Atitude Popular

“A esquerda tem que ter uma estratégia de ganhar no primeiro turno”

Em entrevista ao programa Democracia no Ar, Osmar de Sá Ponte analisa a Janela Partidária, o peso do Ceará no projeto nacional de Lula e os riscos de uma eleição marcada pela insegurança, pela polarização e pela pressão da extrema direita

A Janela Partidária, mecanismo previsto na legislação eleitoral que permite a parlamentares trocarem de legenda sem perder o mandato, foi o eixo do debate desta quarta-feira no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. Na entrevista, Sara Goes conversou com o professor e analista político Osmar de Sá Ponte sobre os rearranjos que já movimentam os bastidores da política brasileira e devem influenciar diretamente a disputa de 2026.

Segundo ele, o período iniciado em 5 de março e que se estende até 3 de abril funciona como uma espécie de laboratório do sistema político. É quando se explicitam insatisfações, se medem forças internas e se reposicionam lideranças que visam as eleições do próximo ano. Para Osmar, trata-se de um mês “de muita articulação política”, no qual os partidos operam para acomodar candidaturas e evitar rupturas que possam comprometer alianças mais amplas.

Ao comentar o caso cearense, o professor avaliou que a base do governador Elmano de Freitas entra nesse processo em posição privilegiada justamente por reunir muitos nomes com potencial eleitoral. Para ele, o fato de haver diversos postulantes competitivos para as vagas majoritárias não é sinal de crise, mas de vitalidade política. “O grave era se não tivesse ninguém querendo ser”, afirmou, acrescentando que o desafio está menos na escassez de quadros e mais na capacidade de construir um arranjo que preserve a unidade do campo governista.

Nesse ponto, Osmar defendeu a condução política de Elmano e destacou também o peso do ministro da Educação, Camilo Santana, como principal liderança cearense no cenário nacional. Em sua avaliação, o Ceará passou a ocupar um lugar estratégico no desenho eleitoral de 2026 não apenas por seu peso regional no Nordeste, mas porque Camilo deixou de ser apenas um ator local e se tornou uma figura de alcance nacional, o que desloca as decisões do estado para um patamar mais amplo de negociação.

A entrevista também explorou a centralidade do Ceará no projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Osmar sustentou que, diferentemente de outros momentos, a próxima eleição tende a ser ainda mais nacionalizada, com interferência direta das articulações em Brasília sobre a formação das chapas nos estados. Nesse contexto, o Ceará aparece como território-chave para o lulismo no Nordeste, região que segue como bastião eleitoral do campo progressista, mas que, segundo os debatedores, também vem sendo alvo prioritário da extrema direita.Ao abordar o papel de Camilo Santana no Ministério da Educação, Osmar fez uma defesa enfática da gestão do ministro e rebateu críticas formuladas por setores do Sudeste. Para ele, parte dessas resistências expressa um “colonialismo interno”, incapaz de reconhecer a experiência acumulada pelo Ceará em políticas educacionais. Segundo o professor, o protagonismo cearense incomoda justamente por romper hierarquias históricas que concentravam o prestígio técnico e político em estados como São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

Na leitura do entrevistado, a ascensão do Ceará como referência em educação pública e a presença de Camilo à frente de um dos ministérios mais robustos do governo federal não podem ser dissociadas de uma trajetória coletiva, construída ao longo de sucessivos governos e ancorada em pactos entre gestores, professores, famílias e municípios. Essa experiência, afirmou, conferiu ao estado uma autoridade política rara. “O Ceará devia se orgulhar de ter um grande líder como Camilo”, disse.

O debate avançou então para os efeitos mais amplos da Janela Partidária na formação das chapas de 2026. Osmar observou que a multiplicidade de nomes na base governista exigirá frieza política, especialmente na definição das candidaturas ao Senado. Segundo ele, o critério não pode ser vaidade pessoal, mas viabilidade eleitoral e compromisso com o projeto coletivo. “O senador tem que ser aquele que terá mais voto e ter a certeza que vai ganhar”, resumiu, defendendo desprendimento num momento que considera decisivo para o país.

