Atitude Popular

“A cozinha é mais que comida”

Redes de cozinhas solidárias mostram que combater a fome é também enfrentar a solidão, valorizar o trabalho das mulheres e transformar políticas públicas em direito permanente

As cozinhas solidárias se tornaram um dos rostos mais visíveis – e mais concretos – da luta contra a fome no Brasil. Espalhadas por capitais, periferias urbanas, interiores e áreas atingidas por tragédias climáticas, elas organizam filas, panelas e afetos em torno de um princípio simples e radical: ninguém deveria passar fome num país que produz mais alimento do que consome.

Essa dimensão foi tema da edição desta segunda-feira (24/11) do programa “Bancos da Democracia”, da Rádio e TV Atitude Popular, que dedicou uma hora de conversa às experiências de cozinhas solidárias no Ceará, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul. A entrevista, conduzida por Sara Goes, contou com a participação de Lia de Freitas, primeira-dama do Ceará e presidente do Comitê Intersetorial de Governança do programa Ceará Sem Fome; de Paulo Mansan, doutor em Agroecologia e integrante da coordenação nacional do Mãos Solidárias; e de Lourdes Marta Santin, do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), do Rio Grande do Sul.

Logo no início do programa, a apresentadora lembrou que, só pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), “são mais de 2.000 cozinhas solidárias cadastradas” em todo o país. Uma malha que se conecta com programas estaduais, como o Ceará Sem Fome, e com redes de movimentos sociais que se organizaram sobretudo a partir da pandemia de Covid-19.

“A economia solidária é muito espalhada no Brasil inteiro. Você vê qualquer interior do Brasil, você vai encontrar uma cozinha solidária. Qualquer capital, qualquer centro urbano, você vai encontrar a cozinha solidária”, observou Sara ao apresentar o tema.

Rio Grande do Sul: cozinhas que nascem da enchente e da urgência da fome

Do campo gaúcho, falando à distância com a câmera ligada e uma estante de livros ao fundo, Lourdes Marta Santin reconstruíu o caminho das cozinhas solidárias no Rio Grande do Sul. Segundo ela, o movimento se estruturou em duas grandes ondas: a da pandemia e a das enchentes de 2023 e 2024.

“Durante a pandemia surgiram muitas cozinhas. Mas elas têm um ápice de eclodir em muitas cozinhas a partir da enchente que nós vivemos em 2023 e, depois, em 2024, que foi um desastre muito grande”, relatou.

A explosão de cozinhas solidárias, explica Lourdes, respondeu à combinação cruel entre desastres climáticos e desigualdade social. Mas o papel dessas iniciativas vai além do prato pronto:

“As cozinhas solidárias são extremamente importantes, mas elas não substituem a política pública. A fome tem pressa, não pode esperar, e a cozinha responde imediatamente. Só que ela também é um espaço de recuperar a dignidade das pessoas”, afirmou.

Ela descreve as cozinhas como “centros sociais acolhedores”, lugares onde se come, mas também se conversa, se chora e se pensa o porquê da fome “num país tão rico, que tem condição de alimentar todo o seu povo”. A partir desses encontros, beneficiárias deixam de ser apenas usuárias e passam a atuar como voluntárias, assumindo tarefas de produção e organização.

Lourdes chama atenção ainda para um traço estrutural: quem sustenta o trabalho cotidiano das cozinhas são, majoritariamente, mulheres.

“É o trabalho da reprodução social da vida, que sempre foi invisibilizado, ligado ao trabalho doméstico e à política de cuidados. E hoje, nas cozinhas populares e solidárias, esse trabalho de novo é feito pelas mesmas pessoas: mulheres, em sua maioria”, pontuou.

Para ela, é hora de o Estado reconhecer esse trabalho como política de cuidado, valorá-lo e remunerá-lo:

“Nós precisamos que o poder público olhe para esse trabalho e diga que ele vale. E isso passa por políticas que fujam da lógica do empreendedorismo individual e fortaleçam o trabalho cooperado.”

Pernambuco: 45 milhões de marmitas e uma cozinha que “mata a fome de letras”

Do Recife, Paulo Mansan contou a trajetória do Mãos Solidárias, rede que nasceu durante a pandemia com forte apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Hoje, a iniciativa coordena 42 cozinhas populares solidárias em Pernambuco e, em todo o Nordeste e outras regiões, chega a cerca de 118 cozinhas articuladas em rede.

