Em entrevista ao Café com Democracia, docente da UECE destaca continuidade de políticas educacionais desde Cid Gomes, expansão do ensino profissionalizante e valorização dos professores nos governos Camilo e Elmano
A educação tem jeito e os resultados alcançados pelo Ceará nas últimas décadas estão relacionados à continuidade de políticas públicas, à cooperação entre os governos estadual, municipais e federal e à ampliação do acesso ao ensino. Essa é a avaliação do professor Nelson Arruda, mestre em Políticas Públicas e Sociedade e docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE), durante entrevista concedida ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas. A conversa, exibida em 16 de setembro, abordou os avanços educacionais nos governos Cid Gomes, Camilo Santana, Izolda Cela e Elmano de Freitas.
Ao longo da entrevista, Nelson destacou que a experiência desenvolvida em Sobral, posteriormente ampliada para o conjunto do Ceará, tornou-se referência para políticas de alfabetização e educação profissional. Para o professor, a trajetória educacional do estado deve ser compreendida a partir da continuidade de ações iniciadas em diferentes administrações, sem desconsiderar os desafios que permanecem, como o analfabetismo entre adultos e a necessidade de valorização dos profissionais da educação.
A experiência de Sobral e o início de uma política estadual
Ao responder sobre o governo Cid Gomes, iniciado em 2007, Nelson Arruda apontou a experiência de Sobral como uma das bases das políticas educacionais que posteriormente ganharam dimensão estadual. Segundo o professor, Cid levou para o governo do Ceará iniciativas desenvolvidas durante sua gestão municipal, entre elas o programa de alfabetização na idade certa.
O entrevistado também mencionou a participação de Izolda Cela, que havia atuado na Secretaria de Educação de Sobral, na formulação e implementação dessas políticas. Na avaliação de Nelson, a cooperação entre gestores e a transformação de experiências municipais em programas estaduais foram fundamentais para a expansão das ações educacionais.
“É importante destacar a continuidade, a cooperação e a parceria desses últimos governadores que nós tivemos, Cid Gomes, Camilo e Elmano”, afirmou o professor.
Entre as iniciativas associadas ao período, Nelson destacou a criação da rede estadual de escolas de educação profissional, implementada em parceria com o governo federal durante a gestão do Presidente Lula. A proposta levou cursos técnicos profissionalizantes para estudantes da rede pública e, segundo o entrevistado, foi posteriormente ampliada no governo Camilo Santana.
O professor também citou o Programa de Alfabetização na Idade Certa, conhecido na entrevista pela sigla PAIC, como uma experiência que ultrapassou os limites do Ceará. O programa, iniciado em Sobral e desenvolvido em âmbito estadual, passou a ser referência para políticas nacionais de alfabetização.
Para Nelson, o principal mérito dessa política está na tentativa de enfrentar o analfabetismo desde os primeiros anos de escolarização, evitando que crianças cheguem à adolescência e à vida adulta sem domínio da leitura e da escrita.
Camilo Santana e a expansão do ensino profissionalizante
Na avaliação de Nelson Arruda, o governo Camilo Santana deu continuidade às políticas iniciadas na gestão Cid Gomes e ampliou seu alcance. O professor destacou a atuação de Izolda Cela, que foi vice-governadora e secretária da Educação durante o período, na consolidação do programa de alfabetização.
Segundo o entrevistado, o PAIC foi ampliado para atender também os anos finais do ensino fundamental, alcançando os 184 municípios cearenses por meio da cooperação entre o governo estadual e as administrações municipais.
“O Cid tinha lançado o PAIC para as primeiras séries do ensino fundamental e o governo Camilo, através da Izolda, sua vice-governadora e secretária de Educação, consolida o Mais PAIC, levando até o 9º ano do ensino fundamental”, explicou.
O objetivo, segundo Nelson, era garantir que as crianças fossem alfabetizadas na idade adequada e não acumulassem defasagens ao longo da trajetória escolar. O professor relacionou essa política aos resultados obtidos pelo Ceará em avaliações nacionais da educação básica, mencionando os destaques do estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
Outro ponto abordado foi a expansão das escolas estaduais de educação profissional. Essas unidades oferecem formação técnica integrada ao ensino médio e, em muitos casos, funcionam em tempo integral, permitindo que os estudantes permaneçam na escola durante todo o dia.
