Bia Schwenck, Kevin Batista e André Mombach discutem a sobrecarga do cuidado, a ausência feminina nos espaços de decisão e a responsabilidade dos homens na construção da igualdade
Da Redação
“A luta das mulheres na economia solidária é a luta da classe trabalhadora.” A afirmação da socióloga Bia Schwenck sintetizou o debate promovido pelo programa Bancos da Democracia sobre feminismos, masculinidades e as desigualdades que persistem nos empreendimentos solidários.
Apresentada pela jornalista Sara Goes, a edição reuniu Bia, integrante da Associação de Mulheres da Economia Solidária e Feminista (AMESOL) e militante da Marcha Mundial das Mulheres; o psicólogo Kevin Batista, pesquisador das masculinidades, saúde do homem e violência de gênero; e o sociólogo André Mombach, integrante da Rede de Economia Solidária e Feminista (RESF).
O programa partiu de uma contradição observada em diferentes organizações: as mulheres são maioria na produção cotidiana, no trabalho comunitário e nas atividades responsáveis pela continuidade dos empreendimentos, mas permanecem sub-representadas nas coordenações, mesas de debate e instâncias de decisão.
Para os convidados, essa desigualdade não pode ser explicada somente pela composição formal das entidades. Ela começa na divisão do trabalho doméstico, atravessa as condições de acesso à renda e chega aos espaços institucionais da economia solidária. Enquanto as mulheres acumulam produção, cuidado e tarefas familiares, os homens encontram maior disponibilidade para ocupar funções de representação.
Feminismos qualificam a economia solidária
Bia Schwenck explicou que sua aproximação com a economia solidária ganhou sentido quando passou a relacionar esse campo ao debate feminista. Socióloga e pesquisadora formada pela Universidade Estadual de Campinas, ela atua há vários anos na organização de empreendimentos liderados por mulheres.
“Eu me encontrei na economia solidária quando consegui mobilizar nela o debate feminista”, contou.
Segundo Bia, a economia solidária questiona a relação entre patrão e empregado, a exploração da classe trabalhadora e a concentração de renda. Para realizar plenamente essa proposta, também precisa enfrentar a divisão sexual e racial do trabalho.
A autogestão não garante automaticamente condições iguais entre homens e mulheres. Relações de poder construídas fora dos empreendimentos podem ser reproduzidas em assembleias, cooperativas, associações e fóruns de representação.
“Quando a gente fala que o feminismo qualifica a economia solidária, é porque ele coloca mais uma camada nessa proposta de reorganizar e criar um novo mundo possível”, afirmou.
Bia ressaltou que os feminismos são plurais e incorporam experiências marcadas por raça, território, idade, deficiência e pertencimento a comunidades tradicionais. Apesar das diferentes abordagens, essas lutas compartilham a busca por condições iguais de participação, representação e valorização.
“É uma proposta de reorganizar todas as relações. Isso inclui as relações com os homens, entre as mulheres e dos homens entre si. É uma luta por reorganizar a sociedade, a economia e a política”, explicou.
O lugar dos homens nessa transformação
Uma das questões centrais da conversa foi como envolver os homens no enfrentamento das desigualdades sem transferir às mulheres mais uma responsabilidade. Historicamente, são elas que denunciam a violência, organizam os debates e tentam modificar práticas discriminatórias.
Para Kevin Batista, discutir masculinidades significa convocar os homens a examinar o próprio comportamento. Não basta reconhecer o capitalismo ou a concentração de renda como problemas externos. É necessário observar como as desigualdades são reproduzidas dentro de casa, no trabalho e nas organizações políticas.
“Conversa-se sobre tudo, menos sobre si mesmo. Conversa-se sobre a luta social, mas o homem não se implica nesse processo”, afirmou o psicólogo.
Kevin relatou experiências realizadas no Ceará com organizações da sociedade civil e trabalhadores rurais. Em rodas de conversa, homens de 40, 50 ou 60 anos afirmaram que nunca haviam participado de um encontro destinado a discutir as masculinidades.
Para ele, a transformação depende da criação de espaços nos quais os homens tenham acesso a informações, relacionem o debate às próprias experiências e reconheçam sua responsabilidade na manutenção das desigualdades.
