível. Ela relata ter participado de uma exposição no Arquivo Público, quando um ministro do Senegal teria se emocionado ao reconhecer referências familiares em documentos e registros ligados ao tráfico. A professora usa a cena para reforçar a dimensão transatlântica da ferida e do vínculo: a história não ficou na praia, nem parou na costa; ela atravessa genealogias, identidades e memórias.

O centro, adianta Marcília, pretende oferecer ao visitante um mapa interativo da África, em que será possível acessar publicações, literatura e música associadas às regiões de origem das populações trazidas ao Brasil. “Você tem acesso a um manancial de informações riquíssima sobre um passado que foi silenciado”, afirmou.

“A indignação deve ser permanente”

Ao final, Marcília articula o sentido político do projeto: memória não é só lembrança, é disputa por dignidade. Para ela, o Brasil só enfrenta sua desigualdade quando enfrenta sua cultura escravista — e isso envolve também o voto, a pressão social e a recusa em normalizar práticas autoritárias. Por isso, encerra com uma convocação que retoma o fio do programa: “A indignação deve ser permanente”, porque a estrutura que sustentou a escravização se atualiza em novas formas de tutela, violência e apagamento.

E sintetiza, numa frase que serve de norte para o centro de memória e para o país que ele tenta interpelar: “A África passa no nosso sangue.”

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(8) 📌 A Minkah: Centro de Memória da Diáspora Africana no Brasil 🇿🇦 – YouTube
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