O cientista político e professor do IFCE João Paulo Bandeira afirmou que a política brasileira vive um momento em que narrativas e identidades têm pesado cada vez mais na definição do voto, muitas vezes superando a análise de projetos concretos para a sociedade. A avaliação foi feita durante entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas.
Ao longo da conversa, dedicada ao tema das candidaturas no Ceará e no Brasil para as eleições de 2026, Bandeira abordou desde o comportamento do eleitorado até os desafios da democracia brasileira, passando pela influência das redes sociais, o papel do Congresso Nacional e a disputa política que se desenha no Ceará.
Segundo o professor, o voto contemporâneo tem sido fortemente influenciado por elementos identitários.
“Cada vez mais o voto vai se tornando uma questão de identidade. As pessoas escolhem candidatos que reafirmam suas visões de mundo, muitas vezes mais do que aqueles que apresentam soluções concretas para os problemas da sociedade.”
Apesar disso, ele ressalta que a maioria dos eleitores continua acreditando estar votando para melhorar a própria vida e a realidade coletiva.
O eleitor entre projetos e identidades
Durante a entrevista, João Paulo Bandeira destacou que a política sempre teve uma dimensão simbólica, mas considera preocupante o crescimento da distância entre o debate público e os efeitos concretos das escolhas eleitorais.
Para ele, o eleitor precisa superar uma lógica puramente individual e refletir sobre os impactos coletivos do voto.
“O eleitor deveria perguntar não apenas o que esse voto faz por mim, mas o que ele faz pela coletividade.”
Bandeira citou estudos clássicos sobre comportamento eleitoral para contestar a ideia de que a população não sabe votar. Segundo ele, todos os cidadãos realizam algum tipo de cálculo político, seja baseado em interesses materiais, convicções ideológicas ou expectativas sobre o futuro.
O problema, argumenta, surge quando as pessoas não dispõem de informações suficientes para avaliar as consequências de suas escolhas.
Redes sociais e o enfraquecimento da vida coletiva
Um dos pontos centrais da análise do cientista político foi o impacto das plataformas digitais sobre a democracia.
Segundo ele, as redes sociais não produziram a ampliação da participação política que muitos imaginavam no início da internet.
“A democracia digital prometia criar novas formas de participação. O que aconteceu foi a formação de bolhas. Em vez de coletividades, criamos enxames.”
Na avaliação de Bandeira, esses agrupamentos virtuais funcionam mais como multidões conectadas por interesses momentâneos do que como comunidades políticas capazes de construir consensos e projetos coletivos.
A contradição entre o voto para presidente e o voto para o Congresso
Questionado sobre o fato de o Ceará ter votado majoritariamente em Lula para presidente enquanto elegeu uma bancada legislativa predominantemente conservadora, João Paulo Bandeira atribuiu a situação ao funcionamento do sistema político brasileiro.
Ele observou que o eleitor costuma enxergar o presidente como responsável pelas grandes transformações nacionais, enquanto as disputas legislativas permanecem muito vinculadas às estruturas locais de poder.
O professor também criticou o fortalecimento do Congresso Nacional após a expansão das emendas parlamentares e do chamado orçamento secreto.
“O problema não é apenas quem gasta o dinheiro público. O problema é gastar sem se responsabilizar politicamente por esse gasto.”
Segundo ele, esse desequilíbrio dificulta a implementação de políticas públicas estruturantes, mesmo quando governos eleitos possuem respaldo popular.
O debate sobre a escala de trabalho
Ao comentar as recentes declarações de lideranças conservadoras sobre mudanças na jornada de trabalho, Bandeira afirmou que setores dominantes frequentemente incorporam pautas populares para remodelá-las de acordo com seus próprios interesses.
Ele avaliou que propostas surgidas após a crescente pressão social pelo fim da escala 6×1 precisam ser analisadas com cautela.
Para o cientista político, a disputa em torno da organização do trabalho revela um conflito permanente entre interesses privados e interesses coletivos.
“A classe dominante brasileira historicamente se apropria de pautas populares para reformulá-las segundo seus interesses.”
Democracia e participação popular
João Paulo Bandeira argumentou que a saída para a crise de representação não será encontrada apenas nas eleições de 2026.
Segundo ele, a transformação exige um processo de longo prazo baseado em educação política e ampliação da participação cidadã.
“Não é em 2026 que vamos resolver isso. É um processo de construção democrática.”
Para o professor, a democracia representativa precisa evoluir para formas mais participativas, permitindo que a população tenha influência efetiva nas decisões públicas e na definição das candidaturas.
Ele também criticou a ausência de mecanismos de participação popular na formação das chapas eleitorais.
“Cadê o povo participando da escolha dos candidatos? Muitas vezes os nomes simplesmente aparecem prontos para a sociedade.”
A foto de Flávio Bolsonaro com Trump
Ao comentar a repercussão da viagem do senador Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos e sua aproximação com o então presidente norte-americano Donald Trump, João Paulo Bandeira foi categórico.
“A foto não apaga o áudio.”
Segundo ele, imagens de impacto podem mobilizar setores já convencidos, mas dificilmente alteram a percepção de eleitores que avaliam a política de forma mais pragmática.
Para o professor, o episódio teve mais valor simbólico para a militância bolsonarista do que relevância efetiva nas relações internacionais.
“Estados dialogam com Estados. Pessoas dialogam com pessoas.”
A disputa pelo Governo do Ceará
Na reta final da entrevista, Bandeira analisou o cenário da sucessão estadual no Ceará.
Ele prevê uma disputa intensa envolvendo o governador Elmano de Freitas, o ex-ministro Ciro Gomes e o senador Eduardo Girão.
Na avaliação do cientista político, o principal desafio de Ciro Gomes será explicar sua aproximação com setores da direita e, ao mesmo tempo, manter parte de seu eleitorado histórico.
“Vai ser uma eleição extremamente acirrada.”
Ele observou que o eleitor cearense tende a exigir respostas sobre quais forças políticas efetivamente participariam de um eventual governo liderado por Ciro.
Política exige debate
Encerrando a entrevista, João Paulo Bandeira defendeu a valorização dos espaços de discussão pública e ressaltou a importância da formação política da população.
“A política é isso. Ou a gente debate ou vamos continuar acreditando em enredos criados para nós.”
Para ele, fortalecer a democracia passa necessariamente pelo acesso à informação de qualidade, pela participação popular e pela construção de uma cidadania ativa capaz de influenciar os rumos do país.
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O
