Ativista afirma que publicidade agressiva, influenciadores e plataformas digitais transformam a vulnerabilidade econômica de jovens trabalhadores em fonte de lucro para empresas de apostas
Da Redação
As apostas on-line deixaram de ocupar um espaço restrito ao entretenimento e passaram a interferir diretamente no orçamento, na saúde mental, na educação e nas relações familiares de milhões de brasileiros. Na avaliação do estudante de Direito e ativista Héctor Batista, o avanço das bets precisa ser tratado como uma epidemia alimentada pela precarização do trabalho, pela publicidade digital e pela promessa enganosa de enriquecimento rápido.
O tema foi discutido durante entrevista concedida ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes. Héctor Batista é graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, conselheiro do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e integrante do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Ele também milita na União da Juventude Socialista, ligada ao PCdoB.
Durante a conversa, Héctor rejeitou as abordagens que atribuem ao apostador toda a responsabilidade pelas perdas financeiras. Para ele, esse enquadramento desconsidera as condições materiais que aproximam trabalhadores das plataformas.
“Acho fundamental que a gente encare e chame isso de epidemia, porque é esse formato de viralização, propagação rápida e disseminação que chega muito rápido à tela do celular”, afirmou.
Segundo o ativista, o apostador mais atingido pelas bets não corresponde à imagem de alguém que dispõe de dinheiro para gastar com lazer. Trata-se, em muitos casos, de um trabalhador jovem, com renda baixa, submetido a jornadas prolongadas e em busca de uma forma imediata de complementar o orçamento.
“Estamos falando de homens jovens, muitas vezes pais de família, com renda de até um salário mínimo. São trabalhadores que se envolvem nesse ambiente das apostas”, explicou.
Promessa de renda alcança trabalhadores precarizados
A expansão das bets ocorre em um contexto no qual o salário é insuficiente para cobrir despesas básicas e o trabalho por aplicativos se tornou uma das poucas alternativas disponíveis para uma parcela da juventude.
Héctor citou como exemplo entregadores que trabalham por 12, 13 ou 14 horas e encontram, durante poucos minutos de intervalo, uma propaganda que apresenta a aposta como oportunidade de renda extra.
“Eles encontram nesses cinco minutos com o celular na mão um mecanismo para tentar ganhar dinheiro fácil. Muitas vezes enxergam aquilo como o último fio de esperança para conseguir alguma quantia no fim do mês, colocar comida na mesa, pagar uma conta ou ter algum lazer”, disse.
Esse processo ajuda a explicar por que a condenação moral ao jogador não enfrenta o problema. A pessoa não aposta necessariamente por despreocupação com a família. Em determinados casos, é a própria necessidade de sustentar a casa que a torna vulnerável à promessa de retorno financeiro.
A publicidade das bets explora esse desejo ao apresentar ganhos excepcionais como se fossem acessíveis a qualquer usuário. Influenciadores exibem supostas vitórias, mostram valores recebidos e associam a aposta à coragem, à fé ou à capacidade individual de acreditar em si mesmo.
Para Héctor, a estratégia oculta a lógica econômica elementar desse mercado.
“As bets foram feitas para lucrar. A casa de aposta sempre vai sair ganhando. Essa é a lógica inserida nas bets e nesse ecossistema”, declarou.
Três personagens e uma relação desigual
Héctor identifica três personagens centrais no funcionamento das apostas: a empresa, o influenciador responsável pela divulgação e o jogador.
A empresa controla a plataforma e obtém receita com o volume de apostas. O influenciador é remunerado para atrair novos usuários, muitas vezes utilizando vídeos que mostram ganhos e escondem perdas. Na outra ponta está o trabalhador que deposita R$ 10 esperando receber R$ 20, volta a apostar quando ganha e tenta recuperar o dinheiro quando perde.
A desigualdade entre esses participantes é estrutural. A empresa domina as regras, os dados e os mecanismos de estímulo ao usuário. O influenciador recebe para divulgar o produto. O jogador assume sozinho o risco financeiro.
“Quanto mais você ganha, mais quer apostar. No final, acaba perdendo tudo”, resumiu Héctor.
As perdas não atingem apenas o consumo imediato. O convidado mencionou levantamentos sobre jovens que adiaram o ingresso no ensino superior ou interromperam o pagamento de mensalidades depois de comprometer recursos com apostas on-line.
Na entrevista, ele citou pesquisa realizada em 2025 pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior com jovens entre 18 e 35 anos. De acordo com os dados apresentados no programa, parte dos entrevistados reconheceu que precisaria abandonar as apostas para começar uma graduação.
Também foram mencionados jovens que desistiram de ingressar na universidade ou deixaram de pagar mensalidades porque o dinheiro havia sido direcionado às plataformas.
Esse deslocamento de renda cria um ciclo difícil de interromper. O recurso que poderia financiar uma formação profissional é consumido pela aposta, enquanto a ausência dessa formação mantém o trabalhador preso a empregos com salários reduzidos e poucas garantias.
