Sociólogo Osmar de Sá Ponte afirma que a esquerda precisa compreender as mudanças sociais e disputar uma agenda de futuro para enfrentar um Congresso cada vez mais conservador e uma extrema direita fortalecida
A nova composição do Congresso Nacional, definida pelas eleições de 2026, deverá impor ao próximo governo uma relação ainda mais complexa com o Legislativo. O resultado das urnas foi o ponto de partida do debate realizado no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, que reuniu o sociólogo Osmar de Sá Ponte e o professor Thiago Esteves para discutir os rumos da política brasileira a partir de 2027. A entrevista foi conduzida excepcionalmente por Reynaldo Aragon, com comentários de Osmar de Sá Ponte, e analisou os desafios colocados para uma eventual nova gestão do Presidente Lula diante do avanço da direita e da extrema direita no Congresso.
Durante o programa, Osmar de Sá Ponte avaliou que o problema ultrapassa a correlação de forças entre partidos. Para o sociólogo, o sistema político brasileiro, historicamente conservador, vem se deslocando para uma posição mais reacionária, enquanto parte da esquerda demonstra dificuldades para interpretar mudanças sociais que já alteraram profundamente a relação dos brasileiros com a política.
“A direita tá entendendo o Brasil mais do que a esquerda é capaz de entender.”
A afirmação resume uma das principais críticas apresentadas pelo sociólogo. Segundo ele, a dificuldade da esquerda não está apenas na formulação de estratégias eleitorais, mas na capacidade de compreender transformações econômicas, culturais, tecnológicas e geracionais que modificaram a sociedade brasileira.
Osmar considera que uma parcela da esquerda continua interpretando o país a partir de referências que já não explicam integralmente o presente. A mudança no mundo do trabalho, a expansão das universidades, a transformação dos hábitos de consumo e a chegada das redes sociais alteraram as expectativas de uma parcela significativa da população, sobretudo entre os mais jovens.
“A gente não vive no mesmo mundo”, afirmou. Para ele, a geração que cresceu depois da primeira eleição de Lula não possui a mesma memória social daqueles que viveram a inflação, a precariedade econômica e a exclusão dos anos anteriores aos governos petistas.
Essa diferença geracional aparece também na forma como a juventude se relaciona com a política. Segundo Thiago Esteves, uma parcela expressiva do eleitorado mais jovem não possui experiência direta com o Brasil anterior a 2002. Para quem tinha pouca idade ou sequer havia nascido quando Lula chegou pela primeira vez à Presidência, políticas públicas que foram implantadas ou ampliadas ao longo dos governos petistas podem ser percebidas como parte natural da vida adulta.
O professor lembrou que a primeira eleição de Lula ocorreu em 2002 e que, desde então, milhões de brasileiros cresceram em um período marcado por mudanças nas condições de acesso à universidade, aos institutos federais, à moradia e a programas sociais. Essa geração também viveu posteriormente os governos Temer e Bolsonaro, mas não necessariamente possui memória própria das condições econômicas e sociais que marcaram os anos 1980 e 1990.
Thiago relatou lembranças da infância durante o período de inflação elevada. Ele recordou as filas nos bancos para receber salários e a corrida nos supermercados diante da remarcação constante dos preços. A experiência, segundo ele, ajuda a dimensionar a distância entre a memória política das gerações mais velhas e a percepção daqueles que chegaram à idade eleitoral depois dos governos Lula.
Essa distância, afirmou, cria uma disputa política que não pode ser enfrentada apenas pela recuperação de lembranças do passado.
“A gente tem que apontar pro futuro”, disse Thiago.
Para ele, a esquerda precisa apresentar uma perspectiva concreta sobre o que pretende fazer em áreas como educação, saúde, habitação, saneamento e relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário. A comparação entre projetos deve ocupar espaço maior no debate eleitoral, em vez de ficar restrita à disputa sobre a memória dos governos anteriores.
Redes sociais e formação da percepção política
Outro eixo da entrevista foi o papel das plataformas digitais na formação das percepções políticas. Thiago Esteves afirmou que uma parcela da juventude, mas também outros grupos sociais, passou a receber informações dentro de ambientes determinados pelos algoritmos das grandes plataformas.
Segundo o professor, o problema não se limita à circulação de notícias falsas. A questão envolve a própria seleção das informações às quais cada usuário é exposto.
“Onde você só vê aquilo que o algoritmo quer que você veja”, afirmou.
A partir dessa lógica, comunidades digitais podem produzir percepções políticas que não dependem diretamente do período eleitoral. O ambiente virtual passa a participar da formação cotidiana de valores, referências e expectativas sobre a sociedade.
