Em encontro sobre conjuntura política, filósofo relaciona crise institucional no Brasil à disputa geopolítica global, ao avanço de saídas autoritárias e à dificuldade das forças populares de reconstruir horizonte de transformação
A conjuntura brasileira e internacional foi o centro de um debate marcado por preocupação estratégica, inquietação política e críticas duras ao esvaziamento das mediações democráticas. A discussão, que reuniu militantes, dirigentes e participantes de um grupo de formação política, teve como base uma análise de conjuntura ligada à CNBB e foi apresentada em transmissão publicada no YouTube sob o título Conjuntura Política com padre e filósofo Manfredo Oliveira.
Ao longo da exposição, Manfredo Oliveira procurou situar a crise brasileira dentro de um quadro mais amplo, marcado pela reorganização do poder mundial, pela intensificação dos conflitos geopolíticos e pelo enfraquecimento das formas clássicas de regulação institucional. Sua tese central é que o Brasil não pode ser compreendido de maneira isolada, nem por análises fragmentadas, porque está inserido numa crise sistêmica do capitalismo contemporâneo e numa disputa global que atravessa energia, território, finanças, tecnologia e guerra.
Logo no início da fala, o filósofo insistiu que os fenômenos do presente não devem ser lidos como fatos soltos. Para ele, a conjuntura atual exige uma análise integrada, que articule o plano internacional, regional, nacional, institucional, social e ético. A partir desse ponto, a exposição avançou para uma leitura do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã como expressão condensada de uma crise histórica mais longa, e não como um episódio passageiro.
Segundo Manfredo, a posição do Irã é estratégica não apenas por razões militares, mas por sua centralidade geográfica, energética e civilizatória. O país aparece, em sua leitura, como peça-chave numa área decisiva para a circulação de energia no sistema internacional, sobretudo pela importância do Estreito de Ormuz e pelo papel que a região exerce sobre os preços, os fretes, os seguros e o equilíbrio global. A conclusão apresentada foi a de que um conflito localizado pode produzir efeitos mundiais imediatos, contaminando combustíveis, eletricidade, fertilizantes, transporte e, por consequência, o custo de vida.
Nesse ponto, a análise se afasta de uma simples descrição militar e passa a ressaltar o impacto social da guerra. Para o expositor, o prolongamento das tensões internacionais tende a empurrar a economia global para um cenário de inflação elevada e instabilidade persistente. Mais do que um problema de macroeconomia, isso abriria espaço para o fortalecimento de “saídas autoritárias, lideranças plebiscitárias, discursos de exceção e promessas de restauração de ordem pela força”.
A leitura geopolítica apresentada no encontro também ligou o Oriente Médio ao processo de reorganização do poder global. Em sua fala, Manfredo argumenta que a disputa em torno do Irã não se reduz ao programa nuclear ou à segurança regional. O problema, para as grandes potências ocidentais, estaria no fato de o país ocupar uma posição decisiva numa região em que os Estados Unidos tentaram, por décadas, estruturar uma ordem favorável a seus interesses. Ao mesmo tempo, em sua interpretação, Rússia e China veem o Irã como elemento relevante para segurança energética, autonomia logística e projeção continental de longo prazo.
Da guerra no Oriente Médio, a discussão passou para a América Latina. O continente foi descrito como espaço de disputa entre a necessidade de aproveitar oportunidades abertas pela transição energética e a tentativa de restauração da primazia hemisférica dos Estados Unidos. A região, segundo os debatedores, está no centro de uma nova corrida por minerais críticos, por cadeias produtivas estratégicas e por alinhamentos diplomáticos. Mas essa centralidade econômica convive, contraditoriamente, com desigualdades profundas, informalidade elevada e baixa capacidade de conversão de riqueza em soberania social.
Ao tratar do Brasil, Manfredo apresentou um diagnóstico contundente. Para ele, a democracia brasileira não está diante de um golpe clássico, com fechamento do Congresso ou suspensão formal da Constituição. O processo seria mais sofisticado e, por isso mesmo, mais perigoso. Em uma das passagens mais fortes da exposição, afirmou que o país vive a “conservação aparente da democracia constitucional com uma degradação de baixa intensidade”, na qual os partidos perdem densidade social, o Congresso amplia seu poder material sobre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal passa a arbitrar impasses que deveriam ser resolvidos pela política.
Essa formulação atravessou toda a reunião. O argumento é que a erosão democrática no Brasil acontece sem ruptura espetacular. As formas continuam de pé, mas esvaziadas. O Executivo, nessa leitura, já não governa plenamente; governa “sob permissão negociada”. O Congresso expande sua capacidade de impor agenda, condicionar recursos e capturar partes crescentes do aparelho de Estado. E o Judiciário ocupa um espaço cada vez maior na mediação de conflitos estruturais, sintoma de um sistema político que perdeu capacidade de processamento.
A crítica ganhou densidade quando a fala tratou da agenda socioambiental. O expositor apontou um descompasso entre o governo federal e a composição do Congresso, com destaque para medidas de flexibilização ambiental, estímulo à regularização de ocupações ilegais, enfraquecimento de órgãos de fiscalização e ataques aos direitos de povos indígenas e quilombolas. Em vez de ver a crise ecológica apenas como questão técnica, o debate a tratou como expressão de uma disputa mais profunda sobre o tipo de país em construção e sobre quais interesses continuam autorizados, informalmente, a degradar o território nacional.
