Disputa no Ceará em 2026 expõe tensão entre personalismo e programas políticos em cenário ainda indefinido
A corrida eleitoral para o governo do Ceará em 2026 já começa a ganhar contornos mais nítidos, mas ainda marcada por incertezas, disputas internas e uma tensão estrutural entre candidaturas baseadas em lideranças individuais e aquelas ancoradas em projetos políticos mais amplos. A análise foi feita pelo cientista político João Paulo Bandeira, professor do Instituto Federal do Ceará, em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas no dia 22 de abril.
Logo no início da conversa, Bandeira destacou o que considera o eixo central da disputa:
“As pessoas votam em pessoas, mas também votam em projetos.”
Segundo ele, essa dualidade é uma constante nas democracias contemporâneas e se manifesta de forma clara no cenário cearense.
Dois polos e duas lógicas
De acordo com o professor, o Ceará caminha para uma eleição polarizada entre dois grandes campos políticos. De um lado, o atual governador Elmano de Freitas representa um projeto coletivo consolidado ao longo das últimas duas décadas, ligado à liderança do ministro Camilo Santana e ao campo político do Presidente Lula.
Bandeira observa que Elmano não é apenas um candidato individual, mas parte de uma engrenagem maior:
“O poder não é do Elmano, o poder é do grupo ao qual ele está ligado”, afirmou. Esse grupo reúne lideranças influentes no estado e conta com uma ampla base de prefeitos, partidos e apoio institucional, além de um governo com avaliação positiva e entregas em áreas como saúde e economia.
Por outro lado, a oposição se organiza em torno de uma figura central: Ciro Gomes.
“De um lado temos alguém que representa um projeto; do outro, um projeto em torno de um alguém”, sintetizou Bandeira.
Segundo ele, pesquisas indicam que Ciro aparece competitivo e, em alguns cenários, à frente de Elmano. No entanto, a oposição ainda carece de um programa claro, tendo como principal bandeira, até o momento, a retirada do grupo governista do poder.
Uma aliança heterogênea
A construção da candidatura de Ciro reúne forças políticas diversas, incluindo nomes como Capitão Wagner, André Fernandes e setores de partidos como PL e PSDB. Para Bandeira, essa convergência revela tanto a força do nome de Ciro quanto os desafios de coesão.
“Questões pessoais se resolvem numa conversa. Questões políticas tão divergentes não”, destacou, ao apontar diferenças ideológicas profundas dentro do bloco oposicionista.
Ele lembra que Ciro tem uma linha neodesenvolvimentista, crítica ao neoliberalismo, o que pode entrar em choque com partidos mais liberais ou conservadores que hoje o apoiam.
O fator Ciro e os cenários alternativos
A eventual saída de Ciro Gomes da disputa estadual — para tentar novamente a Presidência da República — é apontada como um elemento de instabilidade. Nesse caso, o nome mais provável da oposição seria Roberto Cláudio.
Ainda assim, Bandeira avalia que a substituição não seria simples:
“Uma coisa é o Ciro, outra coisa é o Roberto Cláudio”, afirmou, lembrando que o ex-prefeito de Fortaleza teve desempenho inferior ao esperado em disputas recentes.
Além disso, a oposição poderia perder coesão sem a liderança de Ciro, abrindo espaço para outras candidaturas, como a do senador Eduardo Girão, que tenta se consolidar como representante da direita mais ideológica.
Senado e rearranjos políticos
A disputa pelas duas vagas ao Senado também segue indefinida. No campo governista, nomes como Cid Gomes e Eunício Oliveira aparecem como peças-chave, enquanto o campo da esquerda pode ganhar nova configuração com a possível candidatura de Luizianne Lins.
Bandeira destaca que a presença de Luizianne pode reorganizar o voto progressista no estado, criando uma dinâmica própria dentro da eleição majoritária.
Já na oposição, nomes ligados ao bolsonarismo disputam espaço, com destaque para possíveis indicações dentro do PL e articulações envolvendo lideranças locais.
Assembleia e Câmara: tendência de continuidade
No Legislativo, a tendência apontada é de manutenção de grande parte dos atuais mandatos. Segundo o cientista político, a vantagem de quem já ocupa cargo torna cada vez mais difícil a renovação.
Ele destaca ainda o fortalecimento de partidos como PSB e PSDB após a janela partidária, além da expectativa de que o bloco governista mantenha maioria confortável na Assembleia Legislativa, independentemente do resultado da eleição para o Executivo.
Uma eleição em aberto
Apesar das movimentações já visíveis, Bandeira reforça que o cenário ainda está longe de definido:
“Teremos uma eleição extremamente competitiva”, afirmou.
A depender das decisões estratégicas — especialmente de Ciro Gomes —, o Ceará pode assistir a uma disputa equilibrada entre continuidade e mudança, com projetos políticos e lideranças pessoais disputando não apenas votos, mas o próprio sentido da política no estado.
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