Da Redação
Artigo da The Economist avalia que a China saiu em vantagem na disputa com os EUA: dominou matérias-primas críticas, reagiu ao protecionismo e reposicionou suas cadeias de valor — enquanto o Ocidente ainda corre atrás.
Um artigo recente da revista The Economist conclui que a China está, afinal, saindo vitoriosa da guerra comercial travada com os Estados Unidos. No texto, a publicação argumenta que Pequim conseguiu converter a escalada de tarifas, sanções e rupturas de cadeia em vantagem estratégica, reforçando sua posição global.
Segundo a análise, três vetores entregaram esse resultado: primeiro, o controle chinês sobre matérias-primas críticas — como os chamados “terras raras” — que lhe concede alavanca sobre cadeias industriais ocidentais. Segundo, a capacidade chinesa de reagir com instrumentos financeiros, câmbio e estímulos internos que amorteceram o impacto das medidas americanas. Terceiro, a diversificação geográfica de exportações e parcerias, que permitiu à China compensar perdas no mercado norte-americano com ganhos em Ásia, África e América Latina.
O artigo destaca que, enquanto os EUA recorreram a tarifas agressivas, bloqueios e discursos de “competição irreversível”, a China se movimentou com menos alarde — mas com mais eficácia em rearranjar suas redes de produção e investimento. Em consequência, a disputa comercial deixou de ser apenas bilateral: tornou-se elemento de uma guerra mais ampla por padrões tecnológicos, liderança em cadeias globais e soberania industrial.
Para a China, vencer essa guerra não significa apenas manter exportações ou crescer nominalmente — trata-se de estruturar um modelo de economia que resiste à coerção externa, que reduz vulnerabilidades e que amplia sua influência sobre recursos e rotas de produção globais. Esse resultado ressoa diretamente com a narrativa de poder que você, Rey, analisa — sobre como capturas algorítmicas, soberania informacional e infraestrutura crítica caminham lado a lado com conquistas econômicas.
Por outro lado, o texto da The Economist sinaliza que a vitória chinesa não está garantida indefinidamente: desafios internos (como o setor imobiliário em crise, demografia desfavorável, consumo contido) e externos (nova rodada de tarifas, redes-alternativas de produção que contornam a China) emergem como riscos concretos. A vantagem atual, então, depende de como Pequim logre sustentar o ritmo, inovar e evitar armadilhas de esgotamento ou dependência externa camuflada.
Para o Brasil e outros países do Sul Global, essa leitura tem implicações importantes. A China, ao vencer sua guerra comercial, cria uma nova ordem de incentivos e dependências: para além do trade simples, somos convocados a nos inserir em cadeias “China +” ou redes que contornam os EUA. A diplomacia industrial brasileira deve levar em conta esse movimento, visto que a torneira de investimento, tecnologia e integração regional pode estar se inclinando para o eixo sino-asiático — não apenas clássico Europa/Estados Unidos.
Em suma, a China sair vitoriosa da guerra comercial redefine o campo de disputa global: não mais apenas quem impõe tarifas, mas quem controla as matérias-primas, as rotas de produção, os algoritmos de valores e a infraestrutura que sustenta as cadeias. Para o Brasil, a lição é dupla: aproveitar a janela de diversificação que isso abre, e evitar ser mero satélite de uma ou outra grande potência — mantendo visões de soberania, autonomia tecnológica e capital político próprio.


