Atitude Popular

“A ansiedade é um medo”

No Café com Democracia, Lúcio Pessôa analisa como insegurança econômica, sobrecarga no trabalho, hiperestimulação digital e traumas têm agravado um problema de saúde pública no Brasil


A ansiedade, cada vez mais presente na vida cotidiana dos brasileiros, foi o tema central da entrevista concedida por Lúcio Pessôa, master terapeuta TRG e escritor, ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas no último dia 5 de março, na TV Atitude Popular. Ao longo da conversa, o terapeuta discutiu as causas sociais, econômicas e culturais por trás do avanço desse sofrimento psíquico, relacionando o problema à precarização da vida, às pressões do mercado de trabalho, ao impacto das redes sociais e à ausência de políticas preventivas mais robustas.

Transmitida pela Atitude Popular e retransmitida por rádios e plataformas parceiras, a entrevista tratou a ansiedade não como um fenômeno isolado ou individual, mas como uma expressão de um mal-estar social mais amplo. Partindo de uma abordagem acessível, Lúcio Pessôa buscou desfazer equívocos comuns sobre o tema e destacou que, embora a ansiedade possa se manifestar como sintoma, ela também se tornou uma das marcas mais evidentes de um país atravessado por instabilidade, medo e excesso de estímulos.

Logo no início da conversa, ele procurou definir o que entende por ansiedade. Segundo o terapeuta, ela não deve ser reduzida automaticamente à condição de doença, mas compreendida como um mecanismo de alerta que pode sair do controle e gerar sofrimento intenso.

“Se alguém pedisse para que eu dissesse o que a ansiedade é em uma única palavra, eu diria que a ansiedade é um medo”, afirmou.

A partir dessa definição, Lúcio explicou que existem formas diferentes de ansiedade. Uma delas está ligada à preocupação excessiva com o futuro. Outra, que segundo ele é muito comum nos quadros mais graves e persistentes, tem relação com traumas e experiências dolorosas do passado, que são reativados por situações presentes.

“Essa ansiedade que muitas vezes está levando as pessoas às clínicas psiquiátricas, a tomar medicação, a fazer tratamento, a não conseguir dormir, é uma ansiedade que tem relação com questões do passado”, explicou.

Na avaliação do terapeuta, o Brasil vive hoje um cenário em que múltiplos fatores se somam para ampliar o adoecimento emocional. Entre eles, destacou a insegurança econômica, o medo do desemprego, a instabilidade diante do futuro, a pressão por desempenho e a sobrecarga imposta no mundo do trabalho.

Segundo ele, a vida contemporânea exige das pessoas uma performance contínua, marcada por metas elevadas, jornadas extensas e um ideal de felicidade permanente que ignora a frustração, o limite e a tristeza como dimensões normais da experiência humana.

“Hoje nós vivemos um momento em que a felicidade é tida e considerada como algo ininterrupto. As pessoas querem o tempo inteiro ser felizes, o tempo inteiro serem bem-sucedidas, não querem ter frustração, não querem sentir tristeza”, observou.

Outro elemento apontado por Lúcio como decisivo no agravamento da ansiedade é o ambiente digital. Para ele, as redes sociais e o fluxo constante de notificações transformaram o cotidiano em uma experiência de hiperestimulação, comparação permanente e dispersão emocional.

“O tempo inteiro a gente é bombardeado de informação. O celular o tempo inteiro está trazendo notificação. A rede social, a gente quer se atualizar o tempo inteiro, quer buscar informação, quer saber da outra e dos outros”, disse.

Esse processo, segundo ele, afeta sobretudo os mais jovens, mais expostos às telas e à lógica da comparação contínua. Ainda que o problema não se restrinja a uma faixa etária, o terapeuta destacou que as novas gerações parecem mais vulneráveis a esse tipo de sofrimento, justamente por estarem imersas desde cedo em um ambiente de consumo acelerado de imagens, conteúdos e padrões de sucesso.

