Na avaliação de Enedina Soares e Altemar Muniz, a I Conferência Nacional de Inteligência Artificial com Direitos Sociais, realizada em São Bernardo do Campo, inaugura uma nova frente de luta do movimento sindical e das universidades em defesa de empregos, soberania digital e direitos trabalhistas
A chegada acelerada da inteligência artificial (IA) à economia e ao mundo do trabalho não é apenas mais uma “novidade tecnológica”. Para a presidenta da FETAMCE, Enedina Soares, trata-se de uma virada histórica:
“A gente está vivendo um divisor de águas nas relações de trabalho com a chegada da inteligência artificial.”
Os impactos e desdobramentos dessa transformação foram tema central da Primeira Conferência Nacional por Inteligência Artificial com Direitos Sociais, realizada no início de outubro, em São Bernardo do Campo (SP). O balanço político e organizativo do encontro foi debatido no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes no dia 21 de outubro, com participação do comentarista Antônio Ibiapino e dos convidados Enedina Soares e Altemar Muniz, chefe de gabinete da Reitoria da UECE e coordenador da Frente Inteligência Artificial com Direitos Sociais.
Do berço do sindicalismo à pauta da IA
A escolha de São Bernardo do Campo — berço das grandes greves do ABC e da trajetória política de Lula — não foi casual. A conferência começou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, espaço símbolo da resistência à ditadura militar e da construção do novo sindicalismo brasileiro.
Para o historiador Altemar Muniz, pisar naquele prédio para discutir o futuro do trabalho em plena era digital foi uma experiência emocionante:
“Foi a minha primeira oportunidade de pisar ali no prédio dos sindicatos metalúrgicos do ABC. Ali você fica emocionado ao ver naquelas paredes as histórias de lutas que aquele sindicato representa… para um historiador, é como se eu tivesse uma criança entrando na Disneylândia, completamente fascinado por aquele espaço.”
O primeiro dia teve um ato político no sindicato, com participação do DIEESE, da frente petroleira e de diversas categorias, que relataram como a inteligência artificial já está reconfigurando rotinas, empregos e formas de organização sindical.
No dia seguinte, a conferência se instalou na Universidade Federal do ABC (UFABC). Em formato dinâmico — mesas com cadeiras em círculo e a presença alternada de sindicalistas, mulheres e homens, ao lado de pesquisadores e parlamentares — o encontro conseguiu, em apenas um dia, aprovar um manifesto nacional, lançar uma frente nacional de IA com direitos sociais e apontar tarefas concretas.
“Foi um evento fantástico. Nós conseguimos fazer coisas em um dia que eu não acreditava que a gente ia conseguir fazer”, resume Altemar.
Do Ceará para o Brasil: quando a pauta tecnológica nasce de baixo
Embora nacional, a conferência levou a marca forte do Ceará. Foi no estado que se articulou, ainda em 2024 e 2025, a Frente Inteligência Artificial com Direitos Sociais, envolvendo sindicatos, universidades e entidades de pesquisa.
Enedina lembra que o processo não começou em São Bernardo:
“Esse movimento parte do Ceará, vai do Ceará para o Brasil. O que nós já fizemos aqui de realizar a nossa primeira conferência, com três encontros em Fortaleza, mais encontros em Redenção, Juazeiro do Norte e Sobral, sempre aliando mobilização e ciência, foi a base para chegar à etapa nacional.”
Segundo ela, a conferência em São Bernardo reuniu:
Delegações de 18 estados,
Cerca de 310 participantes,
Representações de 18 entidades nacionais, incluindo bancários, metalúrgicos, servidores públicos, categorias de processamento de dados, professores, petrolheiros, bibliotecários e instituições como UFRJ, IFCE e UECE.
O Ceará foi a segunda maior delegação do país, atrás apenas de São Paulo. E a articulação cearense, liderada por nomes como Vital, foi decisiva na organização nacional:
“Esse encontro foi de caráter mobilizador. Quem foi em busca de conhecimento conseguiu, porque tivemos palestrantes de altíssimo nível, mas foi para além disso: foi um encontro de mobilização, para envolver universidades, sociedade civil organizada e atores sociais em todo o país”, diz Enedina.
IA, trabalho e direitos: quem fica com o ganho de produtividade?
No centro do debate, uma pergunta atravessou todas as mesas: quem vai se apropriar dos ganhos de produtividade gerados pela IA?
Enedina cita o exemplo dos bancários, já profundamente atingidos pela automação bancária e pelos aplicativos:
“É uma categoria que tende a ser extinta nos próximos dez anos, e não serão só eles. Servidores públicos, professores, trabalhadores de dados… ninguém sairá ileso desse processo.”
Ao mesmo tempo, ela lembra que não se trata de aceitar passivamente a narrativa de que o trabalhador se tornou “dispensável”:
“Eu acredito que nós, enquanto trabalhadores, não seremos descartados, porque as máquinas não conseguem fazer o que nós fazemos. A inteligência artificial ela não é inteligente. A nossa sorte é que ela não é tão inteligente quanto ela vende que ser, mas nós precisamos compreender como funciona e quais são os desdobramentos.”
A compreensão desse cenário, para a presidenta da FETAMCE, ainda é muito desigual entre as bases:
“Os trabalhadores ainda não têm acesso a esse conhecimento. A gente está na fase ainda, como os professores dizem, de letramento, de compreender o básico. Essa é tarefa número um: fazer a classe trabalhadora entender o que está em jogo.”
