Jornalista analisa por que a queda dos indicadores de violência ainda não melhorou a avaliação do Governo do Ceará e alerta para o uso eleitoral do medo pela oposição
Da Redação
A redução dos homicídios, roubos e furtos no Ceará ainda não foi suficiente para alterar a percepção de insegurança de uma parcela expressiva da população nem para fortalecer eleitoralmente o governador Elmano de Freitas. Para o jornalista e pesquisador Ricardo Moura, do Escrivaninha.blog, esse descompasso revela problemas na comunicação do governo, uma disputa política em torno dos resultados alcançados e o impacto persistente das facções criminosas no imaginário dos cearenses.
A análise foi apresentada nesta segunda-feira, durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, conduzido por Sara Goes e com comentários de Sandra Helena. Moura discutiu os dados recentes da segurança pública, o desempenho de Elmano nas pesquisas eleitorais e a estratégia adotada pela oposição para manter o medo no centro da campanha estadual.
Segundo o jornalista, o Governo do Ceará apresenta resultados que, em outras circunstâncias, poderiam ocupar posição central na comunicação eleitoral. Os indicadores mostram quedas sucessivas na violência letal e também nos crimes contra o patrimônio. Apesar disso, Elmano ainda encontra dificuldades para transformar essas informações em reconhecimento político.
“Esse era o tipo de manchete que todo governante gostaria. A gente tem a figura do Elmano com essa pauta, com esses bons resultados para entregar numa área que é vital e, ao mesmo tempo, ele não consegue engrenar”, avaliou.
Ricardo Moura chamou atenção para a comparação entre levantamentos realizados pelo mesmo instituto. De acordo com ele, embora a conjuntura tenha mudado com o início formal da campanha, a presença do Presidente Lula no Ceará e a realização do debate eleitoral da Band, a oscilação de Elmano no Datafolha foi pequena.
O jornalista ponderou que a distância registrada entre Elmano e Ciro Gomes pode não corresponder integralmente ao cenário encontrado nas ruas. Ainda assim, considera que o governador iniciou a campanha em uma situação mais difícil do que aquela esperada por sua base política.
“Eu acho que essa distância, em algum momento, começa a diminuir um pouco. Agora, eu não sei o ritmo dessa diminuição e a velocidade dessa diminuição. Mas eu não vejo que essa distância vá aumentar”, afirmou.
Vinte anos do mesmo grupo político
Um dos fatores apontados por Moura é o desgaste decorrente da permanência do mesmo grupo à frente do Governo do Ceará por aproximadamente duas décadas. O ciclo teve início com a eleição de Cid Gomes, prosseguiu durante os dois mandatos de Camilo Santana e chegou à atual gestão de Elmano.
Na avaliação do jornalista, existe entre parte dos eleitores uma demanda por renovação. Esse sentimento não se restringe à segurança pública e interfere na maneira como as realizações do governo são recebidas.
“A gente vive uma fadiga do grupo político que nos governa. Se a gente for traçar a linhagem das pessoas que estão na chapa, a gente remonta há 20 anos. De alguma forma, isso gera um certo cansaço”, explicou.
O desgaste também estaria presente no interior da própria aliança governista. Moura lembrou as dificuldades enfrentadas para a composição da chapa e as resistências que acompanharam as definições tomadas nos momentos finais do calendário eleitoral.
“Me parece que esse grupo político está cansado até deles mesmos, porque você vê a dificuldade que é juntar as pessoas no palanque e a dificuldade de montar essa chapa. Essa chapa foi montada na última hora, e a gente sabe muito bem que havia muitas resistências”, disse.
Essa vontade de mudança, segundo ele, não significa necessariamente uma adesão consolidada a Ciro Gomes. Uma parcela numerosa do eleitorado permanece indecisa e poderá avaliar as candidaturas durante a propaganda eleitoral. A campanha governista, porém, precisará apresentar argumentos que ultrapassem a ligação de Elmano com Lula e Camilo.
