Guilherme Sampaio e Luísa Cela defendem ampliação da representação progressista, fortalecimento das políticas culturais e continuidade dos governos de Lula e Elmano nas eleições de 2026
A composição do Congresso Nacional, a baixa representação feminina na política, o avanço da extrema direita e os desafios para consolidar políticas públicas no Ceará estiveram no centro do debate com o deputado estadual Guilherme Sampaio e a ex-secretária da Cultura do Ceará Luísa Cela, ambos pré-candidatos pelo PT nas eleições de 2026.
As declarações foram dadas ao programa Eleições 2026 em Debate, uma realização da Atitude Popular e do Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará, com apoio do Sindipetro CE/PI e apresentação de Sousa Júnior. A edição reuniu dois nomes com atuação no campo progressista e trajetórias ligadas às políticas públicas, especialmente nas áreas de cultura, educação e cidadania.
Guilherme Sampaio é deputado estadual, líder do governo Elmano de Freitas na Assembleia Legislativa do Ceará, presidente do PT em Fortaleza e ex-vereador da capital. Também comandou a Secretaria da Cultura do Ceará.
Luísa Cela é psicóloga, mestre em Saúde da Família pela Universidade Federal do Ceará e gestora pública. Foi diretora de Direitos Humanos da Rede Cuca, diretora de Cidadania Cultural do Instituto Dragão do Mar, secretária-executiva da Cultura do Ceará, subsecretária de Programa do Consórcio Nordeste e, entre 2023 e 2026, secretária da Cultura do Estado.
Durante o programa, os dois defenderam que a eleição parlamentar precisa ocupar uma posição central no debate político de 2026. Para Luísa, parte do eleitorado ainda não relaciona diretamente a composição do Congresso às dificuldades enfrentadas pelo governo federal para executar políticas aprovadas nas urnas.
“A gente precisa melhorar o Congresso, inclusive para debater a necessidade de uma reforma política, para que a gente possa ter uma forma justa, digna e limpa do debate eleitoral, da disputa eleitoral e, fundamentalmente, que se conecta com o fortalecimento da democracia no nosso país”, afirmou.
Guilherme: candidatura é uma responsabilidade militante
Ao analisar a conjuntura política, Guilherme Sampaio afirmou que disputar eleições representa, para integrantes de seu campo político, uma responsabilidade relacionada à defesa da democracia e ao enfrentamento das desigualdades sociais.
“Eu acho que é uma responsabilidade militante para pessoas como a Luísa, como eu, que já estão na vida pública, quando convocados pelos nossos partidos e pelo próprio desafio da conjuntura, nós nos colocarmos à disposição de um projeto político que move gerações de militantes como nós.”
Segundo Guilherme, o Brasil possui condições materiais para reduzir a pobreza e as desigualdades, mas enfrenta uma disputa permanente sobre as prioridades do Estado e a destinação dos recursos públicos.
Para o deputado, a eleição de uma bancada parlamentar comprometida com o governo Lula é necessária para evitar que o programa escolhido nas urnas seja permanentemente condicionado pelas posições de uma maioria conservadora no Congresso.
“Não tem mais condição do presidente Lula ser contido, ser chantageado, ter impedida a realização do seu programa de governo eleito nas urnas por um Congresso de direita, por um Congresso que prioriza interesses absolutamente distintos da classe trabalhadora”, declarou.
Guilherme citou a demora na tramitação das propostas relacionadas ao fim da escala de trabalho 6 por 1 como exemplo das dificuldades enfrentadas por pautas ligadas aos trabalhadores.
O deputado também relacionou a eleição de 2026 ao enfrentamento da extrema direita. Em sua avaliação, a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro não eliminou a força política do bolsonarismo, que permanece organizada no Brasil e encontra correspondência em movimentos internacionais de extrema direita.
Luísa Cela e o desafio da representação feminina
Luísa Cela destacou a baixa presença de mulheres na representação política cearense e nacional. Segundo ela, o problema não se resume ao número de mulheres eleitas, mas envolve o compromisso político das representantes com direitos sociais e com o enfrentamento das desigualdades de gênero.
“A gente não pode eleger mulher só para ter uma mulher na foto. A gente não pode eleger uma mulher que sustenta a estrutura machista e misógena da política e do nosso país.”
A ex-secretária afirmou que a disputa de 2026 exigirá uma mobilização capaz de relacionar o voto parlamentar às decisões que interferem diretamente na execução das políticas públicas.
“Não existe implantação, implementação de políticas com o Congresso que jogue contra. A gente nunca vai conseguir avançar da forma como nós poderíamos e deveríamos pela riqueza que o Brasil tem.”