No auge da pandemia, o Mãos Solidárias criou a “Marmita Solidária”, que atende principalmente população em situação de rua.

“Nós já estamos chegando a quase 45 milhões de marmitas nessa cozinha”, relatou Paulo.

Ele lembra também a tragédia das chuvas de 2022 em Pernambuco, que deixou mais de 150 mortos nas encostas e periferias:

“No meio da tragédia nasce a esperança. Quem estava nos locais mais pobres eram os núcleos e os agentes do Mãos. Em 12, 15 horas, criamos 13 cozinhas e começamos a distribuir dezenas de milhares de refeições.”

Inspirado pelo trabalho de base, Paulo insiste que as cozinhas não são apenas pontos de distribuição de comida, mas núcleos de organização popular.

O Mãos Solidárias também ajudou a criar, junto com a Fiocruz e a Universidade Federal de Pernambuco, o programa de Agentes Populares de Saúde, hoje incorporado pelo Ministério da Saúde como Agentes de Educação Popular em Saúde. E, em parceria com o MEC, participa de turmas de alfabetização com o método “Sim, Eu Posso” dentro das cozinhas.

É daí que vem uma das frases que sintetizam o espírito do programa – e que acabou virando título desta matéria:

“A cozinha é mais que comida. A cozinha mata a fome de letras, a cozinha mata a fome de afeto, ela mata a fome dos encontros”, resumiu Paulo.

Ao avaliar o cenário nacional, ele faz um alerta direto:

“O Brasil saiu do mapa da fome, mas a fome não acabou no Brasil. Precisamos de políticas estruturantes. O Bolsa Família tem que aumentar, porque é uma política que tira o Brasil do mapa da fome. E a nossa luta é para as cozinhas solidárias acabarem, né, gente? A gente não quer que ninguém precise mais de cozinha solidária para sobreviver.”

Ceará: um laboratório de política pública articulada com a sociedade

Se, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul, as cozinhas surgem muitas vezes no improviso da urgência, o Ceará tem tentado transformar essa realidade em política de Estado.

A primeira-dama Lia de Freitas, presidente do Comitê Intersetorial de Governança do programa Ceará Sem Fome, detalhou a arquitetura do programa, criado por lei em 2023. São três eixos principais: cartão alimentação, rede de cozinhas solidárias e unidade central de alimentos, além de ações de qualificação e geração de renda.

No cartão, o governo estadual complementa a renda de 50 mil famílias cuja renda per capita, mesmo com o Bolsa Família, fica abaixo de R$ 218 mensais. Essas famílias recebem R$ 300 por mês em cartão alimentação.

A rede de cozinhas é ainda mais robusta:

Meta inicial: 1.000 cozinhas;

Situação atual: 1.282 cozinhas em funcionamento;

Cada unidade distribui 100 refeições por dia;

São quase 130 mil refeições diárias, em todos os 184 municípios;

O investimento anual do estado apenas nesse eixo chega a R$ 300 milhões.

Segundo Lia, cada prato servido pelo programa custa, em média, R$ 7,64, considerando insumos, energia, água, embalagens e ajuda de custo para quem cozinha.

“O prato hoje, no governo do estado do Ceará, tem sido com muita dedicação. É recurso diretamente do tesouro, é o imposto dos próprios cearenses retornando em alimento”, explicou.

Outro pilar do Ceará Sem Fome é o vínculo com a agricultura familiar. O programa não aceita alimentos ultraprocessados:

“O programa Ceará Sem Fome não fornece absolutamente nenhum alimento ultraprocessado”, enfatizou Lia, lembrando que o estado sancionou uma lei que proíbe ultraprocessados nas escolas públicas e privadas.

Além disso, o governo cearense ampliou a obrigação de que ao menos 30% dos alimentos comprados pelo poder público venham da agricultura familiar, não só para a rede de ensino, mas para todas as secretarias, órgãos vinculados e serviços terceirizados.

“Temos a alegria de poder não só levar tecnologia e formação pro campo, mas também comprar o que está sendo produzido. É fechar o ciclo da economia: da produção ao prato, passando pela cozinha solidária e pelo desenvolvimento das periferias”, resumiu.

