“A cadela do fascismo está sempre no cio”, afirma professor Nelson Campos ao analisar eleições de 2026

Em entrevista ao Café com Democracia, mestre em Educação pela UFC critica a atuação de André Mendonça, questiona as relações entre poder político e interesses financeiros e alerta para o risco de novas tentativas de ruptura democrática

O professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), afirmou que “a cadela do fascismo está sempre no cio” ao analisar os riscos de novas tentativas de ruptura democrática no Brasil. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, na manhã desta segunda-feira (14). A conversa abordou a atuação do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, as eleições presidenciais de 2026, as suspeitas envolvendo o Banco Master e as disputas políticas em torno da família Bolsonaro.

Ao longo do programa, Nelson Campos defendeu que o cenário eleitoral deve ser compreendido a partir das relações entre o Poder Judiciário, o sistema financeiro, os interesses econômicos e a disputa ideológica. Para o professor, a presença de figuras ligadas ao bolsonarismo em posições de poder exige atenção, especialmente diante das denúncias envolvendo políticos, empresários e integrantes de diferentes instituições.

André Mendonça e a disputa no Supremo

A análise de Nelson Campos começou pela trajetória de André Mendonça até o STF. O professor criticou a escolha feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021, e recuperou a expressão utilizada pelo então chefe do Executivo ao defender a indicação de um ministro “terrivelmente evangélico”.

“Ele não foi nomeado como ministro do Supremo por competência, por qualificação jurídica, mas pelo fato de ser terrivelmente evangélico”, afirmou Campos.

A declaração expressa uma avaliação política do professor sobre os critérios que teriam orientado a indicação. Mendonça foi aprovado pelo Senado Federal em dezembro de 2021, após sua nomeação por Bolsonaro, e passou a integrar a Suprema Corte.

Campos também mencionou o apoio recebido pelo indicado durante o processo de aprovação, incluindo manifestações públicas de Michelle Bolsonaro, então primeira-dama. Para o entrevistado, a escolha representou a aproximação entre o governo Bolsonaro e setores religiosos que defendiam maior influência sobre as instituições do Estado.

A atuação de Mendonça no Supremo foi um dos principais pontos da entrevista. O professor afirmou que existe uma disputa política em torno das decisões da Corte e criticou as tentativas de associar o Ministro Alexandre de Moraes ao Presidente Lula.

“Quem nomeou Alexandre Moraes para o Supremo foi o Temer, não foi o Lula. Quer dizer, o Alexandre Moraes nunca foi de esquerda na vida dele”, declarou.

A observação foi apresentada como uma crítica à narrativa de que o STF seria controlado pelo campo político ligado ao atual governo. Campos sustentou que a composição da Corte não pode ser reduzida a uma suposta relação de subordinação entre seus ministros e o Presidente Lula.

Banco Master, Daniel Vorcaro e as suspeitas de influência

Outro tema central da conversa foi o caso envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro. O professor relacionou as investigações sobre a instituição financeira a suspeitas de influência sobre diferentes setores do poder público.

Campos citou encontros entre Vorcaro e integrantes do Judiciário, além de referências a políticos que teriam mantido relações com o empresário. Entre os nomes mencionados esteve Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro.

“Ele basicamente corrompeu grande parte da política do Brasil em várias áreas, não só na política, no Poder Executivo, mas também no Poder Legislativo e também no Poder Judiciário”, afirmou o professor.

As declarações foram feitas no contexto das investigações sobre o Banco Master. O entrevistado apresentou sua interpretação sobre possíveis relações entre interesses financeiros e decisões políticas, mas as acusações de corrupção e de compra de influência precisam ser atribuídas às investigações e aos elementos que venham a ser comprovados pelas autoridades competentes.

Durante a entrevista, Luiz Regadas também mencionou a existência de apurações sobre políticos ligados ao caso. A conversa citou supostos benefícios, viagens e relações de proximidade entre empresários e agentes públicos. Campos defendeu que a investigação deve alcançar todas as esferas envolvidas, sem distinção partidária ou institucional.

O professor também criticou a postura de setores conservadores que, segundo ele, adotam discursos de moralidade enquanto mantêm relações com empresários investigados por crimes financeiros.

Flávio Bolsonaro e a disputa sobre o dinheiro público

A entrevista avançou para as denúncias envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, apresentado por Campos como uma das principais figuras da disputa presidencial de 2026 no campo bolsonarista. O professor retomou as investigações relacionadas ao chamado caso das rachadinhas e questionou a origem do patrimônio acumulado por integrantes da família Bolsonaro.