Luísa contou que costuma perguntar, durante encontros e plenárias, quantas pessoas se lembram em quem votaram para deputado federal na eleição anterior. Segundo ela, é frequente que parte significativa dos presentes não consiga responder.
Para a pré-candidata, esse distanciamento precisa ser enfrentado com diálogo direto e formação política sobre o papel do Parlamento.
“A gente tem feito um esforço gigantesco de estar nos territórios, de viajar, de conversar com as pessoas, de construir parcerias e de apresentar a importância desse debate sobre a qualidade do Congresso Nacional.”
Ela também destacou sua aproximação com movimentos sociais, citando diálogos e atividades com organizações como o Movimento Brasil Popular, o MST e o Levante Popular da Juventude.
A disputa política no Ceará
A situação eleitoral do Ceará também ocupou parte importante da entrevista. Guilherme Sampaio fez duras críticas à aproximação de Ciro Gomes com setores bolsonaristas e avaliou que o ex-governador passou a desempenhar um papel auxiliar na reorganização da direita no estado.
“Todo mundo sabe que o Ciro tá encangado com Bolsonaro. Todo mundo sabe disso. Ele sabe, os apoiadores sabem, os eleitores sabem e ele não está externando essa posição publicamente por uma questão de estratégia.”
Guilherme disse lamentar o caminho adotado pelo ex-governador, lembrando os cargos e disputas nacionais que marcaram sua trajetória.
“Eu lamento profundamente que alguém que foi quase tudo termine sendo quase nada na política.”
Para o deputado, o Ceará viveu, nas últimas duas décadas, uma continuidade administrativa que permitiu avanços em áreas como educação, saúde, infraestrutura hídrica e desenvolvimento econômico.
Guilherme afirmou que sua atuação durante a campanha deverá contribuir para apresentar à população os resultados acumulados durante esse período.
“Nessa campanha eu quero muito ajudar o povo cearense para a gente tomar consciência do que a gente foi capaz de produzir nesses anos, do que a gente foi capaz de sustentar nesses anos e do quanto isso é um patrimônio político de um povo.”
Segundo ele, a continuidade das políticas públicas depende de escolhas eleitorais que preservem os avanços alcançados e impeçam retrocessos.
Luísa: não é possível separar Ceará e Brasil
Luísa Cela afirmou que o desenvolvimento do Ceará não pode ser discutido de maneira isolada da conjuntura nacional. Para ela, projetos importantes realizados no estado dependem da cooperação entre os governos estadual e federal.
“O Ceará, para se desenvolver, precisa de parcerias com o governo federal. Ele precisa de investimentos do governo federal para grandes obras, para a qualificação, por exemplo, da saúde.”
Ela citou a implantação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica no Ceará e investimentos em infraestrutura como exemplos da importância dessa relação.
“Não existe essa fala de um pré-candidato a governo de um estado importante como é o Ceará não querer debater conjuntura nacional. Não dá para descolar esses dois universos como se não fossem parte de um mesmo todo.”
Luísa também criticou a aproximação de Ciro Gomes com o deputado federal André Fernandes e a tentativa, segundo sua análise, de evitar uma associação pública mais explícita com o bolsonarismo nacional.
“É muito conveniente estar com André Fernandes como um dos seus aliados, elogiando André Fernandes, inclusive, que não tem serviço prestado algum ao nosso estado, ao nosso país, e não querer se associar a Flávio Bolsonaro.”
A ex-secretária também relembrou o processo eleitoral de 2022, quando Isolda Cela, então governadora, não conseguiu disputar a reeleição após o rompimento da aliança entre PT e PDT.
Luísa afirmou ter acompanhado diretamente aquele período e recordou que Ciro Gomes, antes do rompimento político, fazia avaliações positivas sobre o governo de Camilo Santana.
“Eu acompanhei praticamente todas as últimas inaugurações, ali do aeroporto de Sobral, do MIS, do Centro Cultural do Cariri, até porque eram equipamentos de cultura e, na época, eu estava como secretária-executiva. E ouvi, não foi ninguém que me disse, as declarações que Ciro fazia direcionadas ao então governador Camilo.”
Ela também defendeu o fortalecimento das regras contra a violência política de gênero.
“Na medida em que a gente for acochando as legislações, é para inclusive ser impedido de se ter candidaturas de pessoas que têm condenações por violência política de gênero, porque isso fala também sobre a sua conduta.”
