Pré-candidato a deputado estadual pelo PCdoB sustenta que a representação dos trabalhadores precisa ganhar espaço nas eleições de 2026 e apresenta propostas para o serviço público, a saúde e a proteção da Chapada do Araripe
Da Redação
“A luta é todo dia.” A afirmação do professor, enfermeiro e dirigente sindical Samuel Duarte Siebra sintetiza a concepção política apresentada por ele durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. Pré-candidato a deputado estadual pelo PCdoB, Siebra defendeu a ampliação da presença de sindicalistas nas casas legislativas e afirmou que as eleições representam uma etapa de uma mobilização permanente em defesa dos trabalhadores.
A entrevista foi conduzida por Sara Goes e contou com a participação do comentarista Luciano Simplício. Ao longo do programa, transmitido pela Atitude Popular, o convidado analisou a composição do Congresso Nacional, os desafios das candidaturas vinculadas ao movimento sindical, a situação política do Cariri e os impactos sociais e ambientais do atual modelo de desenvolvimento.
Natural do Crato, Samuel Siebra é presidente do Sindicato dos Servidores Municipais do Crato, o SINDSMCRATO, vice-presidente regional da APEOC e integrante da direção executiva da Federação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal do Estado do Ceará. Professor, enfermeiro e biólogo, construiu sua trajetória nos movimentos estudantil, sindical e partidário.
Sindicalistas são minoria no Parlamento
Durante a entrevista, Siebra afirmou que a composição das casas legislativas brasileiras permanece marcada pela presença de grupos familiares com poder econômico, representantes do agronegócio, setores empresariais e segmentos religiosos conservadores.
Segundo ele, esses grupos compreenderam historicamente o Parlamento como um espaço para assegurar interesses econômicos. A representação diretamente vinculada à classe trabalhadora, em contraste, permanece minoritária e enfrenta dificuldades para pautar projetos relacionados a salários, direitos sociais, condições de trabalho e fortalecimento dos serviços públicos.
“Quem verdadeiramente representa a classe trabalhadora, o sindicalista, é uma fração muito diminuta”, afirmou.
Siebra avaliou que propostas populares somente conseguem avançar quando existe mobilização social capaz de pressionar deputados e senadores. Ele citou o debate sobre o fim da escala de trabalho 6 por 1 como exemplo de uma pauta que ganhou espaço a partir da organização dos trabalhadores fora do Congresso.
Para o dirigente sindical, o crescimento de bancadas comprometidas com os trabalhadores permitiria que essas reivindicações fossem apresentadas e defendidas de maneira permanente, sem depender exclusivamente de momentos de forte pressão popular.
Representatividade precisa estar ligada a projetos políticos
Outro ponto discutido foi o uso eleitoral da representatividade sem compromisso com os direitos sociais. Siebra reconheceu a importância das lutas das mulheres, da população negra e da comunidade LGBTQIA+, mas alertou que a presença de integrantes desses grupos no Parlamento não garante, por si só, a defesa das pautas relacionadas a eles.
Na avaliação do entrevistado, candidaturas apresentadas como representativas precisam ser analisadas também a partir dos projetos econômicos e políticos que defendem.
“Negros, mulheres e LGBTs produzem riqueza e têm sua força de trabalho explorada. A gente precisa ver o que unifica todos eles”, declarou.
O pré-candidato sustentou que a defesa dos direitos específicos deve caminhar junto à discussão sobre trabalho, renda, serviços públicos e desigualdade social. Para ele, a fragmentação das pautas pode ser utilizada por partidos conservadores para eleger candidatos que, apesar de apresentarem determinadas características identitárias, votam contra direitos trabalhistas e políticas sociais.
“O sindicato precisa ser uma escola do socialismo”
Samuel Siebra também citou a concepção de que os sindicatos devem funcionar como espaços de formação política e organização coletiva.