Soberania digital e o poder dos dados
Se o impacto da IA sobre os empregos assusta, o controle dos dados preocupa ainda mais. Para Altemar Muniz, o debate sobre tecnologia precisa ser rapidamente incorporado à agenda de soberania nacional:
“A forma de poder que eu tenho hoje de controlar o mundo são os dados.”
Ele lembra que a IA não é “uma nuvem abstrata”, mas um conjunto de equipamentos caríssimos, data centers gigantescos e infraestrutura física altamente concentrada:
“A inteligência artificial não é uma nuvem. São equipamentos caríssimos, data centers antiecológicos, movidos a dados. E essas máquinas de dados estão sendo usadas para manipular consciências, eleições, guerras.”
Muniz citou o exemplo das eleições nos Estados Unidos e do uso massivo de dados por redes sociais para segmentar mensagens políticas, além do papel das big techs em conflitos como o da Palestina.
Outro alerta do professor é dirigido diretamente ao movimento sindical e às instituições públicas brasileiras:
“Os sindicatos não podem mais ficar usando dados e entregando para as bigtecs. As universidades, os órgãos públicos, os movimentos sociais estão sendo reféns de uma máquina que faz milhões com os nossos dados, e a gente não recebe um centavo por isso.”
Por isso, uma das propostas em debate é a criação de data centers públicos, estatais, com controle nacional, como forma de proteger o país de apagões de dados e chantagens geopolíticas. Trata-se, segundo Altemar, de colocar a soberania digital na pauta dos governos.
O mito dos “15 mil empregos” e a farra dos data centers
Se a IA depende de enormes estruturas físicas para funcionar, cresce a corrida de estados brasileiros para atrair data centers de gigantes estrangeiras. O Ceará está no mapa dessa corrida — e também das ilusões vendidas à população.
Moradora de Caucaia, Enedina conta que a cidade está sendo cortejada por uma grande empresa com a promessa de 15 mil empregos diretos:
“Em Caucaia, o discurso é que vai gerar 15 mil postos de trabalho. Aí eu fui conversar com o professor Sérgio Amadeu, e ele disse: ‘Olê, no mundo não tem um data center que tenha 15 mil postos de trabalho. Fica em média 50 pessoas operando aquilo ali’.”
Além da promessa inflada de empregos, pesam os impactos ambientais: uso intensivo de água, alto consumo de energia e pouca contrapartida social.
“Vem de uma mentira para a sociedade. Você tem um consumo enorme de água, danos ambientais e, no fim, muito pouco emprego e muita dependência tecnológica”, critica Enedina.
A divergência entre discurso oficial e realidade reforça a urgência de um modelo de governança de dados e infraestrutura digital que não entregue a chave da economia informacional brasileira a empresas estrangeiras.
Frentes, instituto e a disputa de 2026
Da conferência em São Bernardo saíram decisões que vão muito além de um evento pontual. Entre as principais resoluções estão:
Consolidação da Frente Nacional de Inteligência Artificial com Direitos Sociais;
Compromisso de construção de frentes estaduais e frentes parlamentares sobre o tema em assembleias legislativas e no Congresso;
Criação do Instituto Nacional de Inteligência Artificial com Direitos Sociais, que já nasce com forte participação cearense.
“Nós temos um instituto recém-criado, e um dos objetivos é se consolidar para prestar serviço à luta. O avanço tecnológico precisa refletir na qualidade de vida das pessoas, e não na ampliação do nível de exploração”, resume Enedina.
Segundo ela, já há nove estados se organizando para realizar conferências estaduais ou regionais — entre eles Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal e Pernambuco — além da segunda conferência cearense, prevista para o primeiro semestre de 2026.
O calendário não é neutro: 2026 é ano de eleições gerais no Brasil, e a disputa sobre regulação das plataformas, proteção de dados, redução da jornada de trabalho e renda básica universal tende a ganhar centralidade.
“A redução da jornada de trabalho volta com força. Como é possível avançar tanto em tecnologia e ainda ter gente que não tem o que comer todo dia?”, provoca Enedina, lembrando a luta histórica de Eduardo Suplicy pela renda básica universal, um dos homenageados na conferência.
Letramento, organização e o desafio de furar bolhas
Para que toda essa agenda saia do papel, os convidados reforçam a necessidade de investir em formação política e técnica junto às bases.
“O movimento sindical dos dias de hoje não é o mesmo da década de 1980. Quem atua como se ainda estivesse nos anos 80 não consegue dialogar nem atrair gente nova. A velocidade da informação é outra, os desafios são outros”, avalia Enedina.
Altemar completa com um alerta sobre o ambiente informacional:
“Hoje você tem uma máquina que lhe permite acreditar nas coisas mais absurdas do mundo, porque tem milhões de pessoas que pensam a mesma coisa que você. A bolha não é só da direita; a esquerda tem bolha, o movimento sindical tem bolha, o movimento estudantil tem bolha.”
Por isso, ele defende que a luta por direitos na era da IA também passa por furar essas bolhas:
“Nós precisamos furar nossas próprias bolhas, conversar com quem pensa diferente da gente. E o grande desafio é tentar conversar com o ódio sem usar o ódio como elemento de resposta. Se eu respondo o ódio com ódio, eu estou sendo levado para o lado escuro da força.”
Entre data centers, algoritmos e promessas de modernização, o recado da I Conferência Nacional de Inteligência Artificial com Direitos Sociais é claro: sem organização da classe trabalhadora, soberania digital e disputa política, a IA será apenas mais um instrumento de concentração de riqueza e aprofundamento da desigualdade.
A disputa começou. E, se depender da frente articulada entre sindicatos, universidades e movimentos sociais, a próxima onda tecnológica não passará por cima dos direitos sem resistência.
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