Atitude Popular

“A gente precisa reparar sobretudo no que não está sendo dito”

Debate no Trilhas da Soberania analisa guerra híbrida, disputa geopolítica e ofensiva sobre a América Latina em meio à escalada global de tensões

Transmitido pelo canal Código Aberto, o programa Trilhas da Soberania promoveu, na quarta-feira, 6 de maio, um longo debate sobre guerra híbrida, soberania informacional, disputa narrativa e o papel estratégico da América Latina na reorganização do cenário geopolítico internacional. A convidada da edição foi a consultora em comunicação Jéssica Vianna, que participou de uma conversa marcada por críticas ao imperialismo estadunidense, à dependência tecnológica brasileira e à crescente militarização da região.

A transmissão contou ainda com comentários de Ludmila Cindra, do pesquisador da UFF e editor do Código Aberto Reynaldo Aragon, além da apresentação de Heitor Aragon.

O centro da discussão foi a tese de que a América Latina vive um novo ciclo de disputa estratégica global, não mais baseado apenas em intervenções militares clássicas, mas em mecanismos sofisticados de guerra híbrida, manipulação cognitiva, lawfare, vigilância digital e pressão econômica.

Logo no início da conversa, Reynaldo Aragon contextualizou o momento internacional afirmando que os Estados Unidos passaram a tratar a América Latina como prioridade absoluta dentro de sua estratégia de sobrevivência hegemônica. Segundo ele, a região voltou a ser vista como “quintal estratégico” em meio à crise global de poder estadunidense.

A análise ganhou força após o anúncio de medidas recentes do governo de Donald Trump envolvendo a classificação de organizações ligadas ao narcotráfico como entidades terroristas e o aprofundamento da presença militar norte-americana em países latino-americanos.

Para Jéssica Vianna, os acontecimentos recentes não podem ser lidos como fatos isolados.

“A América Latina já está claramente colocada como foco prioritário da disputa dos Estados Unidos. O foco agora é aqui.”

Ela argumentou que o conceito de guerra híbrida ainda é tratado com superficialidade mesmo por setores progressistas.

“Tem gente que acha exagero chamar isso de guerra. Mas o Departamento de Estado dos Estados Unidos hoje funciona como um Departamento de Guerra.”

Ao longo da entrevista, Jéssica descreveu a guerra híbrida como uma combinação de múltiplas dimensões simultâneas. Segundo ela, o conflito contemporâneo envolve disputa narrativa, cyber guerra, pressão econômica, lawfare e controle logístico.

A comunicadora destacou que o objetivo central dos Estados Unidos seria recuperar o controle de cadeias produtivas estratégicas perdidas durante o processo de globalização.

“Os Estados Unidos perderam controle sobre partes essenciais da cadeia logística global e agora tentam recuperar isso.”

A entrevistada afirmou que a disputa pelas terras raras e minerais críticos passou a ocupar posição central dentro da reorganização geopolítica global, especialmente após o avanço chinês sobre cadeias industriais de alta tecnologia.

Durante o debate, Reynaldo Aragon relacionou essa disputa à recente aprovação do marco regulatório brasileiro para minerais críticos e à pressão norte-americana sobre corredores logísticos latino-americanos.

A conversa também abordou a crescente tensão envolvendo infraestrutura portuária, ferrovias e corredores bioceânicos ligados ao avanço da China no continente.

Segundo Jéssica, a disputa não ocorre apenas no plano militar, mas sobretudo na infraestrutura de circulação de mercadorias, dados e energia.

Ela chamou atenção para privatizações de portos e aeroportos brasileiros e para o risco de transferência de controle logístico para grupos internacionais associados ao capital financeiro e a sistemas privados de vigilância.

“A gente está terceirizando infraestrutura estratégica sem perceber o tamanho do problema.”

A analista também criticou a dependência tecnológica brasileira de plataformas estrangeiras e mencionou empresas de inteligência e vigilância digital utilizadas em aeroportos, sistemas públicos e estruturas logísticas.

Entre os temas mais discutidos esteve o chamado Cloud Act, legislação norte-americana que permite ao governo dos Estados Unidos acessar dados armazenados por empresas estadunidenses em qualquer parte do mundo.

Segundo Jéssica Vianna, isso cria uma situação de vulnerabilidade estrutural para países periféricos.

“Os dados dos brasileiros estão em plataformas controladas por empresas dos Estados Unidos. Isso é soberania.”

A entrevistada também fez críticas ao papel das redes sociais e ao ritmo acelerado da produção informacional contemporânea, que, segundo ela, dificulta análises profundas.

“A gente vive num fluxo tão acelerado de informação que perde capacidade de parar, observar e entender o que realmente importa.”

Ludmila Cindra reforçou a preocupação com a manipulação da opinião pública e afirmou que parte da mídia tradicional opera sob influência direta de interesses econômicos.

“As opiniões dos grandes meios de comunicação são muitas vezes fomentadas pelo capital.”

Outro eixo central da conversa foi o lawfare. Os participantes discutiram o uso de mecanismos jurídicos como ferramenta de desestabilização política e econômica em países latino-americanos.

O caso de Julian Assange foi citado como exemplo de perseguição internacional contra figuras que desafiam estruturas de poder informacional.

Jéssica Vianna defendeu que os setores progressistas precisam aprender a disputar juridicamente o terreno da guerra híbrida.

“A gente precisa aprender a lutar essa guerra jurídica.”

A entrevistada também criticou a relação diplomática brasileira com Israel e defendeu o rompimento de acordos comerciais e institucionais com empresas associadas ao genocídio palestino.

Durante a conversa, ela citou a prisão do ativista brasileiro Thiago Ávila por forças israelenses como um episódio grave ignorado pelo Itamaraty.

“Isso sozinho já deveria ser motivo para romper relações diplomáticas.”

O debate entrou ainda na questão energética, nas mudanças climáticas e na vulnerabilidade brasileira diante de futuras crises globais de abastecimento.

Jéssica criticou a ausência de planejamento estratégico em setores considerados essenciais.

“O Brasil deveria estar discutindo soberania energética, infraestrutura, minerais críticos e defesa tecnológica como política de Estado.”

Ao comentar a relação do governo brasileiro com a China, a entrevistada afirmou que o país asiático opera com planejamento estratégico de longo prazo, articulando ciência, tecnologia, logística e soberania.

A conversa também passou pelo papel das bets, das criptomoedas e da lavagem internacional de dinheiro operada por facções criminosas e redes transnacionais.

Segundo Jéssica, o debate sobre segurança pública no Brasil frequentemente ignora dimensões geopolíticas fundamentais.

“A esquerda precisa aprender a falar de segurança pública sem entregar a narrativa inteira para os Estados Unidos.”

Nos momentos finais da transmissão, os participantes discutiram o futuro político brasileiro diante do avanço da extrema direita, da militarização regional e da crescente disputa entre Estados Unidos, China e Israel sobre a América Latina.

Reynaldo Aragon afirmou que o Brasil se transformou num dos maiores laboratórios contemporâneos da guerra híbrida.

Já Ludmila Cindra destacou a necessidade de recuperar capacidade de planejamento nacional e confiança nas capacidades produtivas brasileiras.

“Nós temos riqueza, tecnologia e capacidade humana. O que falta é soberania.”

Apesar do cenário descrito como extremamente grave, a conversa terminou com um tom de mobilização política e defesa da integração latino-americana.

“A gente precisa começar sonhando”, afirmou Ludmila.

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