Atitude Popular

“A guerra não é feita para se vencer, mas para se ganhar com ela”

Em entrevista ao Café com Democracia, o professor Nelson Campos analisa os interesses econômicos por trás dos conflitos armados e critica o papel das grandes potências e da indústria bélica na perpetuação das guerras

A lógica das guerras contemporâneas está longe de ser guiada por ideais de vitória, honra ou defesa da soberania. Essa é a principal tese defendida pelo professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas na edição de segunda-feira (23).

Logo no início da conversa, o professor sintetiza a perspectiva que orienta sua análise: “quem tem interesse em guerras fica fora delas”. Para ele, os conflitos armados ao longo da história são, em sua essência, movidos por interesses econômicos e territoriais, e não por princípios humanitários. “Eles não vão participar, eles financiam a guerra”, afirmou.

Segundo Nelson Campos, a indústria bélica ocupa papel central nesse processo. Ele a define como uma das atividades mais lucrativas do mundo, ao lado de mercados ilegais como o tráfico de drogas, ambos sustentados por dinâmicas que operam a partir da destruição da vida. “São instrumentos da morte para combater a vida”, disse.

A crítica se amplia quando o professor aborda o funcionamento do sistema econômico. Para ele, o capitalismo não estabelece limites éticos quando o objetivo é o lucro. “O capitalismo não tem ética. Capitalismo tem um objetivo que é lucrar. E para lucrar ele faz qualquer tipo de negócio, inclusive guerras”, declarou. Ao citar os gastos militares dos Estados Unidos, ele questiona a lógica de destruição diante de necessidades sociais urgentes: “Quanta gente poderia viver com dignidade com todo esse dinheiro?”

Ao longo da entrevista, Nelson Campos percorre diferentes momentos históricos para sustentar sua análise. Ao comentar a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, ele destaca que, apesar do discurso moral sobre a abolição da escravidão, o conflito também estava ligado à necessidade de ampliar o mercado consumidor interno. “Não há humanitarismo”, afirmou, reforçando que interesses econômicos foram determinantes.

A mesma lógica, segundo ele, se repete na história brasileira e latino-americana. Ao abordar a Guerra do Paraguai, o professor aponta o papel do financiamento externo, especialmente por parte da Inglaterra, como fator central. “Quem ganhou com essa guerra? Os banqueiros ingleses, que financiaram a guerra e ficaram fora delas”, disse, ao destacar que o resultado foi destruição e endividamento para os países envolvidos.

Para Nelson Campos, a guerra deve ser compreendida como “a manifestação da estupidez da humanidade”, mas uma estupidez que gera lucro para determinados setores. Essa combinação, segundo ele, explica a recorrência dos conflitos ao longo da história.

A análise também se estende ao cenário contemporâneo. O professor critica o papel das grandes potências, especialmente os Estados Unidos, na condução de conflitos e na manutenção de tensões geopolíticas. Para ele, há uma relação direta entre poder econômico e poder político, que se expressa na capacidade de influenciar ou intervir em outros países.

Ao comentar episódios recentes, Nelson Campos aponta a existência de interesses financeiros associados a decisões militares, mencionando operações envolvendo o setor petrolífero. Na avaliação dele, essas dinâmicas revelam o uso de informação privilegiada e a transformação da guerra em oportunidade de acumulação de capital.

O professor também alerta para o risco de novas intervenções em países que buscam caminhos autônomos. Ele cita o caso de Cuba como exemplo de pressão econômica e política contínua, destacando o bloqueio imposto ao país e suas consequências. Para ele, qualquer governo que contrarie interesses de grandes potências pode se tornar alvo de ações diretas ou indiretas.

No plano interno, a entrevista assume tom crítico em relação à política brasileira. Nelson Campos questiona o apoio popular a lideranças que, segundo ele, não apresentam compromissos com valores democráticos ou sociais. Ao tratar do tema, ele afirma que parte da sociedade é levada por desinformação e alienação política.

A discussão também aborda o papel da extrema direita no cenário global. O professor associa a ascensão de governos autoritários a contextos de crise e insatisfação social, traçando paralelos históricos com o período entre as duas guerras mundiais. Para ele, essas forças políticas tendem a aprofundar desigualdades e favorecer interesses econômicos concentrados.

Ao final da entrevista, Nelson Campos rejeita a ideia de neutralidade diante desse cenário. Para ele, assumir uma posição em defesa da democracia e dos interesses populares é uma necessidade. “Quando você fala em neutralidade, a pessoa não assumir a posição de que você está em defesa da democracia”, afirmou, criticando a atuação de setores da mídia que, segundo ele, distorcem informações e constroem narrativas equivocadas.

A entrevista evidencia uma leitura crítica das guerras como fenômenos estruturais do capitalismo contemporâneo, nos quais a destruição e a morte se convertem em oportunidades de lucro e expansão de poder. Mais do que episódios isolados, os conflitos aparecem, na análise do professor, como parte de uma engrenagem que articula economia, política e dominação global.

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