Elmano ainda precisa apresentar uma marca própria
Outro problema destacado pelo entrevistado é a baixa exposição do governador como protagonista da própria administração. Durante boa parte do mandato, realizações estaduais apareceram associadas ao Presidente Lula e ao ministro da Educação, Camilo Santana. Quando surgiram crises ou notícias negativas, Elmano teria ficado mais diretamente identificado com o desgaste.
“Quando as coisas apareciam como positivas, você tinha sempre a figura de Lula e Camilo. Quando a bronca surgia, o negativo vinha, e o Elmano ficava muito isolado. Elmano sempre foi visto pela população como o portador do ônus, o portador da má notícia”, analisou.
Nos últimos anos, o chefe da Casa Civil, Chagas Vieira, assumiu parte importante dos embates públicos e da defesa política do governo. Essa estratégia permitiu responder aos adversários, mas também reduziu as oportunidades de Elmano se apresentar diretamente aos cearenses.
“O grau de desconhecimento das pessoas em relação ao Elmano ainda é muito grande, quatro anos depois de ele ser eleito governador. Isso também pode ser algo bom, no sentido de que a campanha pode apresentar um pouco do Elmano, reapresentá-lo às pessoas”, acrescentou.
Para Moura, o governador demonstrou no debate da Band que consegue se comunicar melhor em situações de confronto político. Elmano apareceu mais seguro, apresentou números da gestão e respondeu às provocações feitas pelo adversário.
O desafio, agora, é transformar esse desempenho em uma presença pública permanente e atribuir ao governador a responsabilidade pelos resultados de sua administração.
“Se a gente perguntar qual é a marca do Governo Elmano, o que ele trouxe dele e colocou como marca da política, a gente tem uma dificuldade. A comunicação política tem que ser muito simples, tem que ser algo que você consiga perceber”, argumentou.
Moura citou iniciativas de administrações anteriores, como Ronda do Quarteirão e Ceará Pacífico, que se tornaram facilmente identificáveis. Para ele, a atual gestão realizou numerosas entregas, mas ainda não conseguiu condensá-las em uma mensagem compreensível para quem acompanha a política apenas ocasionalmente.
Facções ocupam o centro da percepção pública
A presença das facções criminosas é o elemento que mais interfere na avaliação da segurança pública, segundo Ricardo Moura. Mesmo quando homicídios e roubos diminuem, episódios associados ao crime organizado continuam produzindo uma sensação de perda do controle territorial.
“A ideia da facção anula qualquer ação positiva do governo. Esse recurso retórico de usar a facção como um elemento do imaginário que desafia o governo, que tira os créditos das ações do governo, ainda é um recurso muito forte”, afirmou.
O pesquisador explicou que a percepção da violência não muda no mesmo ritmo dos indicadores oficiais. Os resultados precisam circular entre pessoas mais envolvidas no debate político e, posteriormente, alcançar grupos que consomem menos informações sobre o cotidiano da administração pública.
“Talvez o tempo de redução e o tempo de exposição do Elmano sejam pequenos para que haja uma mudança de percepção. A percepção ocorre em círculos. Você tem um círculo menor, de pessoas mais engajadas no debate político, e isso vai se espalhando até chegar aos círculos mais largos”, disse.
Nesse intervalo, a oposição busca associar qualquer episódio criminal à ideia de que o Estado teria perdido autoridade. Casos locais, vídeos de violência e denúncias ainda não confirmadas são inseridos na campanha para sustentar uma situação permanente de medo.
Moura ressaltou que uma informação pode causar impacto mesmo quando é desmentida posteriormente. A circulação inicial de um vídeo costuma alcançar um público maior do que a correção e permanece como referência emocional para parte dos espectadores.
“A oposição estimula o medo social e o pânico moral. Ela vai ao local onde as coisas acontecem, muitas vezes com uma informação que depois é desmentida, mas só aquele vídeo circular já causa um impacto”, observou.
