Participantes do Trilhas da Soberania discutem inteligência artificial, poder econômico, risco nuclear e os desafios da comunicação política nas eleições de 2026
Da Redação
O avanço da inteligência artificial exige que o campo progressista ultrapasse a rejeição automática às novas tecnologias e passe a disputar o controle de sua infraestrutura, de seus recursos e de suas finalidades. A avaliação foi apresentada pelo pesquisador Reynaldo Aragon durante uma conversa sobre soberania nacional, concentração tecnológica e comunicação política.
O debate foi exibido originalmente no programa Trilhas da Soberania, uma parceria entre TV Travessia, TV Código Aberto, Rádio e TV Atitude Popular, Satélite de Ideias, Rede Lawfare Nunca Mais e canal do Jorge Folena. Participaram Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais; Reynaldo Aragon, pesquisador da Universidade Federal Fluminense, vinculado ao NEECC e ao INCT/DSI, além de editor do site Código Aberto; o jornalista e advogado Luís Delcides, do Satélite de Ideias; e o jornalista Ricardo Silveira, da TV Travessia.
A transmissão estava prevista para receber Felipe Martins, mas o convidado não pôde participar. O grupo manteve o programa e promoveu uma conversa aberta sobre perseguição judicial, liberdade de expressão, eleições, armamento nuclear, inteligência artificial e a necessidade de uma política brasileira de soberania informacional.
Denúncias e violência psicológica
Na abertura, Ludmila Cindra comentou a ausência de Felipe Martins e relacionou as dificuldades enfrentadas pelo convidado às pressões sofridas por pessoas que denunciam abusos cometidos por agentes públicos.
Segundo ela, ataques coordenados, processos judiciais e campanhas de desmoralização podem produzir consequências que ultrapassam a disputa jurídica. A violência psicológica pode afetar a rotina, o trabalho e a capacidade de cumprir compromissos.
“Quando você está sendo massacrado por muitas pessoas, acaba ficando numa situação de não conseguir atender o telefone, de esquecer compromissos. Isso faz parte de uma grande violência psicológica”, afirmou.
Ludmila sustentou que Martins passou a ser alvo de uma ação na Justiça Eleitoral após se manifestar sobre um agente público. Na avaliação da integrante da Rede Lawfare Nunca Mais, o caso representa uma limitação indevida à liberdade de expressão, pois o conteúdo divulgado estaria fundamentado em informações verificáveis.
“O que aconteceu no caso dele foi uma atrocidade. Ele foi expor a verdade e acabou sendo calado”, declarou.
Ela chamou atenção para os efeitos coletivos dessas situações. Quando uma pessoa é punida por apresentar uma denúncia, outras podem deixar de se manifestar por receio de enfrentar processos, despesas jurídicas ou ataques pessoais.
“Quanto mais a gente se junta para dizer o quanto é absurdo calar quem denuncia, mais conseguiremos fazer pressão para mudar”, disse.
Lawfare e responsabilidade jornalística
Luís Delcides também avaliou que processos judiciais podem ser utilizados para desgastar pessoas envolvidas em denúncias de interesse público. O jornalista e advogado criticou a cobertura realizada por veículos que, segundo ele, tratam o denunciado como culpado antes de examinar as circunstâncias do caso.
“A nossa responsabilidade é com a notícia correta, com a notícia apresentada com firmeza”, afirmou.
Delcides classificou como lawfare o uso estratégico de procedimentos legais para intimidar ou deslegitimar adversários. O conceito costuma ser aplicado a situações nas quais instituições e instrumentos jurídicos são mobilizados como parte de uma disputa política.
Ao citar o filósofo francês Gilles Deleuze, o jornalista falou sobre a necessidade de interpretar o acontecimento para além do impacto imediato. Para ele, a comunicação não deve transformar qualquer episódio em produto para obter curtidas ou visualizações.
“O acontecimento tem que ser consistente, tem que ser genuíno. Não dá para fazer as coisas por clickbait, para caçar likes”, declarou.
O problema, observou, também aparece no conteúdo jurídico difundido nas redes sociais. Promessas de aposentadoria fácil e soluções apresentadas sem análise documental podem criar expectativas falsas entre trabalhadores.
“Tem que haver prova, laudo e um motivo para a pessoa estar batalhando pela aposentadoria. Mais uma vez, aparece a lógica do clickbait”, disse.
Proposta de bomba nuclear provoca debate
A discussão avançou para as declarações atribuídas ao candidato Renan Santos sobre a possibilidade de o Brasil desenvolver uma bomba atômica como instrumento de afirmação internacional.
