Novo livro de Sylvia Moretzsohn propõe uma visão histórica da desinformação e alerta para os riscos da velocidade, da inteligência artificial e da manipulação informacional sobre a democracia
No programa Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes e com comentários de Sandra Helena, a jornalista e pesquisadora Sylvia Moretzsohn analisou os mecanismos históricos e contemporâneos da desinformação, discutindo como a circulação acelerada de informações, as plataformas digitais e a inteligência artificial vêm transformando o debate público e afetando a democracia. A entrevista teve como ponto de partida o lançamento do livro Eles não querem que você saiba: armadilhas da desinformação, publicado pela Ação Editora em 2026.
Professora aposentada da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisadora vinculada a instituições no Brasil e em Portugal e autora de diversas obras sobre jornalismo e mídia, Sylvia defendeu uma compreensão mais ampla da desinformação, rejeitando a ideia de que o fenômeno teria surgido apenas com as redes sociais.
Segundo ela, o problema é anterior à internet e está relacionado à própria dinâmica da imprensa industrial moderna.
“A desinformação propriamente dita se localiza no processo de produção industrial dos jornais.”
A pesquisadora argumenta que a busca permanente pelo chamado “furo” jornalístico criou, ao longo de mais de um século, uma cultura profissional na qual a velocidade frequentemente se sobrepõe à verificação rigorosa dos fatos.
Para Sylvia, a lógica do “publique primeiro e confirme depois” não surgiu com o ambiente digital. As redes sociais apenas ampliaram uma tendência já presente nos meios de comunicação tradicionais.
A velocidade como valor absoluto
Durante a conversa, Sylvia retomou reflexões desenvolvidas em seu livro Jornalismo em “tempo real”: o fetiche da velocidade, publicado originalmente antes da consolidação das redes sociais.
Ela destacou que a transformação da velocidade em um valor absoluto produz distorções permanentes na cobertura jornalística.
Segundo a autora, a necessidade de preencher continuamente os espaços informativos favorece análises superficiais, interpretações apressadas e explicações simplificadoras para problemas complexos.
“Você tem essa ânsia de chegar na frente e isso passa a ser o grande valor.”
Na avaliação da pesquisadora, a consequência é um ambiente comunicacional em que muitas vezes a explicação é produzida antes da compreensão efetiva dos fatos.
O papel da mídia tradicional
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica à ideia de que a desinformação seria um problema exclusivo das plataformas digitais.
Sylvia ressaltou que a imprensa profissional continua desempenhando papel decisivo na formação das percepções públicas, tanto por aquilo que noticia quanto pela forma como enquadra determinados acontecimentos.
Ela citou exemplos de manchetes, enquadramentos editoriais e analogias econômicas que ajudam a consolidar interpretações simplificadas da realidade.
Entre os casos mencionados, destacou a recorrente comparação entre as finanças públicas e o orçamento doméstico.
Para a pesquisadora, trata-se de uma analogia enganosa, porque um Estado possui instrumentos econômicos e responsabilidades completamente diferentes das de uma família.
“A dona de casa não emite moeda, não faz investimento público e não possui as mesmas responsabilidades que um Estado.”
Segundo Sylvia, esse tipo de simplificação produz desinformação mesmo quando não há fabricação deliberada de notícias falsas.
Emoções, política e manipulação
Outro aspecto abordado foi o papel das emoções na circulação de informações.
A pesquisadora criticou abordagens que tratam emoção e racionalidade como elementos opostos e afirmou que compreender os afetos é fundamental para entender os processos de convencimento político.
Ela observou que a comunicação contemporânea opera cada vez mais por estímulos emocionais, o que favorece campanhas de manipulação e discursos extremistas.
Ao mesmo tempo, alertou para o risco de análises elitistas que desprezam manifestações culturais populares ou formas não tradicionais de produção de sentido.
Para Sylvia, compreender como as pessoas se relacionam emocionalmente com conteúdos informativos é condição necessária para enfrentar a desinformação.
Inteligência artificial e eleições
Embora a maior parte da entrevista tenha se concentrado na trajetória histórica da desinformação, Sylvia também apontou preocupação com os impactos da inteligência artificial na produção e circulação de conteúdos políticos.
Ela considera que as ferramentas de IA ampliam desafios já existentes, sobretudo em períodos eleitorais, quando cresce a produção de conteúdos manipulados, vídeos falsos, montagens e campanhas de influência direcionadas.
A pesquisadora defendeu que o debate público sobre inteligência artificial não se limite às tecnologias em si, mas considere também os interesses econômicos e políticos envolvidos em sua utilização.
Brasil, Portugal e o avanço da extrema direita
Ao final da entrevista, Sylvia apresentou outro trabalho recente do qual participa: o livro 60 anos do golpe, 50 anos da Revolução: a democracia em disputa no Brasil e em Portugal.
A obra reúne análises sobre o crescimento da extrema direita, os desafios da democracia contemporânea e as transformações nos sistemas de comunicação dos dois países.
Segundo a autora, a comparação entre Brasil e Portugal ajuda a compreender fenômenos globais que atravessam diferentes sociedades, como a radicalização política, o enfraquecimento das instituições democráticas e a circulação massiva de desinformação.
Para ela, compreender essas transformações exige olhar simultaneamente para a política, a economia, a tecnologia e os sistemas de mídia.
Referências
Eles não querem que você saiba: armadilhas da desinformação
Sylvia Debossan Moretzsohn (2026)
Jornalismo em “tempo real”: o fetiche da velocidade
Sylvia Debossan Moretzsohn | Editora Revan
Pensando contra os fatos: jornalismo e cotidiano, do senso comum ao senso crítico
Sylvia Debossan Moretzsohn | Editora Revan
Repórter no volante
Sylvia Debossan Moretzsohn | Publifolha
60 anos do golpe, 50 anos da Revolução: a democracia em disputa no Brasil e em Portugal
Organização coletiva | Expressão Popular / Fiocruz
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