Para além da assistência imediata, Lia destacou o eixo de qualificação e renda, que já formou mais de 20 mil pessoas, muitas delas mulheres que hoje recebem mentoria do Sebrae, participam de iniciativas de associativismo e cooperativismo e começam a desenhar negócios próprios – inclusive padarias sociais que nasceram a partir de cozinhas solidárias.

Economia solidária, cuidado e política de Estado

Quando o debate se desloca do prato para a estrutura, Lourdes e Paulo convergem na crítica à lógica do empreendedorismo individual como resposta à pobreza.

Respondendo à pergunta de uma espectadora sobre como evitar que as cozinhas aprofundem o isolamento, transformando solidariedade em microempreendedorismo competitivo, Paulo foi direto:

“A solidariedade resolve por um tempo, mas é preciso gerar renda e pensar uma economia diferente. Como transformar esse equipamento da cozinha em renda sem virar empreendedorismo capitalista? É uma boa pergunta que o Estado tem que enfrentar junto com a economia popular e solidária.”

Lourdes, por sua vez, defendeu a criação de leis que garantam fomento permanente ao trabalho cooperado – e não apenas financiamentos temporários:

“O trabalho cooperado tem que ser fomentado. Hoje se fomenta o grande banco, a grande empresa. Nós precisamos fomentar o trabalho nos princípios do cooperativismo, com responsabilidade da política pública. Tem que ser política de Estado, não só de governo.”

Ela lembra que o Rio Grande do Sul, governado por uma gestão “conservadora e neoliberal”, é um exemplo de como a falta de compromisso institucional fragiliza experiências comunitárias. E resgata o aprendizado de Porto Alegre com o orçamento participativo, que perdeu fôlego após a mudança de governo.

Paulo reforça a mesma preocupação:

“Os governos passam. O que fica é a organização popular. O desafio é estruturar políticas e redes de cozinhas que sobrevivam aos ciclos eleitorais.”

Fome, solidão e o papel das mulheres

Um dos momentos mais fortes do programa surgiu quando Lourdes sintetizou um efeito subjetivo da fome:

“A fome impõe uma solidão. As pessoas viram ilhas”, disse ela.

Sara então compartilhou uma história ouvida numa cozinha solidária de Fortaleza, onde sua mãe atua como voluntária. Em conversa com o grupo, descobriram que todas as mulheres que trabalhavam ali eram vítimas de violência doméstica – e haviam encontrado na cozinha uma espécie de refúgio cotidiano.

Mais do que um equipamento de segurança alimentar, aquele espaço tinha se tornado um lugar de fuga da violência e de reconstrução de vínculos. Um exemplo concreto do que as convidadas chamaram de “política de cuidado”: cozinhas que protegem corpos, rompem ciclos de isolamento e criam redes afetivas e políticas em torno do alimento.

Lourdes conectou esse relato ao papel das cozinhas nos terreiros e comunidades ancestrais, destacando que muitas dessas cozinhas sempre existiram como espaços de acolhimento, partilha e resistência – e precisam ser reconhecidas e incluídas no desenho das políticas públicas.

Um futuro em que cozinhas solidárias não sejam mais necessárias

Nos minutos finais, os convidados voltaram ao horizonte comum que os move: trabalhar para que, um dia, seu próprio trabalho seja dispensável.

“O nosso horizonte, enquanto movimentos populares solidários, é construir uma sociedade em que a gente não tenha necessidade de existir enquanto movimento reivindicatório que luta pelos direitos”, disse Lourdes.

Ela descreve esse horizonte como o de uma “sociedade justa, equânime, em que ninguém passe fome e todas as pessoas sejam incluídas” – um mundo em que os recursos hoje destinados à guerra e à destruição sejam usados para distribuir renda, garantir direitos e organizar o bem viver.

Paulo encerrou retomando a contradição brasileira:

“Se nós usássemos todos os recursos que existem para a distribuição justa de renda, certamente ninguém passaria fome. O Brasil saiu do mapa da fome, mas a fome não acabou no Brasil. Por isso nossas cozinhas ainda são necessárias – mas a nossa luta é para que um dia elas não precisem mais existir.”

Até lá, as panelas seguem no fogo, ocupando um espaço que é, ao mesmo tempo, emergência e projeto de país. Como resumiu ele, “a cozinha é mais que comida” – é alfabetização, cuidado, renda, encontro, política e, sobretudo, a recusa coletiva de aceitar a fome como destino.

📺 Programa Bancos da Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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