Para Ludmila, a proposta precisa ser confrontada com a realidade militar e diplomática brasileira. Ela questionou quais seriam as consequências de anunciar um programa nuclear bélico em um momento de conflitos internacionais e de crescente pressão dos Estados Unidos sobre países considerados adversários.
Aragon afirmou que a apresentação da bomba como demonstração de coragem simplifica um debate que envolve soberania, capacidade industrial, diplomacia e planejamento de Estado.
Segundo o pesquisador, uma pergunta elementar ficou fora da sabatina: o que exatamente seria protegido pelo armamento defendido por um candidato vinculado a um movimento que propõe a redução acentuada do Estado?
“Vocês odeiam o Estado, qualquer tipo de regulação e qualquer gasto público que não vá para interesses privados. Essa bomba atômica é para defender o quê?”, questionou.
Para Aragon, a declaração busca alcançar eleitores jovens atraídos por discursos que associam força militar, masculinidade e enfrentamento às instituições. A gravidade da pauta acaba substituída por uma provocação destinada a circular nas redes.
“Falar em bomba atômica é um assunto diferente, produz tensão e pode ser apresentado como um discurso de força. Mas a discussão séria precisa ser outra”, afirmou.
O pesquisador declarou ser contrário ao armamento nuclear, embora reconheça a necessidade de discutir mecanismos de defesa em um cenário internacional marcado por guerras e ameaças entre potências.
“Eu não sou a favor de uma arma nuclear. Também não sou a favor de que o Brasil fique desprotegido em um mundo conflagrado”, disse.
Aragon diferenciou o uso militar da tecnologia nuclear de suas aplicações energéticas. Segundo ele, a energia nuclear pode ter papel relevante em uma política de desenvolvimento, desde que submetida a critérios de segurança e controle público.
A ameaça de normalização das armas nucleares
Na análise de Aragon, o maior risco internacional é que a utilização de um artefato nuclear transforme esse tipo de armamento em parte ordinária dos conflitos militares.
Desde 1945, as armas nucleares funcionam principalmente como instrumentos de dissuasão. A possibilidade de destruição mútua limita o confronto direto entre países que controlam esses arsenais. Caso uma potência utilize novamente uma bomba, sustentou o pesquisador, a barreira política construída ao longo das últimas décadas poderá ser rompida.
“Depois que essa caixa de Pandora for aberta, a arma nuclear pode deixar de ser apenas uma ferramenta de dissuasão e passar a integrar normalmente o arsenal usado nos conflitos”, alertou.
Aragon relacionou o risco à guerra envolvendo Rússia e Ucrânia e às tensões entre Estados Unidos e Irã. As avaliações foram apresentadas pelo pesquisador como leitura geopolítica, não como anúncio confirmado de decisões militares.
Para ele, guerras prolongadas, ataques contra infraestrutura crítica e o desgaste político das potências podem aumentar a pressão por respostas de maior intensidade.
O Brasil, acrescentou, não deve tratar o tema como uma disputa de frases de campanha. Uma política de defesa precisa avaliar interesses nacionais, compromissos internacionais e consequências diplomáticas.
Renan Santos e o desprezo pelas instituições
Luís Delcides criticou ainda declarações de Renan Santos sobre o descumprimento de ordens judiciais consideradas ilegais pelo próprio destinatário. Para o advogado, esse tipo de discurso despreza o devido processo legal e incentiva interpretações individuais sobre decisões que precisam ser questionadas pelos meios jurídicos adequados.
“É um perfil ditatorial. Uma decisão pode ser contestada, mas existe um sistema para isso”, afirmou.
Delcides lembrou que um processo envolve etapas destinadas a assegurar o contraditório e a ampla defesa. Petição inicial, contestação, produção de provas, manifestação das partes e recursos não constituem obstáculos arbitrários, mas garantias contra decisões tomadas sem oportunidade de resposta.
“Para essas figuras, parece que não existem contraditório e ampla defesa. Isso faz parte do jogo democrático, mas eles desconsideram essas garantias”, disse.
O jornalista e advogado também mencionou o influenciador Pablo Marçal como exemplo de liderança que estimula a desconfiança contra o sistema de Justiça. Na avaliação dele, esse discurso prejudica a atuação dos profissionais do Direito e confunde cidadãos que desconhecem as competências de cada instituição.
Delcides afirmou que a formação política insuficiente alcança inclusive pessoas com graduação jurídica. O diploma não assegura, por si só, a compreensão dos direitos fundamentais ou da divisão de competências estabelecida pela Constituição.
“A questão se chama democracia. É preciso escolher entre a democracia e o reacionarismo”, declarou.
