Atitude Popular

“A gente tá falando de vidas de pessoas da periferia”

Moradores do Jangurussu denunciam risco de rompimento de barragem, alagamentos provocados por aterro e ausência de resposta concreta do poder público em Fortaleza

Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido nesta quinta-feira, 9 de abril, os convidados David Devir, coordenador do movimento Aflorar e artista, e Valda Honorato, moradora do Jangurussu, denunciaram o agravamento de uma crise que envolve o açude do bairro, o acúmulo de água próximo às residências, o impacto de um aterro associado a um empreendimento imobiliário e o temor de rompimento da barragem.

Ao longo da conversa conduzida por Luiz Regadas, os dois relataram que a situação não é nova, mas teria se agravado com a alteração da drenagem da área e com a falta de manutenção estrutural no açude. A denúncia central é de que a combinação entre barragem antiga, vegetação sobre a estrutura, água acumulada em área inadequada e ausência de intervenção efetiva do poder público criou um cenário de risco para dezenas de famílias.

Valda Honorato afirmou que o problema atinge não apenas o açude, mas todo o entorno. Segundo ela, a situação da barragem é antiga e há muito tempo não passa por uma intervenção adequada. “O problema do açude, ele sempre teve”, disse. “Ele só teve somente um reparo nesses anos todinho.” Na avaliação da moradora, a estrutura hoje apresenta riscos concretos. “A gente tem risco dele romper e acabar acontecendo uma tragédia.”

A moradora também relacionou o agravamento dos alagamentos ao aterro realizado para a construção de apartamentos por uma empresa privada. “O aterro dela é muito grande e acaba que acumulou uma água ao redor dela”, afirmou. Segundo Valda, essa água vem invadindo as casas em dias de chuva, mesmo quando o volume não é elevado. “Quando chove pode ser pouco como for, acaba que entrando nas nossas casas.”

David Devir reforçou a crítica à ausência de diálogo prévio com a comunidade e disse que os moradores esperavam ter sido ouvidos antes da execução de uma obra com tamanho impacto territorial. “A gente esperava que tivesse tido um diálogo desde o início com a população e esse diálogo não veio”, declarou. Para ele, o que existe é “um certo desrespeito” com a população local, já que a intervenção estaria trazendo prejuízos concretos ao cotidiano dos moradores.

Segundo David, o aterramento produziu um alagamento que passou a comprometer uma parte da estrutura da barragem. “Esse alargamento tá molhando, tá deixando submerso um lado do açude, da barragem, que não é para tá molhado”, afirmou. Na avaliação dele, a permanência dessa água em um trecho que deveria permanecer firme pode fragilizar ainda mais a contenção. “Essa água ela acaba amolecendo um lado que não é para tá firme.”

Ao falar sobre a gravidade do quadro, David foi enfático. “A gente tá falando de vidas, de pessoas”, disse. Ele lembrou que a barragem tem mais de um século e já rompeu nos anos 1980, quando havia menos moradias na área. Hoje, segundo ele, a realidade é outra. “Agora a gente tem grandes casas, comunidades ao redor e caso haja um rompimento, pode ser que vidas sejam ceifadas.” Em seguida, reforçou: “A gente tá falando de vidas de pessoas da periferia.”

Embora tenha dito ser difícil mensurar com exatidão o número de pessoas que podem ser atingidas, David informou que ao menos 14 famílias estariam diretamente afetadas pela água acumulada nas proximidades. Mas o impacto, segundo ele, vai além. O risco se estenderia a moradores de chácaras, sítios e áreas situadas ao longo do possível curso da água em caso de rompimento, incluindo trechos próximos ao São Cristóvão 2 e ao João Paulo. “São muitas pessoas”, resumiu.

No relato de Valda, o medo virou parte da rotina. “A gente sente muito triste”, disse. “A gente passa o dia todo com aquela preocupação, será que vai chover?” Ela contou que moradores improvisaram barreiras nas portas para tentar conter a água, mas a medida não resolve o problema. “Não é o suficiente. Sempre entra água, sobe no banheiro, sobe na privada, sobe por todo canto.”

A moradora afirmou ainda que não existe, até onde a comunidade sabe, qualquer plano de evacuação ou resposta organizada para um eventual agravamento do problema. “Não existe nada, nunca existiu”, declarou. Segundo ela, apesar de visitas de órgãos públicos e promessas de retorno, os moradores seguem sem resposta concreta. “Já teve lá Defesa Civil, já teve muita gente, mas de concreto a gente não tem nada.”

David informou que, diante da demora do poder público, moradores, ativistas e profissionais de diferentes áreas se reuniram para organizar uma rede de acompanhamento e pressão social. Segundo ele, foi criado o grupo SOS Jangurussu, que reúne cerca de 100 moradores e pessoas ligadas ao território. “A gente se juntou, criou o grupo SOS Jangurussu e nesse grupo a gente tá alimentando com informações”, disse. Além de reunir denúncias e organizar discussões, o grupo acompanha os diálogos com as secretarias e órgãos de controle.