“O sindicato precisa ser uma escola do socialismo”, afirmou, ao defender que as entidades sindicais não se limitem à negociação de salários e benefícios.
Segundo ele, o trabalho sindical também envolve a construção de consciência sobre as relações econômicas, a distribuição da riqueza e o papel do Estado na garantia de direitos.
Na avaliação do dirigente, a atuação cotidiana junto às categorias permite aos sindicalistas conhecer de maneira concreta os problemas enfrentados nos locais de trabalho. Essa experiência pode contribuir para a elaboração de leis e políticas públicas quando representantes do movimento chegam ao Parlamento.
Luciano Simplício reforçou essa posição ao lembrar que dirigentes sindicais lidam diariamente com atrasos salariais, descumprimento de acordos, retirada de direitos e dificuldades nas mesas de negociação.
“O sindicalista vive a vida toda pegando a demanda da classe trabalhadora. Quando chega ao Parlamento, está comprometido com aquilo que viveu”, declarou o comentarista.
Uma candidatura construída no movimento sindical
Questionado sobre a construção de sua pré-candidatura, Siebra afirmou que sua trajetória política começou no movimento estudantil e passou por diferentes entidades representativas.
Ele participou do movimento secundarista, integrou o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Regional do Cariri, atuou no sindicato dos trabalhadores da saúde e assumiu funções na APEOC. Posteriormente, foi eleito presidente do SINDSMCRATO, entidade que representa mais de 3 mil servidores municipais.
Entre as categorias atendidas pelo sindicato estão profissionais da saúde, professores, garis, merendeiras e trabalhadores de diferentes áreas da administração pública.
Siebra também passou a integrar a direção executiva da federação estadual dos servidores municipais, com atuação relacionada à saúde do trabalhador.
“A construção política de uma candidatura não se dá ao acaso. Ela é o conjunto de ações que vão se somando à trajetória de uma pessoa”, explicou.
O pré-candidato criticou a presença de parentes de prefeitos, vereadores, governadores e outras lideranças políticas nas disputas eleitorais sem que esses nomes tenham trajetória social ou atuação coletiva anterior.
Para ele, a indicação de familiares continua sendo utilizada como forma de transmissão do poder político entre grupos locais.
“Hoje basta ser esposa de prefeito, sobrinho de vereador, primo de governador ou irmão de alguém para estar credenciado a participar das casas legislativas”, afirmou.
“Estamos trocando o pneu do carro andando”
Samuel Siebra afirmou que a preparação de sua pré-candidatura ocorre paralelamente às atividades sindicais.
“Não dá para parar e dizer: agora vou cuidar da minha pré-campanha. Tenho que cuidar da luta dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, organizar a candidatura. Estamos trocando o pneu do carro andando”, declarou.
Segundo ele, estão sendo realizadas reuniões com representantes da juventude, das mulheres, da saúde, da educação e do serviço público. O objetivo é construir uma candidatura baseada em demandas coletivas, e não somente em um projeto pessoal.
Siebra afirmou que pretende levar para a Assembleia Legislativa do Ceará propostas relacionadas à valorização dos servidores, à saúde do trabalhador e à defesa das políticas públicas.
Ele também criticou projetos de reforma administrativa que ampliam terceirizações, enfraquecem a estabilidade dos servidores e reduzem a capacidade de atuação do Estado.
“Esses ataques precisam encontrar vozes que façam a defesa do serviço público, seja na Assembleia Legislativa, seja no Congresso Nacional”, declarou.
Eleição é uma etapa de uma mobilização permanente
Para o pré-candidato, a disputa eleitoral não pode substituir a organização cotidiana nos sindicatos, nos movimentos sociais e nos partidos.
Siebra afirmou que a ação política precisa combinar participação institucional, mobilização social e formação ideológica.
“Você precisa estar na rua, nos movimentos sociais, construindo a luta. Precisa discutir no campo das ideias e também ocupar os espaços institucionais”, disse.