Nelson associou esse modelo à concepção de educação em tempo integral defendida por Darcy Ribeiro e implementada em experiências educacionais no Rio de Janeiro. Para o professor, a ampliação dessas escolas representou uma oportunidade de acesso à formação profissional para estudantes da rede pública.
A inclusão digital também foi citada como uma das ações desenvolvidas durante o governo Camilo. O entrevistado mencionou a presença de computadores, tablets e laboratórios nas escolas estaduais, além de medidas de apoio à permanência dos estudantes.
Na entrevista, Nelson relacionou essa preocupação com a evasão escolar à criação do programa Pé-de-Meia, implementado posteriormente por Camilo Santana durante sua passagem pelo Ministério da Educação. O programa federal oferece incentivo financeiro a estudantes do ensino médio público, com o objetivo de estimular a permanência e a conclusão dessa etapa escolar.
Concursos públicos e valorização dos professores
A política de valorização dos profissionais da educação foi outro tema central da conversa. Nelson destacou o concurso público realizado em 2018 para professores da rede estadual durante o governo Camilo Santana. Segundo ele, os aprovados foram convocados ao longo dos anos, inclusive por meio do cadastro de reserva.
Para o professor, a contratação de profissionais por concurso público é parte fundamental de uma política de valorização do magistério, ao lado da estruturação de planos de cargos, carreiras e salários.
“A política de valorização, ela inicia com concurso público, ela inicia com a contratação de professores para as redes estaduais de educação”, afirmou.
Ao tratar do governo Elmano de Freitas, Nelson mencionou a carreira dos professores da rede estadual e os mecanismos de progressão salarial vinculados à formação acadêmica. Segundo o entrevistado, um professor pode alcançar remuneração de até R$ 22 mil ao final da carreira, conforme a estrutura de cargos e a titulação.
O professor também destacou a destinação de um terço da carga horária para atividades extraclasse, como planejamento, preparação de avaliações, correção de trabalhos e estudos. Na sua avaliação, essa medida representa uma conquista dos profissionais da educação.
Nelson defendeu ainda a participação dos professores em seus sindicatos como forma de reivindicar melhores condições de trabalho, concursos públicos e fortalecimento dos planos de carreira.
A interiorização do ensino superior no Ceará
A expansão das universidades estaduais foi apresentada pelo professor como outra transformação importante no período analisado. Nelson citou a Universidade Estadual do Ceará (UECE), a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e a Universidade Regional do Cariri (URCA) como instituições que ampliaram sua presença no interior do estado.
Segundo o entrevistado, a interiorização permitiu que estudantes de municípios distantes de Fortaleza tivessem acesso ao ensino superior sem precisar se deslocar para a capital. A expansão incluiu a criação e o fortalecimento de campi e cursos em cidades como Aracati, Quixeramobim, Canindé, Camocim e São Benedito, além de municípios da região do Cariri.
“Essa expansão das universidades estaduais é de fundamental importância para o estado do Ceará, porque ela atende principalmente aqueles estudantes mais carentes, que não podem vir para estudar em Fortaleza”, afirmou.
Nelson também ressaltou a importância da autonomia universitária e dos processos eleitorais internos para a escolha de reitores. Segundo ele, os governos Cid Gomes, Camilo Santana e Elmano de Freitas respeitaram, em diferentes momentos, a escolha das comunidades acadêmicas nas universidades estaduais.
O professor fez uma comparação com o governo Ciro Gomes e com a gestão federal de Jair Bolsonaro, citando episódios em que, segundo sua avaliação, os candidatos mais votados pelas comunidades universitárias não foram escolhidos para a reitoria.
A autonomia das universidades, segundo Nelson, deve ser compreendida como parte da democracia institucional e do respeito à participação de professores, servidores e estudantes.
Izolda Cela e a continuidade das políticas educacionais
Durante a entrevista, Nelson Arruda também defendeu o papel de Izolda Cela na construção das políticas educacionais do Ceará. O professor lembrou sua atuação como secretária de Educação de Sobral e, posteriormente, como secretária estadual durante o governo Camilo Santana.
Para Nelson, a experiência acumulada por Izolda na área educacional contribuiu para a consolidação das políticas de alfabetização e para a continuidade das ações implementadas em Sobral.
“A Izolda, com toda a experiência que ela já tinha em educação, passou praticamente o governo todo do Camilo como secretária de Educação”, disse.
