Atitude Popular

A carta de Porto Alegre: unidade contra o fascismo e pela soberania dos povos

Documento final da conferência antifascista articula diagnóstico global e propõe ação coordenada entre movimentos populares e governos democráticos

A I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026, consolidou um diagnóstico internacional sobre o avanço da extrema direita e resultou na chamada “Carta de Porto Alegre”, publicada pela Fundação Perseu Abramo. A leitura expressa no documento dialoga diretamente com o debate já em curso na comunicação popular brasileira, como mostrou entrevista recente do portal Atitude Popular, que destacou que “todas as lutas por direitos se dão num ambiente democrático” — síntese que ajuda a compreender o eixo central da carta.

A entrevista disponível no Youtube, antecipou um dos pontos estruturantes do encontro: a percepção de que a erosão democrática não é um fenômeno abstrato, mas um processo concreto que impacta diretamente a capacidade de organização social e de conquista de direitos. Nesse sentido, a carta não surge como um documento isolado, mas como expressão organizada de uma leitura que já circula entre militantes, pesquisadores e comunicadores comprometidos com o campo popular.

Fascismo contemporâneo e guerra informacional

O documento parte de um diagnóstico contundente: o fascismo do século XXI não se apresenta necessariamente sob formas clássicas, mas se reorganiza a partir de novas ferramentas e dinâmicas de poder. Entre elas, destacam-se a manipulação informacional em larga escala, o uso político das plataformas digitais e a financeirização das estruturas democráticas.

A carta aponta que há uma ofensiva global contra direitos sociais, marcada por ataques sistemáticos a políticas públicas, à organização sindical e aos mecanismos de proteção social. Essa ofensiva, segundo o texto, não é difusa, mas articulada com interesses econômicos e geopolíticos que operam em escala internacional.

Nesse cenário, a comunicação deixa de ser apenas um espaço de disputa simbólica e passa a ocupar posição estratégica. A desinformação, a construção de inimigos internos e a disseminação de discursos de ódio aparecem como instrumentos centrais de desestabilização democrática.

Unidade como condição histórica

Um dos eixos mais enfatizados na carta é a necessidade de construção de unidade entre diferentes forças políticas e sociais. Longe de propor homogeneização, o documento defende que a diversidade do campo progressista deve ser compreendida como potência política.

A unidade, nesse sentido, é apresentada não como concessão, mas como condição histórica para enfrentar o avanço das forças autoritárias. A carta convoca partidos, movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e setores democráticos a construírem agendas comuns baseadas na defesa da vida, dos direitos e da soberania.

Essa formulação dialoga diretamente com a ideia apresentada na entrevista do Atitude Popular: sem democracia, não há sequer o terreno mínimo onde as lutas sociais possam existir. A disputa democrática, portanto, não é etapa posterior, mas condição de possibilidade.

Soberania dos povos e enfrentamento ao imperialismo

Outro eixo estruturante do documento é a defesa da soberania nacional e popular. A carta denuncia processos de dependência econômica, recolonização e interferência externa, especialmente sobre países do Sul Global.

Segundo o texto, o imperialismo contemporâneo atua por meio de mecanismos financeiros, tecnológicos e militares, limitando a autonomia dos Estados e condicionando políticas públicas a interesses externos. Diante disso, a carta propõe o fortalecimento da cooperação internacional entre países periféricos, a integração regional e a construção de alternativas econômicas.

A defesa da soberania aparece, assim, articulada à luta por direitos. Não se trata apenas de independência formal, mas da capacidade concreta de definir políticas que atendam às necessidades da população.

Democracia como infraestrutura dos direitos

Ao longo do documento, a democracia é tratada como elemento estruturante. Não apenas como regime político, mas como infraestrutura que sustenta a própria existência de direitos sociais.

É nesse ponto que a conexão com a entrevista do Atitude Popular ganha ainda mais densidade. A afirmação de que todas as lutas por direitos se dão em ambiente democrático encontra eco direto na carta, que alerta para o risco de naturalização do autoritarismo e para a corrosão gradual das instituições.

A perda de direitos, nesse contexto, não ocorre apenas por revogação formal, mas pela deterioração das condições políticas que permitem sua defesa. A carta sugere que o fascismo contemporâneo opera justamente nesse terreno: enfraquecendo a democracia para tornar inviável a própria luta social.

Do diagnóstico à ação

A “Carta de Porto Alegre” não se limita a descrever o cenário global. O documento propõe encaminhamentos concretos, como a criação de redes internacionais de articulação antifascista, o fortalecimento da comunicação popular e a ampliação da formação política.

Também aponta para a necessidade de combinar mobilização social com disputa institucional. A carta indica que a resistência ao fascismo exige presença nas ruas, nos territórios e também nos espaços de decisão política.

Esse duplo movimento aparece como estratégia central: organizar a base social e, ao mesmo tempo, disputar o Estado, evitando que ele seja capturado por interesses autoritários.

Um marco político e organizativo

A “Carta de Porto Alegre” se afirma, assim, como um marco político e organizativo. Mais do que um documento declaratório, ela busca orientar práticas, articular sujeitos e oferecer uma leitura comum para um cenário marcado por fragmentação e conflito.

Ao dialogar com produções da comunicação popular brasileira, como a entrevista publicada pelo Atitude Popular, o documento também evidencia que essa leitura não nasce apenas em grandes eventos internacionais, mas é construída cotidianamente em diferentes espaços de debate e organização.

No fim, a carta aponta para uma conclusão simples e, ao mesmo tempo, exigente: enfrentar o fascismo no século XXI exige mais do que denúncia. Exige unidade, estratégia e, sobretudo, a defesa ativa das condições que tornam possível qualquer luta por direitos — a própria democracia.


📄 Carta de Porto Alegre – Unidade contra o fascismo e pela soberania dos povos

Leia a íntegra do documento:
https://fpabramo.org.br/carta-de-porto-alegre-unidade-contra-o-fascismo-e-pela-soberania-dos-povos/

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