Ele citou a defesa da soberania nacional, do sistema de pagamentos Pix e do fim da escala 6 por 1 como exemplos de questões que precisam ser discutidas tanto dentro quanto fora do Parlamento.
“As eleições são uma etapa importante da luta principal. Precisamos ocupar esses espaços, mas a luta é todo dia”, reforçou.
Trabalho análogo à escravidão expõe fragilidade da fiscalização
A entrevista também abordou casos recentes de trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão no Ceará.
Os participantes discutiram denúncias envolvendo uma trabalhadora doméstica submetida a décadas de exploração e grupos de trabalhadores resgatados em Fortaleza e municípios da Região Metropolitana.
Siebra relacionou essas ocorrências ao enfraquecimento das estruturas de fiscalização trabalhista.
Segundo ele, órgãos como o Ministério do Trabalho e as antigas delegacias regionais sofreram com falta de concursos públicos, redução de equipes e perda de capacidade operacional.
“É um país que ataca por dentro as instituições que deveriam defender os trabalhadores. Eu não duvido que existam outras situações de trabalho análogo à escravidão”, afirmou.
O pré-candidato também mencionou as tentativas de enfraquecimento da Justiça do Trabalho e defendeu a recomposição das equipes responsáveis pela fiscalização das relações trabalhistas.
Reindustrialização e geração de empregos
Samuel Siebra avaliou que o Brasil precisa retomar o debate sobre um projeto nacional de desenvolvimento industrial.
Ele criticou os impactos da Operação Lava Jato sobre empresas brasileiras e afirmou que a destruição de estruturas produtivas provocou desemprego e perda de renda.
Segundo o entrevistado, irregularidades cometidas por dirigentes e empresários deveriam ter sido punidas sem provocar o fechamento ou a desestruturação de empresas estratégicas.
“Nós precisamos rediscutir o processo de industrialização do país e construir um novo plano nacional de desenvolvimento”, afirmou.
Esse plano, segundo ele, deve considerar as desigualdades regionais e ampliar investimentos em educação, saúde, tecnologia, geração de emprego e distribuição de renda.
Siebra também chamou atenção para os efeitos da automação e da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Para ele, o crescimento dessas tecnologias exige políticas públicas de qualificação profissional e proteção dos trabalhadores.
Serviço público transforma leis em políticas concretas
Ao defender a valorização do funcionalismo, Siebra destacou que os servidores são responsáveis pela execução das políticas aprovadas pelos governos e parlamentos.
“O servidor público implementa as políticas públicas, mas elas só são implementadas se forem legisladas”, afirmou.
Para ele, a presença de representantes comprometidos com os trabalhadores nas casas legislativas é fundamental para garantir orçamento e normas que permitam o funcionamento dos serviços públicos.
O dirigente também afirmou que grupos conservadores compreendem a importância estratégica das eleições parlamentares e, por isso, concentram recursos nas disputas para deputado, senador e vereador.
Segundo Siebra, as forças progressistas precisam dedicar maior atenção às eleições proporcionais de 2026.
Cariri será território decisivo nas eleições
Ao analisar a situação eleitoral do Ceará, Siebra afirmou que o Cariri permanece como uma das regiões mais importantes para as forças progressistas.
Ele destacou a influência política do ministro da Educação, Camilo Santana, natural do Crato, e avaliou que sua trajetória como governador ainda possui forte reconhecimento entre os eleitores da região.
Segundo o pré-candidato, municípios como Crato, Barbalha e outras cidades do Cariri devem contribuir de forma significativa para a candidatura à reeleição do governador Elmano de Freitas.
Siebra reconheceu que Juazeiro do Norte apresenta uma disputa política diferente, com maior presença de setores conservadores, mas afirmou que os governos estadual e federal mantêm índices expressivos de aprovação na região.
“O Cariri vai contribuir com uma grande soma de votos para manter o Ceará no campo progressista e no caminho do desenvolvimento”, declarou.