Algoritmos moldam percepções e decisões
Ao tratar da circulação dessas ideias nas plataformas digitais, Aragon apresentou o conceito de uma alienação produzida em diferentes níveis.
A primeira dimensão envolve a perda de controle do trabalhador sobre aquilo que produz, formulação associada à crítica de Karl Marx. A segunda aparece quando as pessoas deixam de controlar o ambiente no qual suas opiniões e percepções são formadas.
Plataformas digitais selecionam conteúdos de acordo com o perfil de cada usuário. Ao priorizar determinadas informações, os sistemas criam ambientes personalizados que reforçam opiniões anteriores e reduzem o contato com interpretações divergentes.
“A atmosfera na qual você vive também foi expropriada, porque já é entregue pronta. Ela vai se encaixando na sua personalidade, enquanto a sua percepção da realidade passa a ser modulada por esse ambiente”, explicou Aragon.
Uma terceira dimensão surge quando decisões e processos intelectuais são delegados às máquinas. O problema, segundo o pesquisador, não está em usar inteligência artificial como apoio, mas em perder a capacidade de compreender e reproduzir o processo realizado por ela.
“Uma coisa é pedir à máquina que ajude em uma pesquisa. Isso pode ser útil para pesquisadores, jornalistas e cientistas. Outra coisa é pedir que ela faça tudo por você”, afirmou.
A inteligência artificial reduz atritos e oferece respostas imediatas, mas pode intensificar o viés de confirmação. O usuário recebe uma interpretação ajustada às suas preferências e deixa de questionar os critérios usados pelo sistema.
“Pensar gasta energia. A máquina entrega um mundo como você quer vê-lo, com respostas que confirmam aquilo que já foi determinado”, disse.
Crítica não pode transformar tecnologia em sujeito
Aragon rejeitou a ideia de que essa análise represente uma postura contrária à tecnologia. Em texto publicado com o título “A esquerda, a máquina e o capital”, ele argumenta que a crítica aos sistemas digitais precisa identificar os grupos responsáveis por seu controle.
“A crítica à tecnologia é justa, necessária e urgente. Precisamos de regulação e de ordenamento jurídico. Mas a esquerda passou a colocar a tecnologia como sujeito e não como meio”, afirmou.
O pesquisador citou grandes plataformas, corporações transnacionais e investidores como agentes que determinam as finalidades dos sistemas. Quando o debate culpa apenas a máquina, as decisões econômicas e políticas permanecem protegidas da crítica.
“Quem são os sujeitos por trás da tecnologia? São as grandes plataformas, as grandes corporações e o capital transnacional. Colocamos a técnica como sujeito e esquecemos os verdadeiros sujeitos”, declarou.
Para Aragon, a inteligência artificial não desaparecerá porque setores progressistas rejeitam seus efeitos. Há investimentos, infraestrutura e interesses empresariais suficientes para garantir sua continuidade. A tarefa política consiste em disputar quem controla os sistemas e como os ganhos de produtividade serão distribuídos.
Em uma fábrica com 200 trabalhadores, exemplificou, a automação poderia reduzir a jornada sem diminuir salários. Sob a lógica de maximização do lucro, entretanto, a tendência é substituir parte da equipe e concentrar os ganhos nos proprietários.
“A mesma inteligência artificial que pode tirar 100 empregos poderia permitir que 200 pessoas trabalhassem meio período e recebessem o mesmo valor”, afirmou.
Nesse modelo, o tempo liberado pela automação poderia ser utilizado em atividades familiares, educacionais, culturais ou comunitárias. O obstáculo não está na capacidade técnica, mas na propriedade e na distribuição dos resultados.
“A crítica à tecnologia é necessária, mas a esquerda precisa entender que a luta de classes passa pela apropriação da técnica. A tecnologia pode ser uma ferramenta de emancipação”, argumentou.
Estouro da bolha pode concentrar ainda mais poder
Aragon também contestou a expectativa de que o eventual estouro da bolha financeira da inteligência artificial resolveria os problemas do setor.
Crises econômicas não eliminam necessariamente as tecnologias que receberam investimentos excessivos. Empresas menores quebram, ativos perdem valor e a infraestrutura construída pode ser adquirida por companhias que possuem maior capacidade financeira.
O pesquisador mencionou a expansão das ferrovias nos Estados Unidos no século XIX e a bolha das empresas de internet no início dos anos 2000. Depois da quebra de diversas companhias, redes de fibra óptica, centros de dados e sistemas digitais foram incorporados por grupos mais capitalizados.
