Especialista em História e Arquivologia analisa o papel da mídia, das redes sociais e dos interesses econômicos na disputa política que se aproxima no Brasil
A disputa política que antecede as eleições presidenciais de 2026 já está em curso no campo simbólico. Para a professora doutora em História e especialista em Arquivologia Marcília Gama, o país vive uma intensa guerra de narrativas, marcada por disputas discursivas, manipulação de informações e interesses econômicos que atravessam o debate público.
A análise foi feita durante entrevista concedida ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na quarta-feira, 11 de março, transmitido pela rede de rádios e plataformas da Atitude Popular.
Logo no início da conversa, a pesquisadora destacou que a disputa política contemporânea ocorre, sobretudo, no plano da linguagem e da produção de sentidos.
“Essa guerra de narrativas já começou e vai se intensificar nas eleições de 2026”, afirmou. Segundo ela, setores da oposição já estariam estruturando discursos capazes de atingir a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da esquerda e das organizações populares.
Disputa discursiva e manipulação ideológica
Para explicar o fenômeno, Marcília recorre ao pensamento do filósofo francês Michel Foucault, que analisou o funcionamento do discurso como instrumento de poder.
De acordo com a historiadora, o discurso político é formado por enunciados que podem ser manipulados para alterar a interpretação da realidade.
“Para Michel Foucault, o enunciado é a unidade elementar de um discurso. Essa unidade pode ser deturpada por interesses políticos e econômicos que disputam o controle das narrativas”, explicou.
Segundo a professora, essa dinâmica ganha ainda mais força em períodos eleitorais, quando narrativas são organizadas para direcionar percepções públicas e influenciar o comportamento do eleitorado.
O caso Banco Master e a disputa política
Durante a entrevista, Marcília citou o escândalo envolvendo o Banco Master como exemplo de como narrativas podem ser moldadas politicamente.
Para ela, as investigações revelam conexões entre setores do poder econômico e atores políticos, mas parte da cobertura midiática tenderia a direcionar o foco para determinados personagens.
“Há uma tentativa de apontar indícios que não são confirmados, muitas vezes para desconstruir a imagem do PT e do presidente Lula”, afirmou.
Segundo a professora, a disputa política tende a explorar temas que já foram amplamente difundidos no passado, como as narrativas construídas em torno do chamado “petrolão”, do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.
“Essa corrente discursiva ideológica vai explorar exatamente aquilo que a população já foi bombardeada a acreditar”, disse.
O papel das redes sociais e da comunicação alternativa
Outro ponto central da entrevista foi o impacto das redes sociais e dos influenciadores digitais na construção das narrativas políticas.
Marcília avalia que o ambiente digital ampliou a circulação de conteúdos manipulados, muitas vezes impulsionados por robôs e campanhas coordenadas.
“Vamos ser bombardeados por informações equivocadas, por robôs e por campanhas financiadas para moldar a opinião pública”, afirmou.
Nesse cenário, ela destaca a importância das mídias alternativas e independentes, que podem funcionar como instrumentos de contraponto à grande mídia tradicional.
“Hoje existem canais como TV 247, o ICL e também a Atitude Popular, que desempenham um papel importante de levar informação real à sociedade”, afirmou.
Para a professora, o desafio é ampliar o alcance dessas iniciativas e furar bolhas informacionais.
A influência das apostas online
Durante o debate, a historiadora também chamou atenção para o crescimento das plataformas de apostas online, conhecidas como “bets”.
Segundo ela, o setor movimenta grandes volumes financeiros e pode se tornar um instrumento de influência política.
“Essas plataformas manipulam bilhões de reais sem o controle adequado do Estado, o que abre espaço para lavagem de dinheiro e financiamento político oculto”, afirmou.
Na avaliação da professora, esse fenômeno representa um risco adicional para a integridade do processo democrático.
Narrativas de ódio e disputa geopolítica
Marcília também apontou que as eleições brasileiras estão inseridas em um cenário geopolítico mais amplo.
Para ela, disputas internacionais por recursos naturais e influência econômica podem intensificar a polarização política no país.
“Estamos vivendo um momento de grande disputa geopolítica. O controle das riquezas naturais e das economias da América Latina está no centro dessa disputa”, afirmou.
Nesse contexto, a historiadora acredita que discursos baseados em desinformação e polarização emocional continuarão sendo utilizados para mobilizar eleitores.
O papel da sociedade e da militância
Apesar do cenário de tensão informacional, Marcília defende que a sociedade pode reagir por meio da organização política, do debate público e da circulação de informações verificadas.
Segundo ela, a militância social e a comunicação comunitária terão papel decisivo nos próximos anos.
“O caminho é levar o debate para as comunidades, para as salas de aula e para o cotidiano das pessoas. É fazer o trabalho de esclarecimento e defesa da democracia”, afirmou.
Para a historiadora, a eleição não envolve apenas a disputa pela presidência, mas também a composição do Congresso Nacional.
“Se tivermos um parlamento comprometido com interesses contrários ao país, os riscos são muito grandes”, alertou.
Ao final da entrevista, Marcília reforçou a necessidade de vigilância democrática.
“Precisamos ficar atentos. O que conquistamos não pode ser perdido. A defesa da democracia, mesmo que frágil, depende da participação política e do voto consciente”, concluiu.
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