Em caminhada por Copacabana, presidente diz que os brasileiros assumiram a responsabilidade pela campanha, celebra a mobilização de milhões de apoiadores nas redes sociais e demonstra confiança na vitória deste domingo. Depois das dificuldades enfrentadas no primeiro turno, a candidatura petista encerra a disputa com manifestações nas ruas e uma ampla articulação digital.
Da Redação
A um dia da decisão presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva chegou à reta final do segundo turno celebrando o que considera a maior transformação de sua campanha: a participação direta de milhões de brasileiros na mobilização por sua candidatura. Neste sábado (24), antes de participar de uma caminhada em Copacabana, no Rio de Janeiro, o presidente destacou a presença popular nas ruas, o crescimento extraordinário das iniciativas digitais organizadas por seus apoiadores e a capacidade de mobilização demonstrada nas últimas semanas. Em declarações à imprensa, Lula afirmou estar convencido de que conquistará um novo mandato na votação deste domingo (25), quando enfrentará o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O presidente atribuiu seu otimismo à reorganização da campanha depois do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, e ao envolvimento de pessoas que passaram a participar das atividades eleitorais para além das estruturas partidárias tradicionais. Segundo Lula, o movimento ganhou uma dinâmica própria, impulsionado por trabalhadores, estudantes, artistas, movimentos sociais e cidadãos que assumiram a divulgação de sua candidatura em diferentes regiões do Brasil. A avaliação foi apresentada diante de apoiadores que se concentraram na orla de Copacabana para uma das últimas grandes manifestações da campanha presidencial.
“Estou dizendo para vocês e podem anotar, amanhã eu serei eleito presidente da República outra vez”, declarou Lula aos jornalistas, segundo relato da Reuters. A afirmação expressa a confiança do candidato em um momento no qual a disputa permanece acirrada. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%, conforme os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral. A diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos tornou a mobilização dos eleitores e a disputa pelos votos dos demais candidatos elementos centrais das estratégias adotadas pelas duas campanhas.
A confiança demonstrada pelo presidente contrasta com a avaliação que ele próprio havia feito sobre sua organização eleitoral nas semanas seguintes à primeira votação. Lula chegou a classificar a campanha do primeiro turno como a menos organizada de que participou desde 1989, reconhecendo dificuldades na articulação política e na comunicação com diferentes segmentos da sociedade. A partir daquele momento, a candidatura intensificou sua presença nas ruas e procurou ampliar a participação de apoiadores na produção, circulação e divulgação de conteúdos pelas plataformas digitais.
Uma das expressões mais visíveis dessa reorganização foi o crescimento do movimento denominado “Exército do Lula”, articulado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG). A iniciativa, organizada por meio de um canal de WhatsApp, passou a distribuir orientações e atividades para ampliar a circulação de mensagens favoráveis à candidatura petista e responder a conteúdos produzidos pela campanha adversária. Segundo informações divulgadas neste sábado, o canal já reunia mais de 10,6 milhões de seguidores, enquanto seus organizadores trabalhavam com a meta de alcançar 13 milhões até o encerramento da disputa.
Durante uma transmissão ao vivo realizada por Janones, Lula comemorou a dimensão alcançada pelo movimento e utilizou o humor para comparar sua organização digital aos exércitos de grandes potências mundiais. Brincou com os presidentes da China, Xi Jinping, da Rússia, Vladimir Putin, e dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmando que todos estariam impressionados com a força de seus apoiadores. O presidente descreveu a mobilização como um movimento pacífico, voltado à participação política e à defesa da democracia. A referência militar é uma metáfora utilizada pela campanha para caracterizar sua organização digital, não uma estrutura armada ou institucional.
Embora a quantidade de seguidores de um canal não corresponda necessariamente ao mesmo número de militantes ativos ou eleitores, a expansão dessa rede representa um fenômeno importante na comunicação política brasileira. Ela demonstra como aplicativos de mensagens, historicamente utilizados para circulação de informações entre grupos privados, também se transformaram em instrumentos de organização coletiva, divulgação de conteúdos e articulação eleitoral em grande escala. Para uma candidatura que reconheceu dificuldades de comunicação no primeiro turno, a ampliação desses canais passou a ocupar lugar de destaque na estratégia das últimas semanas.
A mobilização digital se desenvolveu paralelamente à realização de manifestações em várias cidades. Ao longo de outubro, atos em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Brasília, Porto Alegre e outras capitais reuniram apoiadores, organizações estudantis, sindicatos e representantes da cultura brasileira. Em diferentes ocasiões, a participação de artistas e movimentos culturais aproximou a campanha de públicos que não necessariamente integram as estruturas partidárias. A combinação entre manifestações presenciais e circulação de imagens e vídeos nas redes tornou-se uma característica marcante dessa etapa da disputa presidencial.