“O problema vai ser sempre o capitalismo ou a má distribuição de renda. Mas, dentro de casa, eu perpetuo a má distribuição quando pratico violência patrimonial ou quando não existem condições iguais na divisão do trabalho doméstico”, observou.
A discussão também precisa integrar a agenda permanente das instituições. Caso apareça apenas depois de um episódio de violência, ela não alcança os comportamentos cotidianos que antecedem as agressões mais visíveis.
“Não haverá economia solidária se não houver equidade entre homens e mulheres. Se não tivermos uma agenda nas instituições, não vamos conseguir isso”, declarou Kevin.
Mulheres no trabalho, homens na representação
Durante o programa, Sara Goes chamou atenção para a presença constante das mulheres nas atividades produtivas e para o predomínio masculino nas instâncias de maior visibilidade.
Bia relatou a frustração de comparecer a plenárias, conferências e assembleias da economia solidária e encontrar mesas compostas quase inteiramente por homens.
“Mais uma mesa cheia de homens, sendo que na economia solidária existem tantas mulheres”, resumiu.
Quando uma organização é convidada a indicar um representante, geralmente escolhe quem ocupa sua coordenação. Se os cargos internos continuam concentrados nas mãos dos homens, a desigualdade se repete nas conferências e nos fóruns nacionais.
A mudança, segundo Bia, precisa começar nos empreendimentos. As mulheres necessitam de condições materiais para participar de reuniões, estudar os temas em discussão, falar em público e assumir responsabilidades de direção.
Incentivar uma companheira a ocupar determinado cargo não significa apenas dizer que ela deve se candidatar. É preciso perguntar quais obstáculos dificultam sua participação.
“Quais ferramentas ela precisa para ocupar um espaço de coordenação e representação? Precisa estudar quais temas? Precisa treinar para falar em público? Precisa ter mais espaço na assembleia para se sentir confortável?”, questionou.
Também pode ser necessário garantir transporte, alimentação ou cuidado com os filhos durante uma reunião. Sem esse suporte, a convocação à participação corre o risco de aumentar a carga de trabalho da mulher.
“Ela precisa que a gente cuide dos filhos para poder ocupar esse espaço? Precisa que o empreendimento dê uma resposta ao trabalho de cuidado pelo qual ela é responsável?”, acrescentou Bia.
Homens precisam renunciar ao protagonismo permanente
A construção da igualdade exige ainda que os homens revejam a expectativa de ocupar todos os espaços de exposição. Bia comparou as dificuldades enfrentadas por mulheres e homens nesse processo.
Muitas mulheres foram educadas para evitar posições de liderança, permanecer em silêncio e não confrontar decisões. Ocupar uma mesa, utilizar um microfone ou coordenar uma entidade demanda o rompimento com essa formação.
Os homens, por sua vez, precisam contrariar uma socialização que os apresenta como representantes naturais dos grupos.
“Ir contra um sistema de masculinidade que diz que os homens têm que ser sempre a cara do movimento e ocupar os espaços de representação significa dar um passo atrás nesse protagonismo. Isso também não é fácil”, avaliou.
André Mombach defendeu que os homens atuem como suporte ao protagonismo feminino, sem tentar conduzir o processo. Integrante da Rede de Economia Solidária e Feminista desde 2013, ele considera a participação igualitária uma exigência da própria autogestão.
“Autogestão pressupõe participação igualitária e um exercício permanente na organização e na gestão do empreendimento”, disse.
Na experiência da RESF, homens participam da articulação, mas essa presença deve estar submetida ao respeito e à afirmação da liderança das mulheres.
“A gente parte do pressuposto de que existe a participação dos homens nessa construção de rede, mas ela se dá em um espaço de respeito e de afirmação do protagonismo feminino”, explicou André.
O cuidado também sustenta a economia
A divisão do trabalho doméstico apareceu como um dos principais fatores responsáveis pela desigualdade. O tempo dedicado à limpeza, à alimentação, aos filhos, aos idosos e às pessoas com deficiência interfere diretamente na possibilidade de uma mulher participar de um empreendimento.