Lobby dificulta medidas de controle
Ao analisar a responsabilidade do Estado, Héctor argumentou que o problema não pode ser resolvido apenas por uma decisão do Poder Executivo. A regulamentação e a tributação das empresas dependem de medidas discutidas no Congresso Nacional, onde o setor mantém forte capacidade de pressão.
Segundo o ativista, parlamentares liberais e integrantes da extrema direita se opõem à tributação das apostas utilizando o argumento de que o país não deveria criar novos impostos. Essa posição, afirmou, preserva o lucro de empresas, inclusive estrangeiras, enquanto os prejuízos sociais permanecem com as famílias brasileiras.
“Por que o trabalhador precisa continuar pagando mais imposto, enquanto empresas que muitas vezes nem são nacionais ganham dinheiro e nada retorna para o país?”, questionou.
Héctor também criticou políticos que condenam moralmente o comportamento dos apostadores, mas não enfrentam as empresas responsáveis pela promoção dos jogos.
Nesse discurso, a responsabilidade é transferida para o indivíduo. O apostador é acusado de falta de disciplina, enquanto o modelo de negócio, a publicidade e os mecanismos digitais de indução permanecem fora do debate.
O resultado é uma falsa oposição às bets. O parlamentar declara que apostar é errado, mas não apoia limites efetivos à propaganda, à atuação dos influenciadores ou ao funcionamento das empresas.
Um cassino digital controlado por dados
As redes sociais são o principal meio de expansão das apostas. Instagram, Facebook, TikTok e outras plataformas permitem que anúncios sejam direcionados a públicos específicos a partir de informações sobre comportamento, renda presumida, localização e interesses.
A divulgação também ocorre por meio de conteúdos que não apresentam claramente seu caráter publicitário. Influenciadores gravam vídeos semelhantes a relatos pessoais, celebram supostos ganhos e oferecem códigos de acesso às plataformas.
“É preciso colocar limites para que influenciadores não falem apenas que é possível ganhar dinheiro fácil e mostrem quanto lucraram. Eles precisam demonstrar que aquilo é uma aposta e que existem riscos de dependência e de danos à saúde”, defendeu Héctor.
O ativista descreveu as bets como cassinos digitais desenvolvidos para prolongar a permanência do usuário. Os sistemas utilizam notificações, recompensas visuais, ofertas, sons e estímulos capazes de incentivar novas apostas.
“O mercado funciona como um cassino digital ultratecnológico. Ele é desenhado por algoritmos para fazer o usuário perder o máximo possível e permanecer cada vez mais tempo dentro da plataforma”, afirmou.
As transações por Pix ampliam essa capacidade. O depósito é imediato, disponível durante todo o dia e pode ser realizado sem qualquer contato presencial. A pessoa aposta no intervalo do trabalho, dentro de casa ou durante um deslocamento.
O acesso constante também dificulta que familiares percebam o problema. Diferentemente de outros jogos, não é necessário frequentar um estabelecimento. Todo o processo ocorre na tela do telefone.
Futebol, influenciadores e estímulos visuais
A publicidade das bets ocupa camisas de clubes, transmissões esportivas, placas em estádios, programas de televisão e perfis de influenciadores. Essa presença produz uma aparência de normalidade e associa as empresas a atividades socialmente valorizadas.
Nos jogos de cassino on-line, mascotes coloridos e personagens com aparência infantil tornam a experiência ainda mais atraente. O chamado “jogo do tigrinho” utiliza uma figura simpática e facilmente reconhecida, com apelo capaz de alcançar públicos muito jovens.
Héctor classificou esse ambiente como um sistema sustentado pelo fluxo financeiro instantâneo, pelo marketing agressivo e por técnicas de estímulo comportamental.
A propaganda não vende apenas uma partida ou um jogo. Ela oferece uma expectativa de mudança de vida para pessoas sufocadas por dívidas, baixos salários e falta de perspectiva profissional.
“As bets operam numa lógica de mercantilização da esperança, dos sonhos e da vontade de conseguir condições melhores”, afirmou.
O dinheiro que poderia ser usado na alimentação, no aluguel, no comércio do bairro, na educação ou no lazer é transferido para corporações que lucram com a repetição das apostas.
Endividamento permanece escondido no celular
Outro aspecto destacado durante a entrevista foi a velocidade do endividamento. Em poucos minutos, o usuário pode realizar depósitos sucessivos, utilizar cartão de crédito, recorrer a empréstimos e comprometer recursos destinados a despesas essenciais.
Héctor afirmou que as bets já aparecem como uma importante causa de desorganização financeira entre trabalhadores. O prejuízo costuma permanecer escondido até que a pessoa deixe de pagar contas ou peça dinheiro a familiares.
“Nesses cinco minutos, a pessoa perdeu dinheiro, fez um empréstimo, deixou de pagar uma conta, deixou de ir ao supermercado ou gastou o Bolsa Família para apostar”, relatou.
A dependência também provoca ansiedade, isolamento, depressão e vergonha. Algumas pessoas escondem as perdas porque temem contar à família que o dinheiro da casa foi consumido pelo jogo.