Foi essa participação que Lula destacou ao comentar a reorganização da campanha. O presidente afirmou que o envolvimento espontâneo dos apoiadores havia produzido uma mobilização que não estava prevista inicialmente e que a responsabilidade pela disputa deixara de estar concentrada exclusivamente nos dirigentes partidários. A declaração revela uma mudança na maneira como o candidato passou a apresentar sua própria campanha: em vez de enfatizar apenas as alianças eleitorais e a estrutura das legendas que o apoiam, Lula colocou no centro de seu discurso a participação dos cidadãos que passaram a atuar diretamente na divulgação de sua candidatura.
Outro elemento importante das declarações presidenciais foi a interpretação do resultado do primeiro turno. Lula reconheceu que parte da sociedade brasileira expressou insatisfação e desejo de mudanças, mas argumentou que essa demanda não deveria ser confundida com uma disposição para retomar as políticas adotadas durante o governo de Jair Bolsonaro. O presidente afirmou que os brasileiros desejam transformações capazes de produzir avanços e associou a candidatura adversária à possibilidade de retorno a medidas que critica nas áreas do trabalho, da educação, da cultura, da saúde e das relações internacionais.
Essa argumentação sintetiza uma das principais linhas políticas adotadas pelo petista nas últimas semanas. Diante de um adversário que procura se apresentar como alternativa ao governo atual, Lula sustenta que a insatisfação de parte do eleitorado deve ser respondida com novas propostas de desenvolvimento econômico, ampliação de oportunidades e fortalecimento das políticas públicas. A campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez, concentra suas críticas na gestão petista e apresenta propostas próprias para segurança pública, economia e administração federal. São projetos políticos em disputa, submetidos agora à decisão do eleitorado.
A caminhada em Copacabana representou uma das últimas oportunidades de Lula para estabelecer contato direto com seus apoiadores antes da votação. O ato começou com a concentração de manifestantes nas proximidades do Posto 5 e percorreu a Avenida Atlântica, região que tem recebido grandes manifestações políticas de diferentes orientações ao longo dos últimos anos. A presença do presidente no local também teve significado simbólico, uma vez que o Rio de Janeiro ocupa posição importante na trajetória política da família Bolsonaro e nas disputas eleitorais recentes.
Depois da agenda carioca, Lula programou o encerramento de sua campanha para a tarde deste sábado, na Avenida Paulista, em São Paulo. A previsão é de que participe de uma caminhada acompanhado de lideranças políticas e aliados, entre eles o vice-presidente Geraldo Alckmin. No domingo, o presidente deverá votar pela manhã em São Bernardo do Campo, município do ABC paulista onde construiu sua trajetória sindical e iniciou sua projeção nacional, antes de acompanhar a apuração na capital.
A intensa presença de apoiadores nas ruas e nas redes, contudo, não elimina a incerteza própria de uma disputa eleitoral competitiva. As manifestações oferecem indicadores da capacidade de organização das campanhas, mas não permitem, isoladamente, estabelecer a distribuição dos votos entre os milhões de brasileiros que comparecerão às urnas. A eleição será decidida pelo conjunto do eleitorado, incluindo cidadãos que não participam de atos públicos, não acompanham canais partidários e podem definir suas escolhas independentemente das mobilizações observadas nas últimas semanas.
Ainda assim, o crescimento da participação popular nas semanas finais tornou-se um dos acontecimentos políticos mais relevantes da campanha de Lula. A reorganização de suas estruturas, a presença de diferentes movimentos sociais e a articulação entre atividades presenciais e digitais marcaram uma etapa distinta daquela observada antes do primeiro turno. O presidente chega à véspera da votação atribuindo aos próprios eleitores o papel de protagonistas dessa transformação, numa disputa em que a comunicação política passou a depender não apenas das mensagens produzidas pelas candidaturas, mas também da circulação dessas mensagens por milhões de pessoas.
Ao encerrar sua participação no Rio de Janeiro, Lula procurou transmitir simultaneamente confiança no resultado eleitoral e reconhecimento pelo envolvimento dos apoiadores. Também observou que uma campanha pode adquirir significado político para além de seu resultado nas urnas, especialmente quando consegue ampliar a participação de cidadãos na vida pública. A declaração veio acompanhada da convicção reiterada de que conquistará a reeleição.
Neste domingo, caberá aos eleitores definir o próximo presidente da República. Até lá, a mobilização descrita por Lula permanecerá como um dos elementos centrais desta reta final: uma campanha que chegou ao segundo turno diante de dificuldades reconhecidas por seu próprio candidato e que procurou responder a elas ampliando sua presença nas ruas, reorganizando seus canais de comunicação e estimulando a participação direta de seus apoiadores. O alcance eleitoral dessa estratégia será conhecido com a apuração. Seu impacto sobre as formas de organização e comunicação política no Brasil, entretanto, já constitui um acontecimento que merece acompanhamento e análise para além da disputa presidencial.