Em sua avaliação, o discurso de defesa da família e dos bons costumes não corresponde à trajetória política dos integrantes do grupo. Campos também mencionou investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, defendendo que as apurações devem esclarecer a origem dos recursos e eventuais responsabilidades.

O entrevistado criticou ainda o uso político das denúncias contra o Presidente Lula e seu filho. Em determinado momento, Regadas mencionou uma informação sobre um escritório supostamente localizado no mesmo endereço de uma pessoa investigada no caso envolvendo o Banco Master. Campos corrigiu a afirmação e identificou o personagem como Flávio Bolsonaro, não como filho do Presidente Lula.

A correção foi utilizada pelo professor para criticar o que considera uma estratégia de desinformação direcionada ao campo progressista. Para ele, a circulação de acusações sem verificação contribui para deslocar o debate sobre corrupção e responsabilidade pública.

O filme sobre Bolsonaro e a controvérsia sobre financiamento

O programa também abordou a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro, associada a denúncias sobre financiamento e uso de recursos públicos. Campos criticou o projeto e afirmou que a produção teria recebido valores elevados, questionando sua finalidade e a capacidade dos envolvidos.

O professor mencionou o deputado federal Mário Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, e a produtora Catarina Gama. Segundo ele, ambos estariam relacionados à produção e às suspeitas de utilização de recursos públicos.

“Ele não tem nada de que possa justificar o sujeito ser secretário de Cultura”, afirmou Campos ao comentar a atuação de Mário Frias no governo anterior.

O entrevistado também criticou a extinção do Ministério da Cultura durante a gestão Bolsonaro e a transformação da pasta em secretaria. Para ele, a mudança simbolizou o enfraquecimento das políticas culturais e a adoção de uma orientação contrária ao papel do Estado na promoção da cultura.

As acusações relativas à produção do filme e à destinação de recursos públicos foram apresentadas durante a entrevista e devem ser tratadas como alegações sujeitas à apuração. Não se pode concluir, apenas com base nas declarações do programa, que os envolvidos tenham cometido crimes ou que os valores citados tenham sido efetivamente desviados.

Pesquisas eleitorais e o cenário de 2026

Ao analisar a disputa presidencial, Nelson Campos comentou pesquisas que indicariam uma vantagem de Lula no primeiro turno e uma aproximação entre o Presidente e Flávio Bolsonaro em cenários de segundo turno. O professor atribuiu parte da dificuldade de crescimento do candidato petista à circulação de denúncias e informações negativas contra o governo.

Campos afirmou que a disputa eleitoral deve ser observada a partir das diferenças entre os segmentos sociais e políticos que apoiam cada candidatura. Para ele, existe um campo progressista mais ligado à leitura, à formação política e à compreensão das desigualdades brasileiras.

O professor recuperou sua própria trajetória intelectual para explicar a importância da formação política. Disse que começou a ler ainda na adolescência e citou obras como Geografia da fome, de Josué de Castro, História da riqueza do homem, de Leo Huberman, e textos de Karl Marx.

A referência aos livros serviu para defender que o debate eleitoral não deve se limitar às declarações dos candidatos ou às disputas nas redes sociais. Campos argumentou que a compreensão dos projetos políticos exige conhecimento sobre a formação econômica do país, a concentração de renda e as relações entre capital e trabalho.

“Uma minoria, quer dizer, realmente ricos nesse país não passa de 2%. Quer dizer, mas eles têm um controle dos meios de produção. São os donos das terras, são os donos das fábricas, são os donos dos bancos, são donos das empresas”, afirmou.

A declaração sintetiza a perspectiva de classe apresentada pelo professor ao longo da entrevista. Para ele, o conflito político não se resume à disputa entre candidatos, mas envolve interesses econômicos distintos e projetos de sociedade.

Trabalho, escala 6 por 1 e direitos sociais

A defesa dos direitos trabalhistas também ocupou parte importante da conversa. Nelson Campos criticou propostas que, segundo ele, podem ampliar a precarização do trabalho e reduzir a proteção social.

O professor mencionou a discussão sobre a escala 6 por 1 e defendeu que os trabalhadores tenham mais tempo para conviver com suas famílias, descansar e participar de atividades culturais. Também criticou propostas de desvinculação de benefícios previdenciários em relação ao salário mínimo.

Campos associou essas medidas a uma agenda de redução dos direitos conquistados pelos trabalhadores. Para ele, o debate sobre a jornada de trabalho precisa considerar a realidade de uma população majoritariamente assalariada e os efeitos das mudanças sobre a vida cotidiana.

“Eles querem exatamente o contrário, acabar com todas as leis que favoreceram aos trabalhadores”, afirmou.

