Historiador e gastrônomo debateu no Café com Democracia os efeitos dos ultraprocessados sobre a saúde, os hábitos culturais e o meio ambiente
Os alimentos ultraprocessados deixaram de ser apenas uma questão de escolha individual e passaram a ocupar o centro de uma disputa econômica, sanitária e ambiental. O tema foi debatido no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas no dia 5 de maio, com participação do historiador e gastrônomo Roberto Araújo. Ao longo da entrevista, o pesquisador analisou como grandes corporações alimentícias moldam hábitos de consumo, influenciam políticas públicas e alteram até mesmo a identidade cultural das populações.
Durante a conversa transmitida pela Rede de Comitês Populares pela Democracia, Roberto Araújo chamou atenção para o caráter artificial desses produtos e para o impacto crescente que eles provocam na saúde pública. Segundo ele, os ultraprocessados não podem ser confundidos com alimentos naturais, embora sejam vendidos justamente com essa aparência.
“Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais criadas em laboratório. Eles possuem aparência, aroma e sabor que remetem imediatamente ao alimento natural, mas carregam uma grande quantidade de produtos químicos que, consumidos em excesso, trazem sérios prejuízos à saúde humana”, afirmou.
O gastrônomo explicou que esses produtos são elaborados majoritariamente a partir de substâncias extraídas dos próprios alimentos, como açúcares, óleos e gorduras, combinados a conservantes, corantes e aromatizantes artificiais. O resultado, segundo ele, é um produto de longa duração nas prateleiras, mas pobre em nutrientes e associado a doenças crônicas.
Entre os exemplos citados durante o programa apareceram refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos industrializados, maioneses, ketchup e temperos prontos. Roberto Araújo destacou que muitos desses itens oferecem “calorias vazias”, capazes de gerar obesidade, hipertensão e diabetes tipo 2 sem fornecer nutrientes adequados ao organismo.
“O alimento deveria gerar energia vital. O ultraprocessado, quando consumido excessivamente, produz justamente o processo inverso”, observou.
Ao discutir por que esses produtos continuam sendo mais baratos e acessíveis do que a chamada “comida de verdade”, o entrevistado apontou diretamente para o poder das grandes corporações globais do setor alimentício. Segundo ele, um número reduzido de conglomerados controla boa parte da produção mundial de alimentos industrializados.
“São empresas que produzem desde refrigerantes até biscoitos, enlatados e snacks. Elas conseguem baratear custos porque trabalham em larga escala e utilizam processos laboratoriais que facilitam transporte, armazenamento e durabilidade”, explicou.
Roberto Araújo também alertou para o caráter político da atuação dessas corporações. Segundo ele, a indústria alimentícia não apenas produz alimentos, mas atua para impedir regulamentações que possam reduzir seus lucros.
“Essas indústrias agem politicamente para garantir que seus produtos continuem sendo os mais acessíveis dentro da cadeia alimentar”, afirmou.
O debate avançou para os impactos culturais provocados pela substituição progressiva dos alimentos tradicionais pelos produtos industrializados. Para o historiador, a alimentação constitui parte essencial da identidade de um povo e sua descaracterização provoca efeitos profundos sobre os modos de vida.
“A alimentação é aquilo que me identifica, que me faz pertencer a um grupo”, declarou.
Como exemplo, ele lembrou o caso de uma criança cearense que, durante uma viagem à Disney, protestava porque não encontrava cuscuz no café da manhã. Para Roberto Araújo, situações como essa revelam como os hábitos alimentares estão diretamente ligados à memória afetiva e à cultura regional.
Ao mesmo tempo, o entrevistado lamentou o desaparecimento gradual de frutas e produtos tradicionais antes abundantes no Ceará. Ele citou a macaúba como símbolo desse processo de apagamento alimentar causado pela expansão dos produtos industrializados.
“A indústria alimentícia comete também o crime de enfraquecer culturas alimentares e identidades locais”, afirmou.
Outro ponto central da entrevista foi a relação entre ultraprocessados, infância e publicidade. Roberto Araújo destacou que as crianças são alvo prioritário da indústria justamente porque estão em fase de formação dos hábitos alimentares.
“Na medida em que elas são moldadas para consumir ultraprocessados desde cedo, torna-se muito mais difícil romper com esse padrão na vida adulta”, alertou.
Ele lembrou que alguns países já proíbem publicidade direcionada às crianças para esse tipo de produto, enquanto o Brasil ainda mantém permissividade significativa nesse setor.
Durante a conversa, Luiz Regadas mencionou a legislação aprovada no Ceará que restringe ultraprocessados na merenda escolar. Roberto Araújo reconheceu a importância da iniciativa, associada ao deputado estadual Renato Roseno, mas avaliou que ainda falta transformar experiências locais em políticas nacionais permanentes.
“É criminoso encontrar biscoito recheado na merenda escolar quando poderíamos substituir esses produtos por alimentos da agricultura familiar”, disse.
O entrevistado defendeu ainda o fortalecimento das feiras agroecológicas e dos circuitos curtos de comercialização como alternativa concreta ao domínio dos supermercados. Segundo ele, há um mito de que alimentos orgânicos são necessariamente mais caros.
“Quando você compra diretamente do produtor, percebe que muitos preços são equivalentes ou até menores do que os praticados pelos supermercados”, afirmou.
Ao comentar os impactos ambientais dos ultraprocessados, Roberto Araújo relacionou o modelo industrial de alimentação ao avanço das monoculturas, dos agrotóxicos e da degradação ambiental. Segundo ele, a lógica de produção em massa favorece latifúndios, expansão do agronegócio exportador e aumento das emissões de gases de efeito estufa.
“Essas empresas moldam costumes, tradições, culturas e até os ecossistemas conforme seus interesses econômicos”, declarou.
O historiador criticou ainda o uso intensivo de pesticidas no Brasil e lembrou que muitos produtos proibidos no hemisfério norte continuam sendo utilizados em larga escala no país.
Já nos minutos finais da entrevista, o debate abordou o crescimento da obesidade infantil e até a realização de cirurgias bariátricas em crianças e adolescentes. Para Roberto Araújo, o avanço desse quadro revela o fracasso das políticas preventivas.
“O Estado acaba pagando um custo altíssimo com tratamentos complexos que poderiam ser reduzidos se existissem políticas públicas mais severas contra os ultraprocessados”, afirmou.
Ao encerrar o programa, Luiz Regadas reforçou a necessidade de ampliar campanhas de conscientização alimentar e defender políticas públicas voltadas à alimentação saudável, ao fortalecimento da agricultura familiar e à redução da dependência de produtos industrializados.
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