Reynaldo Aragon apresentou durante o programa uma reflexão baseada em artigo que escreveu sobre o tema, cujo argumento central é que a direita e a extrema direita passaram anos construindo comunidades políticas no ambiente digital, enquanto a esquerda concentrou parte significativa de sua atuação nas redes nos períodos eleitorais.
A diferença, segundo a análise apresentada, está no tempo de construção da disputa. A presença digital não seria apenas uma ferramenta para divulgar candidaturas durante uma campanha, mas um espaço permanente de formação de percepções sobre política, economia, comportamento e sociedade.
Thiago relacionou esse fenômeno a uma tradição de estudos sobre comunicação de massa e formação da consciência social. Citou Theodor Adorno e Max Horkheimer, integrantes da Escola de Frankfurt, para lembrar que a influência dos meios de comunicação sobre a percepção das massas é objeto de reflexão há décadas.
O professor também destacou que a circulação de conteúdos nas plataformas digitais é favorecida quando determinados formatos produzem maior audiência. Conteúdos associados à polêmica, à violência verbal e à provocação tendem, segundo sua avaliação, a receber maior atenção, enquanto informações mais complexas enfrentam dificuldades para alcançar o mesmo público.
O problema, portanto, não seria simplesmente ocupar as redes durante uma eleição. Seria construir uma presença política cotidiana capaz de disputar a maneira como as pessoas interpretam a própria realidade.
A disputa pela juventude passa pelo futuro
Osmar de Sá Ponte também criticou a ideia de que a juventude deve ser tratada apenas como um segmento eleitoral a ser mobilizado em períodos de campanha.
Para o sociólogo, jovens que chegaram à universidade, conquistaram novas oportunidades profissionais ou foram os primeiros integrantes de suas famílias a obter um diploma não querem apenas preservar políticas sociais. Eles também desejam construir perspectivas individuais de ascensão e realização.
“Eu quero melhorar minha vida”, sintetizou, ao descrever uma percepção presente entre jovens que desejam empreender, administrar negócios, construir carreiras e ampliar suas condições materiais.
Essa mudança, segundo Osmar, exige que a esquerda formule uma agenda capaz de conversar com expectativas de futuro. A defesa de políticas sociais continua importante, mas não pode ocupar sozinha o horizonte político.
O Nordeste apareceu na discussão como exemplo dessa necessidade de atualização. Osmar defendeu que a região seja apresentada também a partir de seu potencial econômico e tecnológico, especialmente nas áreas de energia renovável, industrialização e infraestrutura digital.
O sociólogo citou o crescimento da produção de energia eólica no Ceará e a chegada de investimentos relacionados a centros de processamento de dados para argumentar que o Nordeste possui condições estratégicas para participar de uma nova etapa do desenvolvimento brasileiro.
“Nós não podemos olhar pro Nordeste como o Nordeste do Bolsa Família. O Nordeste é solução pro Brasil hoje, cada vez mais.”
A afirmação está ligada a uma crítica à forma como a região é enquadrada no debate político. Para Osmar, a agenda nordestina precisa incorporar desenvolvimento econômico, industrialização e inovação, sem abandonar as políticas de redução das desigualdades.
O problema não termina com a eleição
A discussão sobre a composição do Congresso levou os convidados a outro ponto central: a governabilidade de um eventual novo mandato do Presidente Lula.
Osmar avaliou que uma vitória presidencial, isoladamente, não resolveria as dificuldades políticas colocadas pelo atual Congresso. Segundo ele, a ampliação do poder do Legislativo, especialmente por meio das emendas parlamentares, reduziu a capacidade de controle do Executivo sobre a agenda política.
“O governo é o lado mais frágil dessa história”, afirmou.
Para o sociólogo, a esquerda precisa construir canais de diálogo antes mesmo da formação do próximo governo. Ele defendeu a aproximação com uma parcela do eleitorado que não se identifica integralmente nem com o lulismo nem com o bolsonarismo e que pode ser decisiva em uma eleição apertada.
Segundo Osmar, esse setor representa uma parcela relevante do eleitorado e pode ser influenciado por uma agenda política capaz de apresentar perspectivas concretas para o futuro.
A preocupação com o Congresso também aparece associada à relação entre os Poderes. O sociólogo criticou o que considera uma dificuldade da esquerda em formular uma posição própria sobre o funcionamento do Judiciário e do Supremo Tribunal Federal.
Para ele, ao deixar determinadas críticas exclusivamente para a direita, a esquerda acaba assumindo a defesa de um sistema sobre o qual não possui hegemonia política. O resultado seria a perda de capacidade de formular uma agenda própria de reforma institucional.