Quando a situação se torna conhecida, parentes acabam assumindo dívidas, cobrindo despesas atrasadas ou enfrentando a redução da renda disponível. Crianças e adolescentes passam a viver em ambientes marcados por conflitos, insegurança alimentar e privação de atividades educacionais e culturais.
Para Héctor, esses efeitos mostram que as bets não podem ser tratadas apenas como uma escolha individual de consumo.
“Não é só um ambiente para fazer um jogo e se divertir. É uma questão de saúde que tem afetado as famílias brasileiras e tirado vidas”, afirmou.
Experiência nas periferias de Praia Grande
Morador de Praia Grande, no litoral de São Paulo, Héctor relatou que os jogos se tornaram comuns entre trabalhadores de bairros periféricos. Aplicativos de apostas são encontrados nos celulares de pessoas que depositam pequenas quantias durante os intervalos do trabalho.
A repetição tornou o comportamento socialmente aceito. Quando familiares, colegas e vizinhos apostam, o risco parece menor. A plataforma passa a ser percebida como parte da rotina.
Essa naturalização, segundo o ativista, precisa ser enfrentada por políticas públicas de prevenção e por campanhas capazes de explicar o funcionamento econômico das bets em linguagem direta.
“A bet não existe para você ganhar dinheiro. Existe para o dono da casa ganhar. Não é para você mudar de vida, é para o dono continuar na vida boa”, disse.
A conscientização, no entanto, não pode substituir a regulamentação. Informar o jogador é necessário, mas insuficiente enquanto empresas e influenciadores continuarem autorizados a divulgar apostas como fonte de renda.
Juventude precarizada encontra poucas perspectivas
A discussão sobre as bets também levou ao debate sobre trabalho e participação política da juventude. Héctor afirmou que os jovens enfrentam jornadas exaustivas, crescimento da contratação como pessoa jurídica, ausência de direitos e redução das possibilidades de construir uma carreira estável.
A antiga promessa de que bastaria estudar e trabalhar para alcançar segurança financeira perdeu credibilidade diante da expansão dos aplicativos, da informalidade e da pejotização.
“Cada vez mais temos jovens trabalhando como PJ, sem direitos trabalhistas, progressão de carreira ou perspectiva de aposentadoria”, observou.
Essa falta de horizonte cria um ambiente favorável às promessas de enriquecimento individual. As apostas, os discursos de empreendedorismo sem proteção social e conteúdos de extrema direita oferecem soluções centradas no indivíduo, enquanto afastam os jovens da organização coletiva.
Héctor considera que o ressentimento provocado pela precarização tem sido utilizado para colocar trabalhadores uns contra os outros e desacreditar a participação política.
Disputa nas plataformas digitais
Como militante da União da Juventude Socialista, Héctor atua em iniciativas voltadas à comunicação digital e à formação política. Ele também participa dos encontros nacionais de jovens comunicadores e ativistas digitais organizados pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
Segundo o convidado, as plataformas não são espaços neutros. Seus algoritmos refletem interesses econômicos e escolhas feitas pelas empresas responsáveis por seu funcionamento.
Mesmo assim, abandonar esses ambientes significaria deixar milhões de jovens expostos apenas a conteúdos produzidos por empresas, influenciadores comerciais e organizações de extrema direita.
“A população está no Facebook, no Instagram, no TikTok, no Discord e no Roblox. É importante que a gente também esteja nesses ambientes, colocando nossas ideias e dialogando com os jovens”, afirmou.
A atuação digital, em sua avaliação, precisa estar vinculada ao trabalho político nos bairros, nas escolas, nas universidades, nos sindicatos e nos movimentos sociais.
Juventude precisa participar das decisões do presente
Héctor também defendeu uma participação maior de jovens nos partidos, nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas e na Câmara dos Deputados.
Para ele, a juventude não deve ser tratada apenas como uma promessa para o futuro. Jovens já enfrentam os efeitos das decisões sobre trabalho, educação, tecnologia, transporte, moradia e saúde mental e, por isso, precisam participar da formulação dessas políticas.
“A construção do agora precisa partir dessa juventude. É necessário dar oportunidade para que o jovem fale sobre sua perspectiva e possa incidir diretamente nos processos”, afirmou.
O ativista criticou a baixa presença de representantes jovens nos parlamentos e defendeu candidaturas comprometidas com direitos trabalhistas, educação pública, esporte, cultura e lazer.
Segundo Héctor, a presença de jovens progressistas também é necessária para enfrentar parlamentares que utilizam a idade como recurso de comunicação, mas defendem projetos contrários aos interesses da juventude trabalhadora.
“Nós jovens queremos falar sobre a nossa realidade. Queremos ocupar espaços que também nos pertencem”, declarou.
Ao final da entrevista, Héctor fez um chamado para que jovens interessados em política procurem organizações estudantis, movimentos territoriais, sindicatos, partidos e meios de comunicação popular.
“Se você é um jovem de esquerda ou progressista e não sabe como se organizar, procure uma organização. É preciso acreditar na política, na educação e na juventude para transformar essa realidade”, concluiu.
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