Kevin citou dados do IBGE segundo os quais as mulheres dedicam, em média, cerca de dez horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e às atividades de cuidado. A diferença é ainda maior para as mulheres negras.
Com o nascimento de uma criança, a carga doméstica feminina aumenta sem uma alteração equivalente na participação masculina. Para o psicólogo, a resposta exige paternidade ativa e políticas que reconheçam o pai como responsável pelo cuidado, não como visitante.
“Se queremos mulheres e mães como lideranças ativas no contexto comunitário, também vamos precisar de homens e pais ativos nesse suporte”, afirmou.
Kevin defendeu a ampliação da licença-paternidade e a efetivação do dever de cuidado previsto na legislação. A mudança permitiria reduzir a concentração das responsabilidades familiares sobre as mães e ampliar suas condições de participação econômica e política.
André chamou atenção para a necessidade de transformar o cuidado em tema de interesse coletivo e de política pública. Segundo ele, a jornada das mulheres frequentemente reúne atividades simultâneas que não aparecem nos registros econômicos.
“A gente brincava que o dia das mulheres tinha 30 ou 35 horas, porque são tantas atividades sobrepostas que se perde a noção da intensidade do trabalho e do cansaço”, contou.
Essa sobrecarga também afeta a saúde física e mental. Mulheres chegam às atividades produtivas depois de cumprir diferentes tarefas domésticas e continuam responsáveis por elas ao retornar para casa.
“Como construir uma perspectiva de emancipação e autonomia completa nesse cenário?”, questionou André.
Empreendimentos femininos são mais vulneráveis
Bia apresentou resultados de um mapeamento realizado pela Rede de Economia Solidária e Feminista com empreendimentos compostos majoritariamente por mulheres. O levantamento identificou que muitos desses grupos funcionam de maneira mais frágil ou intermitente.
Quando surge uma necessidade familiar, a mulher interrompe a atividade de geração de renda para assumir o cuidado. Depois, tenta retornar à produção. Essa instabilidade dificulta a consolidação do empreendimento, o cumprimento de exigências burocráticas e o acesso às políticas públicas.
“Muitas vezes, a atividade de geração de renda das mulheres está muito ligada ao trabalho doméstico e de cuidado que elas executam”, explicou.
Parte desses empreendimentos é formada por grupos pequenos ou por unidades de produção familiar. Dependendo dos critérios adotados pelo poder público, essas iniciativas podem não ser reconhecidas formalmente como empreendimentos econômicos solidários.
Bia mencionou o Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários, o CADSOL, e questionou se as regras existentes conseguem incluir os grupos organizados por mulheres, indígenas, quilombolas e integrantes de outras comunidades tradicionais.
“Será que os empreendimentos majoritariamente femininos estão conseguindo se cadastrar no CADSOL? Será que os empreendimentos das comunidades tradicionais estão conseguindo se inscrever?”, perguntou.
A ausência no cadastro pode impedir o acesso a crédito, formação, assessoramento técnico e outras políticas vinculadas ao Sistema Nacional de Economia Solidária.
Trabalho feminino ainda tratado como complemento
André observou que a produção realizada pelas mulheres costuma ser classificada como uma fonte complementar de renda, mesmo quando possui importância decisiva para a sobrevivência familiar.
Em muitos casos, o empreendimento funciona dentro de casa porque a mulher precisa conciliar a produção com o cuidado. Atividades como alimentação, costura, artesanato e beneficiamento de produtos agrícolas podem ser consideradas uma extensão das tarefas domésticas, o que reduz seu reconhecimento econômico.
“A economia solidária ainda é uma forma complementar de renda, especialmente quando é feita pelas mulheres”, explicou.
Os indicadores existentes, segundo André, ainda não conseguem interpretar toda a complexidade desse processo. O trabalho produtivo, o autoconsumo e a reprodução da vida aparecem separados, embora façam parte da mesma jornada.
Essa dificuldade afeta a formulação das políticas públicas. Sem dados capazes de identificar a realidade dos empreendimentos femininos, programas de formalização, crédito e assistência técnica podem reproduzir critérios incompatíveis com suas condições de funcionamento.