Episódios como a descoberta de uma plantação de maconha em Acopiara podem ser incorporados a esse tipo de narrativa. Um fato específico deixa de ser apresentado apenas como uma ocorrência policial e passa a funcionar como suposta confirmação de que o crime organizado domina amplas áreas do Ceará.
“Esse resultado está em disputa”
Na interpretação de Ricardo Moura, o governo ainda não assumiu politicamente a autoria da redução dos índices de violência. Sem essa associação, os números ficam disponíveis para outras explicações, inclusive a tese de que a queda dos homicídios seria consequência de acordos ou reorganizações internas das facções.
“Esse resultado está solto, está em disputa. Esse resultado está na conta das facções dentro do imaginário das pessoas. Então, ele tem que pegar esse resultado, em primeiro lugar, e trazer para si”, afirmou.
O jornalista defendeu que Elmano se apresente como a autoridade responsável pelas políticas que contribuíram para a diminuição dos crimes. Para isso, o governador precisaria explicar as medidas adotadas, demonstrar seus efeitos e dialogar diretamente com a insegurança vivida nos bairros e municípios.
“Quando você pega que os homicídios caíram 50% de um ano para o outro, resta fazer o quê? Resta ir para a pirotecnia, resta ir para o campo emocional”, disse Moura, ao analisar a estratégia dos adversários.
A redução estatística não elimina ocorrências graves, nem significa que o problema das facções tenha sido resolvido. O ponto levantado pelo entrevistado é que o debate eleitoral precisa considerar simultaneamente os avanços registrados e os limites das políticas públicas, sem transformar cada crime em uma demonstração de colapso generalizado.
A estética do medo
Moura também analisou a produção audiovisual utilizada por Ciro Gomes em visitas a locais atingidos pela violência. Os vídeos recorrem a imagens fortes e a uma linguagem semelhante à adotada por políticos como André Fernandes e pelo ex-vereador carioca Gabriel Monteiro.
“Essa estética é muito eficaz porque ativa o medo. A gente vinha de uma situação na qual Fortaleza era uma das principais capitais violentas. Maranguape era a cidade mais violenta do Brasil até pouco tempo. A gente tinha uma base material para o medo, e esse recurso era muito simples de acionar”, explicou.
O medo, segundo ele, pode ser estimulado rapidamente, mas exige um processo mais longo para ser reduzido. Mesmo quando a realidade apresenta mudanças, experiências anteriores e notícias de grande repercussão continuam influenciando a percepção dos moradores.
Essa estratégia desloca o debate das políticas concretas para imagens capazes de provocar respostas imediatas. Os dados sobre saúde, crescimento econômico, emprego e redução da criminalidade perdem espaço para conteúdos que sugerem uma ameaça permanente.
“As eleições hoje estão discutindo imaginários que não necessariamente possuem ancoragem em coisas concretas. A gente está discutindo questões que muitas vezes não estão presentes na vida das pessoas e que ganham uma dimensão tão grande que se tornam mais importantes do que o dia a dia e o sustento”, afirmou.
Na avaliação de Moura, a campanha governista precisa impedir que a discussão pública seja inteiramente conduzida pelos temas escolhidos pela oposição. Isso exige recuperar os problemas cotidianos, apresentar os resultados da gestão e reconhecer as dificuldades que permanecem.
Crime organizado também desafia governos aliados de Ciro
O entrevistado contestou a ideia de que o Ceará seria uma exceção nacional na presença de organizações criminosas. Ele citou São Paulo e Rio de Janeiro, estados governados por grupos aliados à candidatura de Ciro Gomes, onde o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho mantêm atuação antiga e extensa.
“São Paulo sofre com o PCC há 30 anos. O Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, fez uma plataforma nacional. São estados governados por políticos da aliança do Ciro Gomes”, ressaltou.
Para Moura, a afirmação de que “o crime manda” simplifica relações complexas entre organizações criminosas, territórios e agentes públicos. Há comunidades submetidas a diferentes formas de controle armado, mas também existe resistência institucional, intervenção estatal e disputa por esses espaços.