O entrevistado também destacou a importância da continuidade administrativa para o desenvolvimento de políticas públicas. Em sua avaliação, os avanços na educação cearense não podem ser atribuídos exclusivamente a um único governo, mas devem ser analisados a partir de ações iniciadas, ampliadas e fortalecidas ao longo do tempo.
“Qual o sucesso desses três governos na área da educação? Principalmente a continuidade dessas políticas”, afirmou.
Nelson ressaltou ainda a importância da cooperação entre os 184 municípios do Ceará e o governo federal, especialmente durante as administrações do Presidente Lula.
Elmano de Freitas e a ampliação das escolas de tempo integral
Ao abordar o governo Elmano de Freitas, o professor destacou a continuidade das políticas de educação profissional e a expansão das escolas de tempo integral. Segundo ele, a ampliação desse modelo está relacionada à cooperação entre o governo estadual e o governo federal.
Nelson também citou investimentos em laboratórios, computadores e tablets nas escolas públicas, além da implementação do programa Pé-de-Meia no Ceará, como parte das ações voltadas à permanência dos estudantes no ensino médio.
Durante a entrevista, o professor mencionou ainda a abertura de edital para concurso público da rede estadual de ensino, com previsão de 2 mil vagas e mil vagas para cadastro de reserva. A informação foi apresentada como exemplo da continuidade das ações de contratação e valorização de professores.
Outro destaque foi a participação da UECE em programas de formação técnica e profissionalizante vinculados ao Pronatec, em parceria com a Secretaria da Educação do Estado do Ceará e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Segundo Nelson, cursos de agropecuária e administração foram oferecidos em assentamentos da reforma agrária nos municípios de Monsenhor Tabosa, Canindé, Ocara e Madalena. Para o professor, a oferta de formação profissional no campo amplia o acesso à educação e considera as necessidades dos estudantes que vivem na zona rural.
“A educação não deve ser só nas cidades”, afirmou.
Analfabetismo e o desafio da alfabetização na idade certa
A questão do analfabetismo adulto foi discutida a partir de uma pergunta enviada por um espectador do programa. Nelson reconheceu a dificuldade de combater o analfabetismo entre adultos e defendeu que as políticas públicas priorizem a alfabetização das crianças nos primeiros anos de escolarização.
Segundo o professor, a estratégia mais eficaz para reduzir o analfabetismo no futuro é garantir que as crianças aprendam a ler e escrever na idade adequada.
“A política mais eficaz é você evitar que essas crianças se tornem analfabetas”, declarou.
Nelson explicou que a alfabetização na idade certa busca enfrentar o problema desde a origem, garantindo que os estudantes não avancem pelas etapas escolares sem adquirir as habilidades necessárias.
O professor também mencionou o conceito de analfabetismo funcional, utilizado para descrever situações em que a pessoa consegue ler e escrever, mas apresenta dificuldades para compreender textos e interpretar informações do cotidiano.
Na entrevista, Nelson associou essa discussão à necessidade de ampliar a formação crítica dos estudantes e à compreensão das relações sociais. A afirmação foi apresentada pelo professor como parte de sua análise sobre os desafios educacionais e políticos do país.
Educação, democracia e participação social
Ao longo da conversa, Nelson Arruda defendeu que a educação deve ser compreendida como uma política pública de longo prazo, cuja consolidação depende da continuidade das ações e da cooperação entre diferentes níveis de governo.
O professor também destacou a importância de programas de comunicação popular como o Café com Democracia para promover o debate sobre políticas públicas e aproximar a população das discussões sobre educação.
Na sua avaliação, o acesso à informação e à formação educacional contribui para que a sociedade acompanhe as ações dos governos e participe das decisões que afetam a vida coletiva.
“A educação tem jeito, e que esses avanços estão acontecendo, passando pelo governo do Cid, fortalecendo no governo do Camilo e dando continuidade num governo do Elmano”, afirmou Nelson ao encerrar sua participação.
A entrevista tratou, portanto, da trajetória das políticas educacionais do Ceará a partir da experiência de Sobral, da expansão do ensino profissionalizante, da interiorização das universidades estaduais e das iniciativas voltadas à valorização dos professores e à permanência dos estudantes na escola. Ao mesmo tempo, o professor reconheceu que o analfabetismo adulto e a necessidade de fortalecer a educação pública continuam entre os desafios do estado.
Referências
Darcy Ribeiro
Antropólogo, educador e político brasileiro, citado pelo professor Nelson Arruda durante a entrevista em relação à educação em tempo integral e ao combate ao analfabetismo.
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