A extrema direita e a disputa pelo significado de “sistema”
Thiago Esteves chamou atenção para outro aspecto da disputa política: a forma como setores da extrema direita se apresentam como oposição ao sistema, apesar de sua longa presença nas estruturas institucionais do Estado.
O professor afirmou que nomes como Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema precisam ser identificados politicamente de forma direta como representantes da extrema direita, sem recorrer a classificações que, segundo ele, dificultam a compreensão do eleitor.
Ele também criticou a capacidade da extrema direita de deslocar o debate para temas morais e comportamentais, evitando discussões sobre políticas públicas e projetos de governo.
Para Thiago, o campo progressista precisa insistir em perguntas sobre o que cada candidatura pretende fazer quando estiver no poder.
“Eu quero saber qual é a proposta para a educação, qual é a proposta para a saúde, qual é a proposta para a habitação, qual é a proposta para saneamento, qual é a proposta para o relacionamento com os governadores, com prefeitos, com o poder judiciário, com o poder legislativo.”
A estratégia, segundo ele, deve deslocar o debate para o mundo concreto e para as consequências das propostas apresentadas pelos candidatos.
Thiago também defendeu que a campanha de Lula seja confrontada diretamente com as propostas de seus adversários, utilizando os respectivos planos de governo como base para a comparação.
Política não se resume ao racional
Osmar acrescentou uma ressalva importante à defesa de uma disputa baseada em propostas. Para ele, programas de governo detalhados não são suficientes para mobilizar um eleitorado que decide também a partir de percepções, sentimentos e expectativas.
Ele citou a candidatura presidencial de Ciro Gomes como exemplo de uma campanha que apresentou forte conteúdo econômico e programático, mas não conseguiu transformar esse conteúdo em mobilização eleitoral ampla.
“Você tem que propor um tipo de caminho que comova as pessoas”, afirmou.
Na avaliação do sociólogo, a disputa política envolve a capacidade de criar uma corrente social capaz de produzir identificação e participação. Essa mobilização pode estar relacionada à esperança, ao pertencimento ou à percepção de que determinada situação representa um risco concreto.
A esquerda, portanto, precisaria combinar capacidade de formular políticas públicas com uma linguagem capaz de dialogar com experiências cotidianas.
Esse ponto também levou Osmar a criticar a dependência excessiva de determinadas referências intelectuais. Ele mencionou Paulo Freire para argumentar que parte da esquerda continua recorrendo a autores fundamentais para sua formação, mas que não necessariamente são referências conhecidas pelas novas gerações.
“Somos o que percebemos do mundo”, afirmou.
Para ele, compreender o presente exige reconhecer que as teorias também precisam ser constantemente submetidas à realidade. O risco de transformar autores e conceitos em referências intocáveis seria perder a capacidade de compreender mudanças que não cabem nas interpretações anteriores.
O desafio eleitoral e a disputa por uma agenda de futuro
Ao final do debate, os convidados convergiram na avaliação de que a eleição presidencial não pode ser analisada separadamente da composição do Congresso e da disputa cultural que ocorre fora das instituições.
Osmar defendeu que a esquerda precisa formular um projeto de futuro e estabelecer diálogo com os setores do eleitorado que permanecem indecisos ou desmobilizados. Para ele, a questão central é criar uma capacidade política que ultrapasse a campanha eleitoral e consiga produzir identificação social.
“A política não se resume a eleições. A política resume-se a dar respostas.”
A frase sintetiza uma das principais questões apresentadas durante o programa. Uma eventual vitória de Lula em 2026 não encerraria a disputa política. O novo governo precisaria lidar com um Congresso fortalecido, com uma oposição organizada e com uma sociedade em transformação, na qual parte significativa da formação política ocorre fora dos espaços tradicionais de militância.
A entrevista também deixou uma questão para o período posterior às urnas: de que maneira o campo progressista poderá transformar uma vitória presidencial em capacidade efetiva de governo diante de um Legislativo majoritariamente conservador e de uma disputa política que se desenvolve diariamente nas plataformas digitais?
Para os convidados, a resposta passa por compreender as mudanças sociais em curso e construir uma agenda que não fale apenas sobre o que foi conquistado, mas sobre o que ainda pode ser construído. O desafio colocado para 2027, nesse sentido, começa antes da posse do próximo governo.
Referências
Dialética do esclarecimento, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, 1947
Pedagogia do oprimido, Paulo Freire, 1968
Fora da ordem, Caetano Veloso, 1991
O capital, Karl Marx, 1867
Introdução à crítica da economia política, Karl Marx, 1859
Introdução ao pensamento complexo, Edgar Morin, 1990
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