O coordenador do Aflorar relatou que o Ministério Público Estadual teria intimado secretarias a apresentarem resposta até o dia 14, prazo que vem sendo aguardado com expectativa pela comunidade. Enquanto isso, segundo ele, o movimento social vem assumindo tarefas que deveriam estar a cargo do poder público. “A gente, apesar de sermos movimento social, tá meio que prestando um serviço que deveria ser da própria prefeitura e do estado”, afirmou. Segundo David, a demanda inclui inclusive acolhimento de pessoas abaladas emocionalmente pelo medo constante. “A gente tá recebendo muita ligação de moradores que não estão dormindo direito.”

A crítica de abandono também apareceu de forma contundente no depoimento de Valda. Para ela, o Jangurussu segue sendo tratado com descaso histórico, marcado por preconceito territorial associado ao antigo aterro sanitário da região. “Eu particularmente sinto sim. Eu sinto que a gente é abandonado”, afirmou. Ela citou pedidos de limpeza urbana feitos ainda em outubro de 2025, repetidos em janeiro deste ano, sem atendimento até agora. “Se realmente fosse Aldeota, Meireles, com certeza isso já teria sido feito.”

David concordou com a avaliação e disse acreditar que ainda há um estigma em relação ao bairro por ele ter abrigado um antigo lixão e por estar situado em uma área periférica. “A gente acredita que existe ainda um estigma por ser lá um antigo lixão, por ser um bairro periférico”, disse. Ao mesmo tempo, ele afirmou que a crise também abriu espaço para uma reação comunitária baseada em autoestima e defesa do território.

Segundo ele, a mobilização em torno do açude começou antes mesmo da atual emergência, a partir de ações voltadas ao bem-estar e à convivência comunitária. David relatou que levou moradoras ao açude como parte de uma experiência para pessoas com ansiedade e depressão e que, a partir daí, surgiu um fórum para discutir limpeza, revitalização e usos possíveis da área. Uma das ideias em debate era transformar parte da área verde em uma ecopraça. Com o agravamento da situação, porém, a pauta da revitalização foi atropelada pela urgência da proteção à vida.

Ao comentar imagens exibidas no programa, David destacou que o problema reúne “muitas camadas”. Entre elas, apontou o aterramento, a água acumulada, a idade avançada da barragem, a presença de árvores cujas raízes podem abrir fissuras na estrutura e o excesso de aguapés, que dificultariam o fluxo da água em caso de chuvas intensas. “Se cair uma água de 24 horas, a água ela tem que cair no sangrador. Se você tem um tampão de aguapé, a água não flui o suficiente”, explicou. Nessa hipótese, segundo ele, pode haver transbordamento e rompimento.

Valda também chamou atenção para o risco representado pelas árvores crescidas na barreira do açude. “Quando elas caem, acabam fazendo buracos”, disse. Como a barreira é estreita, acrescentou, o medo é que uma dessas ocorrências abra caminho para um rompimento. “Esse é o nosso medo.”

Apesar do cenário alarmante, David afirmou que o açude também se tornou um espaço importante de convivência comunitária, circulação entre bairros e preservação ambiental. Ele disse que o local vem sendo usado por famílias, pescadores e moradores de diferentes comunidades, além de manter uma fauna e flora raras em áreas urbanas mais centrais. “Lá tá se tornando um espaço de circulação interbairro”, afirmou. Mas alertou que isso não elimina a urgência da intervenção. “Nós estamos de olho na questão do crime ambiental. Isso não vai passar.”

Na parte final da entrevista, Valda fez um apelo para que a denúncia não seja esquecida. “Se a gente deixar o assunto morrer, eu tenho certeza que vão esquecer”, disse. Segundo ela, o açude foi abandonado ao longo de décadas e hoje a resposta precisa vir antes de qualquer tragédia. “Eu acredito que é muito melhor abraçar a nossa causa do que abraçar a nossa dor depois.”

Em tom de cobrança direta, a moradora questionou o que ainda falta para que providências sejam tomadas. “Já foi vários lá, já falou do problema, deu laudo, tem problema. E agora o que que tá faltando?”, perguntou. Em seguida, resumiu o sentimento de revolta e impotência da comunidade diante da demora das autoridades. “Vão deixar para resolver quando romper? Quando levar todas as famílias, destruir tudo, acabar com a nossa casa, morrer alguém?”

David encerrou pedindo uma ação mais ampla do poder público, com reestruturação da barragem, canalização da água acumulada, intervenção no esgoto, melhorias urbanas e garantia de condições dignas para a comunidade. “O que a gente tá pedindo é o básico do básico”, afirmou. “Para que a gente possa construir uma comunidade feliz, uma comunidade tranquila, uma comunidade em que as pessoas possam estar vivendo bem.”

A entrevista transformou em denúncia pública aquilo que os moradores descrevem como uma crise anunciada. O alerta lançado no estúdio da Atitude Popular é claro: o problema já extrapolou o limite do transtorno cotidiano e passou a envolver risco real à segurança, à moradia e à vida de uma população que cobra, com urgência, respostas concretas do poder público.

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