Ao falar da oposição, o professor mencionou o ex-ministro Ciro Gomes e criticou sua aproximação com setores da direita e da extrema direita no Ceará. Sem negar a legitimidade de sua eventual candidatura, Osmar lamentou o que chamou de abandono de um legado político anterior. Para ele, o problema não está na existência de candidaturas adversárias, mas na deterioração do debate público, hoje marcado por calúnia, ataques pessoais e tentativas de constrangimento moral. “A boa democracia é aquela em que a gente expõe o nosso projeto”, afirmou.

Essa percepção apareceu com força também quando a conversa migrou para a disputa presidencial. Osmar avaliou que a eleição de 2026 será definida sobretudo fora do Nordeste, especialmente em São Paulo, estado que, em sua leitura, continuará sendo o grande fiel da balança do pleito. Embora reconheça a importância decisiva da região nordestina para Lula, o professor argumentou que o desempenho em território paulista será determinante para o resultado final, sobretudo em eventual segundo turno.

Ele também demonstrou preocupação com pesquisas que já apontam competitividade de nomes ligados ao bolsonarismo, como Flávio Bolsonaro. Para Osmar, o problema não pode ser enfrentado com passividade. Ao contrário, ele defendeu que o campo progressista precisa sair da defensiva, responder politicamente aos escândalos que surgem no noticiário e disputar de forma ativa o centro do eleitorado. “Nós temos que ganhar no primeiro turno”, disse. E reforçou: “A esquerda tem que ter uma estratégia de ganhar no primeiro turno”.

Na entrevista, o professor sustentou que a conjuntura brasileira exige mais do que cálculos eleitorais convencionais. Em sua visão, uma eventual vitória de Lula em 2026 já não pode ser compreendida apenas como continuidade de governo, mas como uma necessidade de proteção institucional e nacional diante das ameaças que cercam o país. “Hoje a vitória do Lula virou uma questão patriótica”, declarou, ao comentar a pressão internacional, o avanço da extrema direita e o risco de interferências externas em um processo político já bastante tensionado.

Outro eixo importante do debate foi a segurança pública. A partir da realidade vivida em Fortaleza e em outras cidades brasileiras, Sara e Osmar trataram do medo cotidiano da população diante da expansão das facções criminosas e da dificuldade da esquerda em apresentar respostas convincentes para esse problema. O entrevistado reconheceu a gravidade do tema e alertou para o risco de a extrema direita capturar esse sentimento social por meio de soluções fáceis, violentas e autoritárias.

Segundo ele, esse é precisamente o terreno em que o populismo de extrema direita cresce: oferecendo respostas simples para problemas complexos e se alimentando do desespero das pessoas. Osmar ponderou que a esquerda não pode ridicularizar o medo popular nem tratar a insegurança como um tema secundário ou meramente retórico. “A gente tem que respeitar o medo das pessoas”, afirmou Sara durante a conversa, em sintonia com a ideia de que soberania, democracia e vida cotidiana não podem ser discutidas em esferas separadas.

Para o professor, o descontentamento social hoje encontra na segurança pública seu ponto mais sensível. Mesmo em um cenário de melhora em alguns indicadores econômicos e sociais, o cotidiano marcado pela violência continua alimentando frustração, medo e abertura para discursos de força. “A pessoa quer uma solução pro problema dela”, observou. Em sua avaliação, ignorar isso seria um erro político grave e potencialmente decisivo numa eleição de alta polarização.

Ao fim da entrevista, Osmar voltou a defender uma política menos movida por vaidades e mais orientada por projeto, programa e capacidade real de enfrentar o avanço autoritário. Para ele, diante do cenário nacional e internacional, o campo progressista precisará combinar unidade, crítica interna, firmeza democrática e inteligência eleitoral. O horizonte de 2026, sugeriu, já começou a ser desenhado agora, nas movimentações silenciosas da Janela Partidária, nas disputas pelo Senado, na montagem dos palanques regionais e, sobretudo, na capacidade de a esquerda compreender o tamanho do desafio que tem pela frente.

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