Ao falar da relação entre ansiedade e trabalho, Lúcio trouxe para a discussão a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a chamada NR1, que passou a reforçar a obrigação de empresas identificarem e gerirem riscos psicossociais no ambiente laboral. Na avaliação dele, essa mudança representa um passo importante para reconhecer que adoecimento mental também tem relação direta com as condições em que se trabalha.

Ele lembrou que dados divulgados anteriormente pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização Internacional do Trabalho apontaram a perda de bilhões de dias de trabalho por questões de saúde mental, gerando impactos humanos e financeiros de enorme escala.

“Doze bilhões de dias de trabalho foram perdidos por questões de saúde mental. Isso equivale a uma perda financeira de um trilhão de dólares”, afirmou.

Para o terapeuta, a nova exigência legal ajuda a romper com uma lógica em que apenas riscos físicos, químicos e biológicos eram levados em consideração, deixando de lado fatores como assédio, pressão excessiva, metas inatingíveis e ambientes emocionalmente adoecedores.

Ele ressaltou, porém, que o enfrentamento da ansiedade não pode ficar restrito à responsabilização das empresas, nem tampouco ser reduzido ao uso de medicamentos. Em sua fala, o tratamento exige uma combinação entre cuidado clínico, elaboração terapêutica e reorganização da vida cotidiana.

“A medicação não é solução para a ansiedade”, disse. “O que a medicação faz é controlar sintomas. O tratamento precisa muitas vezes vir com a medicação para estabilizar, mas com um processo terapêutico para trazer essa cura.”

Lúcio defendeu a importância de tratar tanto os traumas do passado quanto os fatores estressantes do presente. Para ele, isso envolve construir uma rotina menos empobrecida emocionalmente, com espaço para arte, cultura, descanso, relações saudáveis, alimentação adequada, contato com a natureza e atividade física.

“Quanto mais a gente diversifica essa rotina, tendo atividades que promovam bem-estar, mais a gente se fortalece e tem repertório emocional para vencer o caos do presente”, afirmou.

Ao mesmo tempo, ele chamou atenção para a necessidade de respostas coletivas e políticas públicas. Em sua análise, a saúde mental ainda é tratada de forma insuficiente no Brasil, com pouca democratização do acesso à terapia e pouca ênfase em prevenção. Para o terapeuta, seria fundamental ampliar a presença do cuidado emocional em escolas, serviços públicos e ambientes de trabalho, com ações permanentes e não apenas campanhas pontuais.

“A terapia precisa estar cada vez mais democratizada. A gente precisa ter políticas públicas que levem esse tipo de serviço e de atendimento cada vez mais às pessoas”, defendeu.

Na parte final da entrevista, o convidado também abordou o tema da depressão e do bloqueio cotidiano que muitas pessoas enfrentam diante do esgotamento emocional. Segundo ele, sair da inércia exige reconhecer e aproveitar os pequenos momentos em que a vida volta a se mover, mesmo que discretamente.

“Aproveita aquele momento que você se sentiu bem, por menor que seja, e faça o movimento. Qualquer gesto conta”, afirmou.

Ao refletir sobre o que significa cuidar da saúde emocional em um país marcado por violência, polarização, preconceitos e tensão cotidiana, Lúcio insistiu na ideia de que o cuidado começa com um movimento de retorno a si. Não como fuga do mundo, mas como condição para não ser completamente engolido por ele.

“O grande segredo da saúde emocional é voltar-se para si mesmo”, disse. “Os vendavais vão vir, vão retorcer tudo, mas eles não podem tirar a gente do eixo.”

A entrevista reforçou a percepção de que a ansiedade, hoje, deixou de ser apenas um desconforto privado para se tornar um tema central da vida social brasileira. Em um país atravessado por desigualdades, medo, hiperconectividade e desgaste constante, o sofrimento psíquico se espalha como sintoma de um tempo que cobra demais e acolhe de menos. Ao trazer o tema para o centro do debate, o programa Café com Democracia contribuiu para ampliar a compreensão pública sobre um problema que, cada vez mais, exige escuta, prevenção e cuidado coletivo.


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