“Quando uma bolha estoura, a tendência é que ela concentre mais poder e capital em um grupo menor de pessoas”, afirmou.
Em uma eventual crise da inteligência artificial, os equipamentos, centros de processamento e bancos de dados poderão permanecer sob o domínio de poucas corporações.
“Vai ficar nas mãos de quem detém capital e capacidade financeira para se apropriar da infraestrutura construída com dinheiro especulativo”, acrescentou.
Soberania digital não existe sem infraestrutura
A discussão chegou à proposta de criação de uma bancada parlamentar dedicada à soberania digital. Ricardo Silveira mencionou o lançamento de um decálogo sobre o tema e defendeu uma articulação de candidatos comprometidos com seus princípios.
Aragon concordou com a necessidade de representação política, mas sugeriu o uso do conceito de soberania informacional. Para ele, a expressão abrange dimensões que não cabem apenas no termo “digital”.
“Quando se fala em soberania hoje, estamos falando de soberania territorial, cultural, industrial, econômica, de dados, de nuvem, de satélite e de fronteiras”, explicou.
A informação tornou-se um ativo responsável por organizar cadeias produtivas, transações financeiras, sistemas logísticos e operações militares. Soja, petróleo, água e outros recursos físicos dependem de dados, comunicação e processamento.
Por isso, uma plataforma brasileira não seria plenamente soberana se utilizasse cabos, satélites, centros de dados e serviços de nuvem controlados por empresas estrangeiras.
“Não adianta construir uma rede social própria e imaginar que ela é soberana. A conexão chega por cabos que não pertencem a nós e passa por centros de dados controlados, em grande parte, pelo Norte Global”, afirmou.
Aragon incluiu na agenda de soberania a produção de componentes eletrônicos, softwares, equipamentos de comunicação, satélites e semicondutores. Reconheceu que a construção de uma indústria nacional de litografia, necessária à fabricação de chips, exigiria décadas de investimento.
“Se não começar agora, vai demorar ainda mais”, disse.
O pesquisador citou Renato Freitas, Luizianne Lins e Orlando Silva entre os nomes que, na avaliação dele, demonstram interesse pelo debate tecnológico. A eventual formação de uma bancada dependeria, entretanto, de compromissos programáticos capazes de atravessar diferentes áreas da soberania nacional.
Debates eleitorais perdem espaço para afetos negativos
Na parte final do programa, os participantes avaliaram o formato das sabatinas e dos debates eleitorais de 2026. Ausências de candidatos, regras pouco flexíveis e intervenções insuficientes dos mediadores foram apontadas como sinais de desgaste.
Ludmila lamentou o esvaziamento dos debates, embora tenha reconhecido que alguns candidatos evitam os encontros por receio de provocações e armadilhas.
“A falta de adesão pode fazer com que as entrevistas sejam mais efetivas, mas eu lamento muito. Gosto de ver todos os candidatos juntos”, afirmou.
Luís Delcides comparou o modelo atual às transmissões realizadas após o fim da ditadura militar. Naquele período, o encontro entre candidatos representava uma novidade associada à reabertura democrática. Hoje, segundo ele, a troca de propostas foi substituída por ataques destinados a mobilizar emoções.
“O debate político deu lugar aos afetos negativos”, declarou.
Inspirado no pensamento de Baruch Spinoza, Delcides afirmou que parte dos eleitores escolhe candidatos principalmente para derrotar um adversário. O projeto político deixa de ocupar o centro da decisão.
Ele também criticou mediadores que permanecem em silêncio diante de ataques machistas ou afirmações contrárias às regras democráticas.
“A mediação se perdeu. O mesmo modelo continua sendo usado, mas já não existe uma verdadeira troca de ideias”, concluiu.
Disputa pela técnica exige projeto nacional
A conversa no Trilhas da Soberania reuniu temas diferentes, mas ligados pelo problema do poder. Processos judiciais podem ser utilizados para constranger denunciantes. Plataformas digitais selecionam as informações acessíveis aos usuários. Sistemas de inteligência artificial transferem decisões humanas para modelos controlados por empresas. Infraestruturas estrangeiras condicionam a autonomia de países periféricos.
Para Aragon, a resposta não está na recusa das tecnologias, mas na construção de capacidade pública para controlá-las, fiscalizá-las e direcioná-las ao interesse coletivo.
“A esquerda precisa disputar a técnica”, resumiu.
Referências
Lógica do sentido, Gilles Deleuze, 1969
Ética, Baruch Spinoza, 1677
Manuscritos econômico-filosóficos, Karl Marx, 1844
A esquerda, a máquina e o capital, Reynaldo Aragon, 2026
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