Defesa da Chapada do Araripe entra no centro do debate
A pauta ambiental ocupou parte importante da entrevista. Biólogo de formação, Samuel Siebra defendeu que a Assembleia Legislativa amplie a discussão sobre a preservação da Chapada do Araripe.
Ele alertou para os impactos do desmatamento, da expansão imobiliária e do avanço do agronegócio sobre a Floresta Nacional do Araripe.
Segundo Siebra, a cobertura vegetal da chapada exerce uma função fundamental na formação do microclima e na alimentação do aquífero que abastece os municípios do Cariri.
“A Floresta Nacional do Araripe funciona como uma esponja. Ela ajuda a formar o microclima e alimenta o aquífero que abastece toda a região”, explicou.
O pré-candidato afirmou que a retirada da vegetação compromete a infiltração da água no solo e ameaça a segurança hídrica da população.
Ele também defendeu que os debates ambientais sejam relacionados à saúde pública, uma vez que mudanças climáticas, desmatamento e ocupação desordenada podem ampliar doenças respiratórias e outros problemas de saúde.
Grandes projetos precisam considerar consumo de água
Siebra citou a instalação de data centers entre os projetos que precisam ser analisados com maior rigor ambiental no Ceará.
Esses empreendimentos podem consumir grandes volumes de água e energia, o que exige atenção especial em um estado localizado majoritariamente no semiárido.
“Nós vivemos em uma região extremamente carente de recursos hídricos. Um data center pode consumir uma grande quantidade de água”, alertou.
O entrevistado também mencionou a necessidade de conclusão de obras de integração hídrica e lembrou a importância histórica da transposição do Rio São Francisco para o abastecimento do Nordeste.
Para Siebra, desenvolvimento econômico e preservação ambiental não podem ser tratados como questões separadas. Ele defendeu que novos projetos sejam submetidos a estudos técnicos e ao diálogo com as comunidades afetadas.
Segurança pública deve ser discutida para além da repressão
No encerramento da entrevista, Samuel Siebra afirmou que as forças progressistas precisam assumir o debate sobre segurança pública.
Segundo ele, a política de segurança não pode ficar restrita ao policiamento e à repressão. É necessário considerar fatores como desemprego, falta de renda, dificuldade de acesso à educação, saúde, cultura, esporte e lazer.
“Nós da esquerda precisamos nos apropriar da pauta da segurança pública para além da questão repressiva. Precisamos discutir o que provoca a insegurança”, afirmou.
Siebra reconheceu que o Ceará enfrenta desafios nessa área, mas destacou os investimentos realizados pelo governo estadual.
Para ele, a redução da violência depende de políticas integradas e da presença permanente do Estado nos territórios.
Convenção marcará início de nova etapa eleitoral
Samuel Siebra convocou militantes e apoiadores a participarem da convenção partidária marcada para o dia 31.
Segundo ele, o encontro será um momento de organização das forças políticas que defendem a soberania nacional, o desenvolvimento econômico, os serviços públicos e a continuidade do projeto progressista no Ceará.
“Será um momento de revisarmos as nossas forças em defesa de um país soberano, autônomo e desenvolvido”, declarou.
O pré-candidato afirmou que pretende apresentar uma candidatura conectada às reivindicações dos servidores municipais, dos trabalhadores da saúde, dos profissionais da educação e dos moradores do Cariri.
Ao longo da entrevista, Siebra sustentou que a eleição de sindicalistas pode aproximar os parlamentos das condições concretas vividas pelos trabalhadores.
“A campanha não pode ser apenas uma disputa por um cargo. Ela precisa representar um projeto coletivo”, concluiu.
Referências citadas no programa
O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital
Autor: Ricardo Antunes
Ano: 2018
Karl Marx, Vladimir Lenin, Paulo Freire e Mário Quintana também foram mencionados durante o programa, mas as obras específicas relacionadas às citações não foram identificadas na transmissão.
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