Atitude Popular

“A machosfera funciona como um ambiente de formação política”

Estudo da FGV mostra que redes masculinistas funcionam como espaços políticos e influenciam percepções sobre gênero, democracia e políticas públicas

A machosfera brasileira deixou de ser apenas um conjunto difuso de grupos masculinos na internet para se consolidar como um ecossistema político estruturado, capaz de influenciar percepções sociais, atacar políticas públicas e moldar visões de mundo. A avaliação é da pesquisadora Julie Ricard, da Fundação Getulio Vargas (FGV), em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular.

O debate teve como base o estudo inédito “A machosfera é política: construção ideológica e ataques a políticas de gênero”, elaborado por pesquisadores do DesinfoPop/FGV, que analisou comunidades no Telegram e identificou a atuação desses grupos como ambientes de formação ideológica .

Segundo Ricard, a compreensão tradicional da machosfera como espaço de frustração masculina ou troca de experiências é insuficiente para explicar sua dimensão atual. “Reduzir a machosfera a misoginia online é subestimar o problema. Ela funciona como um ambiente de formação política, onde a misoginia ajuda a organizar visões de mundo sobre autoridade, ordem social, inimigos públicos e até sobre quais direitos merecem ou não existir”, afirmou.

Redes de ódio que operam como formação política

O estudo analisou 85 comunidades brasileiras e mais de 7 milhões de conteúdos publicados entre 2015 e 2025, identificando mais de 15 mil menções a Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro — um dado que evidencia o caráter político desses espaços .

Mais do que discutir política, esses grupos a reinterpretam a partir de uma linguagem própria, marcada por termos como “redpill”, “incel” e “macho alfa”, que reorganizam a percepção sobre liderança, poder e legitimidade.

“Essas comunidades funcionam como espaços de socialização ideológica. Elas não só comentam política, elas constroem uma forma de ver o mundo”, explicou Ricard durante a entrevista.

Misoginia como eixo de uma visão de mundo

Um dos principais achados da pesquisa é que a misoginia não aparece isolada, mas articulada a outras formas de discriminação, como racismo, LGBTfobia e classismo, formando uma lógica hierárquica e excludente.

“O problema da machosfera não é apenas o que ela diz sobre as mulheres. É o tipo de mundo que ela ajuda a construir: um mundo organizado por hierarquias, ressentimento e desumanização”, destacou a pesquisadora.

Essa estrutura ideológica se expressa também na naturalização da violência. O relatório aponta que, em casos extremos, há apologia explícita à agressão física e até a discursos de extermínio, o que revela a gravidade do fenômeno .

Ataque sistemático a políticas de gênero

Outro ponto central é o papel dessas comunidades na deslegitimação de políticas públicas. A pesquisa identificou ataques recorrentes à Lei Maria da Penha, à educação sexual e aos direitos reprodutivos, frequentemente apresentados como ameaças aos homens e à família .

Para Ricard, esse movimento vai além da crítica política legítima e constitui uma estratégia ideológica organizada.

“Essas políticas deixam de ser vistas como proteção e passam a ser tratadas como evidência de perseguição contra os homens. Isso ajuda a corroer a legitimidade dessas agendas”, afirmou.

Humor, memes e radicalização

A machosfera também se diferencia pela forma como comunica suas ideias. Em vez de discursos diretos, utiliza humor, memes e ironia para tornar aceitáveis conteúdos violentos ou discriminatórios.

“Eles não necessariamente vão usar um discurso explícito de ódio. Tem muito humor, muita ironia. Isso torna o conteúdo mais palatável e facilita a circulação”, explicou Ricard.

Essa estratégia amplia o alcance e dificulta a identificação e moderação desses conteúdos, além de favorecer processos de radicalização gradual.

Juventude, frustração e disputa narrativa

Durante a entrevista, Ricard destacou que a adesão de jovens a esses grupos está ligada a frustrações econômicas e afetivas, que são instrumentalizadas politicamente.

“A gente precisa acolher a origem dessas frustrações, mas sem aceitar a forma violenta como elas são expressas. Esses grupos oferecem pertencimento e validação emocional”, disse.

Segundo ela, o desafio é duplo: conter a violência e, ao mesmo tempo, criar alternativas de socialização mais saudáveis.

Risco de instrumentalização política

A pesquisadora também alertou para o risco de esses espaços serem incorporados de forma mais explícita na disputa política, especialmente em contextos eleitorais.

“A machosfera já é política. A questão agora é até que ponto ela pode ser instrumentalizada como base de mobilização”, afirmou.

O estudo indica que esses grupos tendem a operar mais como vetor de oposição do que de apoio, mobilizando-se sobretudo contra adversários políticos .

Desafio para democracia e políticas públicas

A principal conclusão do relatório é que a machosfera deve ser compreendida como um fenômeno político relevante, com impacto direto sobre a democracia e a formulação de políticas públicas.

“A gente precisa encarar a machosfera não só como rede de ódio às mulheres, mas como rede de ódio a vários grupos e como espaço de construção de uma visão de mundo perigosa”, resumiu Ricard.

Para enfrentar esse cenário, ela defende uma combinação de estratégias: regulação das plataformas, educação, políticas públicas e disputa comunicacional.


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