Depois da exposição inicial, o debate foi ampliado com intervenções que buscaram preencher lacunas, sobretudo no terreno das saídas políticas. Um dos participantes, Martiniano, afirmou que o texto-base oferece um diagnóstico poderoso, mas ainda insuficiente quando se trata de indicar caminhos concretos. Em sua avaliação, “há uma ausência de caminhos”, apesar da importância dos valores defendidos ao final do documento. Ele advertiu que as janelas históricas para mudanças estruturais estão se estreitando e que a esquerda brasileira pode estar diante de um tempo curto para alterar as bases reais do poder.
Em sua intervenção, Martiniano sustentou que não bastam melhorias pontuais ou conquistas administrativas. Segundo ele, sem transformação do poder, não haverá mudança substantiva no país. Ao comentar o atual arranjo institucional, foi direto ao dizer que o Congresso “não é um Congresso que altere a representação social”, mas uma expressão de setores médios articulados ao capital financeiro e a frações que operam, de forma permanente, a despolitização da sociedade.
Outras falas deslocaram o foco para um tema recorrente no campo popular: a comunicação. Participantes relataram dificuldade crescente de fazer chegar, às bases sociais e territoriais, a narrativa das ações governamentais e das disputas em curso. Houve quem apontasse um afastamento entre lideranças políticas e periferias, além da sensação de que a extrema direita conseguiu ocupar, com enorme eficiência, o espaço da linguagem simples, da indignação difusa e do discurso antissistema.
Essa preocupação apareceu de forma dramática em diferentes momentos do encontro. Uma participante afirmou que o problema central talvez seja a incapacidade das forças progressistas de alcançar “o inconsciente coletivo” com uma proposta afirmativa, mobilizadora e enraizada no cotidiano. Outro debatedor argumentou que a direita conseguiu sequestrar palavras, afetos e repertórios antes associados à luta popular, apresentando-se como insurgência moral mesmo quando atua a serviço da ordem social mais desigual.
Também houve um sentimento explícito de angústia diante da recepção social das políticas públicas. Relatos de desgaste do salário, de frustração nas periferias e de decepção com a lentidão das mudanças foram trazidos à mesa como alerta. Em várias falas, apareceu a ideia de que parte expressiva da população beneficiada por políticas sociais não estabelece mais uma relação política duradoura com esse legado. Isso ajuda a explicar, segundo os participantes, por que setores populares podem aderir a discursos violentos, antipolítica ou francamente autoritários.
Nesse contexto, a figura de Lula apareceu menos como indivíduo e mais como limite histórico. Alguns participantes sugeriram que o país talvez esteja diante de uma das últimas oportunidades de realizar mudanças estruturais com mediação democrática e liderança popular ainda reconhecida nacionalmente. A advertência não foi feita em tom messiânico, mas como constatação de um impasse: o governo opera cercado por um Congresso hostil, por uma correlação de forças desfavorável e por um ambiente social tomado por fraturas ideológicas, fadiga institucional e desorganização do mundo do trabalho.
Na parte final do debate, surgiu a defesa de que não basta repetir a palavra democracia como senha moral. Um dos participantes foi taxativo: “a coisa menos importante hoje no mundo é democracia”, não porque ela tenha deixado de ser valiosa, mas porque já não mobiliza por si só amplos setores da população, capturados por discursos de exceção, lideranças personalistas e fantasias de restauração da ordem. A questão, portanto, não seria apenas defender a democracia existente, mas ressignificá-la em chave econômica, social, territorial e cognitiva.
Essa talvez tenha sido a síntese mais forte do encontro. O problema não está apenas no avanço da extrema direita ou no peso da conjuntura internacional, mas na dificuldade do campo popular de reorganizar linguagem, vínculo social e capacidade estratégica em meio a uma crise civilizatória mais ampla. A leitura proposta por Manfredo Oliveira e pelos demais participantes aponta justamente para isso: o Brasil não enfrenta só uma disputa eleitoral ou uma instabilidade institucional passageira. Enfrenta uma mutação do próprio terreno onde a política se move.
Ao fim, o debate deixou menos respostas prontas do que perguntas urgentes. Como reorganizar os trabalhadores num cenário de precarização massiva e transformação tecnológica? Como fazer disputa cultural sem reduzir a política a marketing? Como enfrentar a captura do Estado por interesses regressivos sem cair numa defesa abstrata das instituições? E, sobretudo, como reconstruir um horizonte de país capaz de unir soberania, igualdade, trabalho, justiça ambiental e participação popular?
Mais do que uma simples conversa sobre conjuntura, a reunião expôs o tamanho do desafio histórico. O sentimento predominante foi o de que o país atravessa uma fase em que a superfície institucional já não revela, sozinha, a profundidade da crise. E que, se o campo democrático e popular quiser disputar de fato os rumos do Brasil, terá de reaprender a falar de futuro, poder e transformação em termos compreensíveis para a vida concreta do povo.












