“A gente não pode continuar jogando no campo do adversário”, alerta Ivan Moraes sobre as big techs e as eleições

No Vozes pela Democracia, a jornalista Katia Marko e o defensor dos direitos humanos Ivan Moraes discutiram a influência das plataformas digitais no segundo turno, as denúncias de favorecimento algorítmico e a necessidade de regulamentar as empresas de tecnologia

A influência das grandes empresas de tecnologia sobre as eleições brasileiras e os efeitos da concentração do poder de comunicação nas mãos de poucas corporações foram os temas centrais do programa Vozes pela Democracia, exibido na sexta-feira (23). Em debate conduzido pelo apresentador Souza Júnior, a jornalista Katia Marko e o jornalista, escritor e defensor dos direitos humanos Ivan Moraes analisaram a atuação das plataformas digitais no segundo turno das eleições de 2026, as denúncias de tratamento desigual entre candidaturas e os desafios para garantir condições democráticas de disputa. A matéria tem como base a edição do programa, produzido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), com produção da Atitude Popular.

Durante a conversa, os convidados questionaram a justificativa de falhas técnicas apresentada pela Meta diante das denúncias de restrições e diferenças de alcance envolvendo conteúdos políticos. Para os participantes, o episódio evidencia a necessidade de ampliar o controle público sobre os mecanismos que organizam a circulação de informações nas redes sociais, especialmente em períodos eleitorais.

Katia Marko, editora do Brasil de Fato RS, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e coordenadora-geral do FNDC para o biênio 2025-2027, destacou que as organizações comprometidas com a democratização da comunicação chegaram ao atual processo eleitoral mais preparadas para denunciar problemas nas plataformas.

“Eu acho que a diferença nessa eleição não foi a interferência da Meta e das grandes plataformas, mas foi a forma como a esquerda e os movimentos organizados da comunicação reagiram a essa interferência”, afirmou.

A jornalista mencionou denúncias de retirada de páginas do ar, limitações na distribuição de conteúdos e diferenças de circulação entre canais ligados às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo ela, organizações da sociedade civil se mobilizaram para levar essas questões às instituições responsáveis e ampliar a pressão pública sobre as empresas.

Marko também citou páginas de movimentos estudantis do Rio Grande do Sul que, segundo seu relato, foram retiradas do ar. Ela mencionou iniciativas encaminhadas ao Ministério Público Federal e reclamações públicas levadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de uma mobilização em frente à sede da Meta, em São Paulo, que, de acordo com a convidada, reuniu mais de 500 pessoas.

Meta e a desigualdade na circulação de informações

A discussão ocorreu em meio a questionamentos sobre a atuação das plataformas digitais no processo eleitoral. Os convidados argumentaram que a distribuição de conteúdos políticos não pode ser tratada como uma questão exclusivamente técnica quando seus efeitos podem favorecer determinados grupos ou restringir a comunicação de outros.

Para Marko, as empresas de tecnologia já exercem influência sobre disputas políticas há vários anos. Ela relacionou o cenário brasileiro a episódios internacionais de uso de dados e ferramentas digitais para interferir no debate público, citando o caso da Cambridge Analytica e controvérsias envolvendo eleições nos Estados Unidos e em países europeus.

Na avaliação da jornalista, a presença de dirigentes de grandes empresas de tecnologia em espaços de poder político nos Estados Unidos também ajuda a compreender a dimensão da relação entre essas corporações e os governos.

Ela afirmou que as organizações brasileiras ligadas à soberania digital passaram a atuar de maneira mais coordenada para denunciar práticas consideradas prejudiciais à democracia. Essa reação, segundo Marko, incluiu a cobrança por maior participação do jornalismo profissional na verificação de declarações feitas durante a campanha.

A jornalista defendeu que a imprensa assuma uma posição mais ativa na checagem de informações durante debates eleitorais. Na avaliação apresentada no programa, a divulgação de afirmações falsas ou enganosas sem correção adequada pode comprometer a capacidade dos eleitores de avaliar as propostas dos candidatos.

Ivan Moraes questiona o poder dos algoritmos

Ivan Moraes, integrante do Centro de Cultura Luiz Freire e do coletivo DiraCom, que atua na defesa do direito à comunicação, afirmou estar preocupado com os efeitos da concentração do poder informacional nas mãos de poucas empresas. Ex-vereador do Recife, ele também disputou o governo de Pernambuco em 2026.

Para Moraes, as decisões sobre a distribuição de conteúdos nas redes sociais precisam ser debatidas publicamente, pois afetam a possibilidade de candidaturas e movimentos sociais alcançarem seus públicos.

“Não tem nenhuma pessoa com mínimo de sanidade mental que esteja acompanhando tudo que tá acontecendo, que já não perceba que existe uma parcialidade explícita desses algoritmos”, declarou.

O convidado criticou o que considera uma desigualdade nas condições de comunicação entre os grupos políticos. Na avaliação dele, as plataformas concentram um poder que deveria estar submetido a regras transparentes, sobretudo quando os mecanismos de recomendação e distribuição de conteúdos interferem no debate eleitoral.

Moraes também questionou a diferença de tratamento entre a publicidade nas redes sociais e os meios tradicionais de radiodifusão. Ele lembrou que organizações defensoras do direito à comunicação participaram de consultas públicas do TSE sobre regras para o uso das plataformas nas eleições, mas, segundo relatou, suas advertências sobre o impulsionamento pago não receberam a atenção necessária.

“Se você não pode botar dinheiro para comprar espaço na radiodifusão, por que que se permite gastar milhões com redes sociais?”, questionou.