André defendeu a retomada dos indicadores da economia feminista e a criação de mecanismos que relacionem renda, saúde, cuidado, vigilância sanitária, formalização e acesso à proteção social.
Informação também é uma barreira
As desigualdades aparecem ainda no acesso às informações sobre direitos. Kevin citou a experiência de pescadoras de açudes no Ceará que não sabiam que poderiam obter a aposentadoria como trabalhadoras da pesca.
Muitas tinham dificuldade até mesmo de se apresentar oficialmente como pescadoras, apesar de exercerem a atividade. Enquanto os homens recebiam informações sobre mercado de trabalho, benefícios e licenças, as mulheres eram direcionadas aos assuntos domésticos.
Esse afastamento dificulta o acesso à aposentadoria, ao crédito e à formalização. Também impede que determinadas atividades sejam reconhecidas como trabalho.
“O homem tem mais acesso a informações sobre aposentadoria e licenças porque o mercado de trabalho é apresentado como um espaço masculino. Às mulheres são relegadas as informações da casa e do terreiro”, analisou Kevin.
A falta de informação se combina com a burocracia, o pouco tempo disponível e a dificuldade de deslocamento. Uma política pode existir formalmente sem alcançar aquelas que deveriam ser beneficiadas.
As transformações individuais também são coletivas
Bia destacou que a economia solidária oferece uma oportunidade para modificar comportamentos porque se baseia na organização coletiva. Os espaços de trabalho também são ambientes de formação social e política.
“Tudo se faz em coletivo, inclusive as transformações individuais”, afirmou.
Segundo ela, a participação em um grupo pode mudar a forma como uma pessoa compreende as próprias relações. Esse aprendizado interfere na vida doméstica e retorna ao coletivo sob a forma de novas práticas.
Para que isso aconteça, o empreendimento precisa debater de maneira consciente a divisão sexual do trabalho, o cuidado, a violência e a distribuição dos espaços de decisão. Caso contrário, a organização pode adotar a autogestão no plano formal e continuar submetida às hierarquias de gênero.
André defendeu que feminismos, masculinidades e cuidado sejam incorporados ao cotidiano da economia solidária. A discussão não deve permanecer restrita a encontros especializados ou datas específicas.
“Quanto mais a gente construir agendas de diálogo, mais começa a desmistificar e retirar o medo desse debate”, afirmou.
Feminismo não se separa da luta de classes
Na parte final do programa, os convidados responderam às críticas que tentam apresentar o feminismo e o movimento antirracista como pautas afastadas da luta de classes.
Bia rejeitou essa separação. Para ela, a organização das mulheres enfrenta diretamente a exploração do trabalho, a distribuição desigual da renda e a concentração das tarefas indispensáveis à reprodução da vida.
“O que a gente está fazendo não é se separar. É qualificar esse movimento e chamar os homens para construir com a gente um mundo melhor”, declarou.
André lembrou que o Brasil viveu mais de três séculos de escravidão e ainda mantém mulheres, sobretudo negras, em posições subordinadas no mercado de trabalho. Discutir gênero e raça, portanto, é examinar a forma concreta assumida pela exploração no país.
“Discutir feminismo e luta antirracista é discutir a luta de classes no Brasil”, afirmou.
Kevin acrescentou que os homens não devem ingressar nessa discussão para recuperar o protagonismo ou apresentar respostas prontas. A participação masculina precisa ser orientada pela escuta, pela responsabilidade e pela disposição para modificar práticas.
“Não é para sermos mais uma vez aqueles que têm a verdade e a voz. É preciso estar em um espaço de diálogo no qual a gente também se disponha a ouvir”, disse.
Ao encerrar sua participação, Bia reafirmou que os feminismos não propõem uma disputa isolada por cargos. A reivindicação é por uma economia capaz de reconhecer o trabalho das mulheres, distribuir o cuidado e enfrentar todas as formas de violência.
“A luta das mulheres é a luta por um mundo do bem viver, contra a exploração, pela justiça e por uma vida livre de violência. A luta das mulheres na economia solidária é a luta da classe trabalhadora”, concluiu.
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