O professor também mencionou Rogério Marinho, apresentado no programa como articulador da campanha de Flávio Bolsonaro, e o relacionou a propostas de alteração das leis trabalhistas. A crítica foi direcionada à defesa de modelos de remuneração e jornada que, segundo Campos, poderiam ampliar o poder dos empregadores sobre os trabalhadores.

Influência estrangeira, desinformação e eleições na América do Sul

A entrevista abordou ainda a influência estrangeira nas eleições brasileiras e os mecanismos de desinformação utilizados em disputas políticas na América do Sul.

Luiz Regadas citou uma investigação jornalística independente publicada no Peru que teria identificado relações entre a campanha de Keiko Fujimori e o operador digital argentino Fernando Cerimedo. Segundo a informação apresentada no programa, a investigação apontaria o financiamento de campanhas de desinformação e ataques a adversários políticos nas redes sociais.

Campos afirmou que o uso de estruturas digitais para manipular a opinião pública representa uma ameaça à democracia. Para ele, a disseminação de conteúdos falsos não se limita às fronteiras nacionais e pode ser articulada por grupos com interesses políticos e econômicos comuns.

O professor também criticou a atuação de Donald Trump e relacionou sua política externa a interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos. Em sua avaliação, a influência norte-americana sobre países da América Latina deve ser observada com atenção, especialmente em temas como petróleo, minerais estratégicos e controle político.

A conversa mencionou ainda o conflito no Oriente Médio, a guerra do Iraque e a utilização de justificativas falsas para intervenções militares. Campos sustentou que a política externa dos Estados Unidos tem sido marcada por ações que provocam mortes e instabilidade em diferentes países.

Chile, ditadura e o risco de novas rupturas

O golpe militar de 11 de setembro de 1973, no Chile, também foi lembrado durante o programa. Campos criticou a celebração do golpe contra o Presidente Salvador Allende e recordou sua própria passagem pelo país.

O professor contou que esteve hospedado em um hotel próximo ao Palácio de La Moneda e tentou obter informações sobre o bombardeio que marcou a derrubada de Allende. Segundo ele, as pessoas ainda demonstravam medo de falar sobre a ditadura de Augusto Pinochet.

A lembrança foi utilizada para estabelecer uma relação com o cenário político brasileiro. Campos afirmou que setores da direita continuam defendendo versões que relativizam ou negam a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964.

Para o entrevistado, a possibilidade de novas tentativas de ruptura institucional não deve ser descartada. Ele citou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e afirmou que grupos golpistas podem voltar a agir caso encontrem condições políticas favoráveis.

“A cadela do fascismo está sempre no cio”, declarou Nelson Campos.

A frase foi apresentada como síntese de sua avaliação sobre a permanência de forças autoritárias no cenário político. O professor afirmou que a defesa da democracia exige vigilância diante de discursos que relativizam a violência política e defendem a ruptura institucional.

A disputa ideológica e o papel da comunicação popular

Ao longo da entrevista, Nelson Campos criticou a circulação de informações falsas e a utilização de discursos religiosos e morais para justificar projetos políticos. Para ele, a defesa da família e dos bons costumes não pode ser dissociada das práticas efetivas de agentes públicos e de seus grupos políticos.

O professor também questionou a forma como setores conservadores apresentam a esquerda como ameaça à moralidade, enquanto, segundo ele, ignoram denúncias envolvendo políticos ligados à direita.

A conversa foi conduzida por Luiz Regadas, que apresentou os temas do programa e trouxe perguntas sobre as pesquisas eleitorais, o Banco Master, a atuação de André Mendonça e os riscos de influência estrangeira nas eleições de 2026.

Ao final, o apresentador agradeceu a participação do professor e anunciou a programação da semana da Atitude Popular, com entrevistas sobre responsabilidade na hora do voto, educação no Ceará, o uso de novas tecnologias nas eleições e outros temas relacionados à democracia.

O Café com Democracia é exibido de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 8h, pela Rádio e TV Atitude Popular. A entrevista desta segunda-feira reforçou a proposta do programa de discutir política, economia e democracia a partir de uma perspectiva crítica, com participação de convidados ligados à educação, à comunicação e à análise política.

Referências

Livros citados ou mencionados na entrevista

Geografia da fome, de Josué de Castro

Geopolítica da fome, de Josué de Castro

História da riqueza do homem, de Leo Huberman

Obras de Karl Marx

Personagens históricos e políticos mencionados

Salvador Allende, ex-presidente do Chile

Augusto Pinochet, ditador chileno

Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-coronel do Exército brasileiro

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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