A crítica se dirige ao papel do investimento financeiro na visibilidade política. Para Moraes, a possibilidade de pagar pela distribuição de conteúdos em plataformas digitais amplia as desigualdades entre candidaturas e exige regras que considerem o impacto desse mecanismo sobre a disputa eleitoral.

O jornalista defendeu, ainda, a regulamentação das empresas de tecnologia e afirmou que a concentração da comunicação em poucas corporações representa um desafio para a democracia. Na sua avaliação, o problema não se limita à campanha de 2026, pois envolve as condições futuras de circulação de informações e de participação política.

O alcance das mobilizações digitais

A conversa também abordou as iniciativas de mobilização de apoiadores de Lula nas redes sociais. Moraes elogiou a participação de milhões de pessoas em canais digitais organizados para ampliar o alcance de mensagens políticas e alcançar eleitores fora dos públicos habituais das campanhas.

O convidado avaliou que a mobilização espontânea de apoiadores, com ações nas redes, nos bairros e nas ruas, teria papel relevante no resultado eleitoral. Para ele, a capacidade de organização da sociedade não pode depender apenas das estruturas formais dos partidos.

“Acho que a gente vai ganhar essa eleição muito menos pela capacidade de articulação de uma campanha institucionalizada […] e muito mais pela grande quantidade de pessoas que se auto-organizaram”, afirmou.

A fala expressa a avaliação política de Moraes sobre a campanha e o peso da participação popular. Durante o programa, ele também alertou que a vitória eleitoral, por si só, não resolveria os problemas relacionados à concentração da comunicação e à atuação das plataformas.

O debate incluiu referências ao canal Exército do Lula, utilizado para mobilizar apoiadores, e às disputas em torno de seu funcionamento. Os participantes interpretaram as restrições denunciadas no ambiente digital como parte de um problema mais amplo de acesso aos canais de comunicação e de tratamento das iniciativas políticas pelas plataformas.

As alegações discutidas no programa refletem a avaliação dos convidados. A identificação de eventual favorecimento algorítmico exige análise dos dados de distribuição, dos critérios de moderação e das decisões das empresas, com distinção entre denúncias, evidências documentadas e conclusões institucionais.

Desinformação, religião e disputa política

Outro ponto da conversa foi a relação entre desinformação, crenças religiosas e polarização política. Katia Marko afirmou que parte dos eleitores recebe informações dentro de ambientes digitais que reforçam determinadas interpretações da disputa eleitoral e dificultam o contato com perspectivas divergentes.

A jornalista criticou a transformação da política em uma oposição entre o bem e o mal. Na avaliação dela, esse enquadramento pode desestimular o debate racional e contribuir para a desumanização dos adversários.

“Quando a gente coloca a religião influenciando nas decisões políticas do país, a lógica não existe, a razão se perde”, declarou.

A observação foi apresentada no contexto da análise sobre discursos políticos que associam candidaturas a uma suposta luta espiritual. Marko relacionou esse tipo de abordagem ao risco de transformar divergências políticas em conflitos morais absolutos, nos quais o adversário deixa de ser visto como alguém com quem se disputa democraticamente o poder.

Moraes, por sua vez, relacionou a circulação de desinformação à dificuldade de parte dos eleitores em avaliar informações sobre candidatos e suas trajetórias. Para ele, a garantia de acesso a informações confiáveis é uma condição para que as pessoas possam tomar decisões políticas conscientes.

Os dois convidados defenderam a continuidade das iniciativas de comunicação popular e das redes de organizações que atuam na defesa da democracia. Marko ressaltou que esses espaços são resultado de anos de trabalho e precisam ampliar sua presença tanto nas plataformas digitais quanto nas mobilizações presenciais.

A regulamentação das plataformas no centro do debate

Ao longo do programa, a regulamentação das big techs apareceu como uma das principais questões para o futuro da democracia brasileira. Os convidados argumentaram que empresas capazes de determinar a visibilidade de conteúdos políticos precisam atuar sob regras claras, com mecanismos de transparência e possibilidade de responsabilização.

O debate também apontou que a discussão não deve ficar restrita aos períodos eleitorais. A concentração dos canais de comunicação, o uso de publicidade paga e a distribuição automatizada de informações influenciam o cotidiano do debate público, a atuação de movimentos sociais e o acesso da população a diferentes perspectivas.

A defesa da regulamentação, na perspectiva apresentada pelos participantes, está ligada à necessidade de estabelecer condições mais equilibradas de circulação de informações e de impedir que decisões privadas, tomadas sem transparência suficiente, determinem os limites da participação democrática.

Nas considerações finais, Ivan Moraes voltou à imagem do jogo para sintetizar sua crítica à dependência das plataformas controladas por grandes empresas.

“A gente não tem como achar que vai ganhar, continuar ganhando um jogo e continuar tendo a capacidade de informar livremente se a gente achar que vai continuar jogando no campo do adversário, no estádio do adversário, com a bola do adversário, com o juiz do adversário, com regras do adversário que podem ser mudadas a qualquer momento, sem nem a gente saber que ela mudou”, afirmou.

A declaração resume a preocupação do convidado com a dependência de infraestruturas privadas para a comunicação política. Para Moraes, a disputa pela democracia exige mudanças nas condições em que as informações circulam e maior capacidade de participação pública na definição das regras que organizam o ambiente digital.

Marko também defendeu a continuidade da mobilização das organizações de comunicação e dos movimentos sociais. Para ela, a experiência do segundo turno reforça a importância de manter redes de colaboração e ampliar a atuação dos canais independentes.

O programa Vozes pela Democracia é uma iniciativa do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e debate cidadania e direito à comunicação. A edição teve apresentação de Souza Júnior e produção da Atitude Popular, com apoio de entidades sindicais e organizações comprometidas com a democratização da comunicação.

Assista à edição completa:

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