“O crime não manda em canto nenhum. O crime manda em espaços estreitos nos quais ele consegue governar. Há mais uma governança e uma interação entre um lado e outro, com muita porosidade nisso. A gente tem agentes estatais envolvidos no crime e uma série de questões muito mais complexas”, explicou.
Esse diagnóstico não diminui a gravidade do problema. Ele procura evitar que uma expressão eleitoral substitua a análise sobre as condições concretas que permitem o crescimento das facções e sobre as responsabilidades compartilhadas entre União, estados, municípios, Judiciário e sistema penitenciário.
Uma oposição mais pragmática
Ricardo Moura observou ainda uma mudança no comportamento da direita cearense. Embora setores bolsonaristas mantenham divergências com Ciro Gomes, lideranças como André Fernandes passaram a apoiar sua candidatura por considerá-la eleitoralmente viável contra Elmano.
“O André Fernandes falou uma coisa muito interessante. Ele disse que discorda do Ciro em muitas coisas, mas que precisavam de um candidato viável politicamente para concorrer com Elmano”, lembrou.
Na avaliação do jornalista, esse movimento demonstra que a extrema direita ampliou sua capacidade de agir de maneira estratégica. O objetivo imediato é vencer a eleição estadual. As diferenças internas seriam administradas posteriormente.
“Esse pragmatismo e essa visão estratégica são importantes. A direita e a extrema direita estão aprendendo, a cada ano que passa, a fazer política e a ser estratégicas”, afirmou.
Moura considera que os partidos de esquerda, por sua vez, ficaram excessivamente dependentes da capacidade eleitoral do Presidente Lula e das estruturas tradicionais de aliança. Para ele, o apoio presidencial continua decisivo, mas não substitui a necessidade de Elmano apresentar uma identidade própria e construir confiança em torno de sua gestão.
“Se as pessoas não tiverem confiança mínima no Elmano e não estiverem minimamente satisfeitas com o Governo Elmano, nem Jesus pegando na mão vai fazê-las votar. A gente tem que ter algo para mostrar”, advertiu.
A campanha começa sob pressão
Com o início da propaganda e a proximidade da votação, Ricardo Moura acredita que a vantagem de Ciro poderá diminuir. O governo possui realizações para apresentar e conta com uma ampla rede de prefeitos e lideranças municipais, além do apoio de Lula e Camilo.
A estrutura partidária, entretanto, não garante o resultado. A disputa ocorrerá entre um governador que precisa se tornar mais conhecido e um adversário com forte lembrança eleitoral, experiência em campanhas e apoio de diferentes setores da oposição.
Para o jornalista, Elmano precisará demonstrar maior disposição para o confronto político e participar diretamente do debate público. A postura mais ativa do Presidente Lula nos últimos meses mostra que até lideranças consolidadas perceberam a necessidade de responder com maior firmeza aos adversários.
“O político tem que ter apetite pela política, tem que ter fome de política. Os políticos que não têm essa fome, as pessoas percebem”, afirmou Moura.
A eleição cearense também tende a ser influenciada pela disputa presidencial. Existe a possibilidade de eleitores votarem simultaneamente em Lula e Ciro, especialmente entre aqueles que não se identificam com a extrema direita, mas demonstram cansaço em relação ao atual grupo governista.
Diante desse cenário, a campanha de Elmano terá de fazer mais do que apresentar estatísticas. Precisará explicar como os resultados foram produzidos, reconhecer a insegurança ainda vivida em diferentes regiões e demonstrar por que a continuidade da gestão pode oferecer respostas melhores do que a proposta de retorno apresentada por Ciro.
Para Ricardo Moura, os números da segurança pública são importantes, mas não se transformam automaticamente em confiança. Enquanto o governo não assumir a autoria dos avanços e responder de forma convincente ao medo provocado pelas facções, a oposição continuará ocupando esse espaço com vídeos, denúncias e episódios isolados apresentados como retrato de todo o Ceará.
Referências
Espectros de Marx, Jacques Derrida, 1993
O príncipe, Nicolau Maquiavel, 1532
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