Cultura como política de Estado
As trajetórias de Guilherme Sampaio e Luísa Cela se encontram especialmente na área cultural. Durante o programa, os dois apresentaram propostas e prioridades para o setor.
Guilherme destacou a criação da Empresa Cearense de Audiovisual e afirmou que um dos desafios imediatos é avançar em sua implantação.
“Nós aprovamos, num trabalho forte da ex-secretária Luísa e meu na Assembleia Legislativa e do movimento do audiovisual no Ceará, a Empresa Cearense de Audiovisual. E nós temos a tarefa de, ainda agora nesse ciclo final do governo do governador Elmano, iniciar a sua implementação.”
O deputado também chamou atenção para a necessidade de descentralizar a infraestrutura cultural do Ceará. Segundo ele, Fortaleza concentra grande parte dos equipamentos, enquanto algumas regiões ainda não contam com estruturas permanentes capazes de organizar políticas culturais locais.
Guilherme citou a construção de 15 CEUs da Cultura, em parceria com o governo federal, e defendeu uma avaliação territorial sobre a implantação de equipamentos estaduais em regiões que ainda apresentam carências de infraestrutura.
Outro eixo defendido pelo deputado é uma integração maior entre educação e cultura. Ele destacou a expansão das escolas de tempo integral e afirmou que esse processo abre espaço para um projeto consistente de educação artística.
“Ceará vai ser o primeiro do país a universalizar o tempo integral no ensino médio. Isso é uma oportunidade de ouro para a gente integrar mais essas políticas e desenvolver uma proposta de educação em artes nas escolas de tempo integral.”
Guilherme também defendeu o fortalecimento dos sistemas municipais e do Sistema Estadual de Cultura, ampliando a cooperação entre Estado e municípios.
“Toda política pública requer alguma infraestrutura”, afirmou.
Financiamento permanente e proteção social para trabalhadores da cultura
Luísa Cela apontou como prioridade nacional a consolidação de um financiamento permanente para a cultura.
Segundo ela, o setor conquistou um investimento anual de R$ 3 bilhões destinado a estados e municípios, mas o mecanismo atualmente tem prazo para terminar em 2028.
“A gente precisa transformar isso em algo permanente, um financiamento permanente no Sistema Nacional de Cultura.”
A ex-secretária também defendeu a regulamentação das profissões culturais e a criação de mecanismos de seguridade e previdência para artistas e trabalhadores do setor.
“Na cultura tem um debate também muito fundamental, que é o de regulamentação das profissões e de construção de um sistema de seguridade e previdência pros trabalhadores e trabalhadoras da cultura, que por vezes dedicam sua vida à criação, à imaginação, a nos permitir o contato com essa área incrível do conhecimento.”
Luísa afirmou que muitos trabalhadores culturais chegam à velhice ou enfrentam situações de doença e violência sem proteção adequada. Para ela, a política cultural precisa incorporar direitos trabalhistas e sociais de forma permanente.
Soberania e controle das riquezas nacionais
Na parte final da entrevista, Luísa relacionou sua pré-candidatura à defesa da soberania nacional e ao controle público de áreas estratégicas.
“A gente está aqui num programa que tem a assinatura também do Coletivo das Estatais, que defende que as áreas estratégicas precisam ser comandadas pelo Estado brasileiro.”
Ela mencionou o combate às privatizações e a discussão sobre minerais estratégicos, defendendo que as riquezas brasileiras sejam utilizadas para reduzir desigualdades e ampliar direitos.
“A riqueza do povo brasileiro é do povo brasileiro e precisa estar a serviço da melhoria da qualidade de vida do nosso povo, da redução das desigualdades e da garantia de direito para todas as pessoas desse nosso Brasil imenso.”
Luísa também relacionou desenvolvimento econômico à produção científica e tecnológica, citando novamente a instalação do ITA no Ceará.
“A nossa capacidade também de não perder nossas inteligências e não vender nossas riquezas. Eu acho que esse é um debate também fundamental.”
Para a ex-secretária, as eleições de 2026 envolvem uma disputa sobre os rumos do desenvolvimento brasileiro e a capacidade do país de preservar seus recursos, fortalecer políticas públicas e manter relações internacionais baseadas no respeito à soberania dos países.
Ao encerrar sua participação, Luísa voltou ao tema que atravessou toda a entrevista: a necessidade de ampliar a participação política e modificar a composição do Congresso.
“Estou muito animada de que o Brasil e o Ceará seguirão juntos, com Lula, com Elmano e com um bom time que espero que eu e Guilherme possamos também estar contribuindo com essa luta e representando com muita honra e muita responsabilidade o nosso estado.”
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