Atitude Popular

“A melhor forma de dominar é fazer o dominado pensar pela cabeça do dominador”

Professor Nelson Campos aponta como emendas, “pautas-bomba” e discurso moralista seletivo alimentam a crise de credibilidade do Parlamento e empurram o país para uma desconexão perigosa entre política e vida real

A desmoralização do Congresso brasileiro, mais do que um bordão repetido nas redes, foi tratada como sintoma político e disputa de poder no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, com o convidado prof. Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC. A conversa foi ao ar na TV Atitude Popular e está disponível no YouTube, a partir de transcrição do episódio publicada na plataforma.

O ponto de partida do debate foi o clima de mobilização popular contra o PL da dosimetria, tema que movimentou atos em várias capitais e que, na avaliação do professor, expôs um conflito central: o Congresso legislar mirando casos específicos, mas produzindo efeitos gerais sobre o sistema penal e a própria democracia. “Foi uma mobilização no país inteiro, muitas pessoas em diversas capitais do país e que isso dá ao Congresso a preocupação de refletir sobre suas atitudes”, disse Nelson Campos, ao relatar sua presença na manifestação em Fortaleza e citar a participação de parlamentares como Luizianne Lins e Larissa Gaspar.

Ao longo do programa, o professor fez questão de impor um freio à generalização que transforma todo o Legislativo em caricatura. “Eu particularmente não gosto muito dessa expressão congresso inimigo do povo, porque não é todo congresso”, afirmou. Ainda assim, defendeu que há um conjunto de práticas recorrentes que desgasta a instituição diante do país real, sobretudo quando interesses corporativos e eleitorais se sobrepõem à transparência e às políticas públicas. “No Congresso existem políticos bem atuantes… Existem outros que são absolutos pilantras, golpistas… e sobretudo hipócritas”, resumiu.

Dosimetria: uma lei com “alvo claro” e efeito colateral amplo

O debate esquentou quando Luiz Regadas trouxe à mesa uma análise do jornalista Leonardo Sakamoto sobre o projeto: para o comentarista, a proposta teria “alvo claro” e poderia favorecer não apenas “peixes pequenos”, mas também condenados por crimes graves. Nelson Campos reforçou a crítica ao que chamou de casuísmo travestido de regra geral.

A preocupação deles era favorecer especificamente esse grupo”, disse, ao citar nomes que, segundo ele, articulariam o projeto e buscariam encurtar penas relacionadas à tentativa de golpe. E completou: “À medida que você faz uma lei com o objetivo claro de encurtar o tempo de cadeia dessas pessoas, você está favorecendo também a diversos outros criminosos”.

Na visão do professor, há um problema de fundo: quando o Parlamento age para proteger figuras e redes políticas, abre-se um precedente de desorganização institucional. O resultado é um Congresso que fala em endurecimento penal para uns e trabalha por atalhos para outros, reforçando a percepção de dois pesos e duas medidas.

Emendas e “orçamento secreto”: o dinheiro como centro da disputa

Outra camada do diagnóstico veio com o tema das emendas parlamentares e do chamado “orçamento secreto”, que se tornou símbolo de opacidade e poder concentrado. Para o professor, o mecanismo foi parte de uma engrenagem política em que o controle do orçamento virou moeda de governabilidade e proteção.

Como é que se pode mexer, movimentar bilhões de reais de forma secreta, sem que as pessoas saibam de onde saiu o dinheiro e para onde vai? Era o que eles faziam”, afirmou. Nelson Campos também apontou o papel do comando da Câmara na época, ao citar que pedidos de impeachment contra o ex-presidente ficaram parados: “Tinha mais de 100 pedidos de impeachment… E onde é que foram parar? Na gaveta”.

No programa, Regadas reforçou a sensação de desconexão entre essas disputas e a agenda cotidiana da maioria: salário, saúde, educação, tempo de descanso, qualidade do serviço público. O professor concordou que a indignação cresce quando a população enxerga o Congresso operando como gestor de fatias do orçamento, enquanto pautas estruturais são empurradas com lentidão ou condicionadas a barganhas.

PECs, blindagens e a reação às investigações

Ao comentar outras “pautas-bomba”, como a chamada “PEC da blindagem”, Nelson Campos associou a movimentação parlamentar à tentativa de limitar fiscalização e investigação. Citou a importância de órgãos de investigação e mencionou que, quando “a Polícia Federal vai atuar”, casos antes travados avançam mais rapidamente.

Ele também argumentou que parte do ataque a figuras como Flávio Dino e Alexandre de Moraes estaria ligada ao incômodo com investigações e responsabilizações: “Eles não querem que as pessoas saibam o que estão fazendo. Eles querem simplesmente botar mão no dinheiro e usufruir desse dinheiro em benefício próprio”, disse, ao comentar o embate por transparência nas verbas.

Privatização, apagões e a pedagogia do neoliberalismo

Um dos trechos mais didáticos do programa veio quando o apresentador citou crises de energia e a precariedade de serviços após privatizações, lembrando que, quando falta luz e água, a sensação de abandono vira experiência concreta. Foi nesse momento que Nelson Campos condensou sua crítica ao discurso privatista em uma frase que atravessa o episódio como chave de leitura:

A melhor forma de dominar é fazer o dominado pensar pela cabeça do dominador”.

Para ele, a promessa de eficiência e redução de custos muitas vezes funciona como narrativa de convencimento, enquanto as “negociatas” já estão feitas e a conta recai sobre o cidadão, que “passa a pagar por aquilo que antes era do Estado”. A crítica não aparece como tese abstrata: ela se conecta ao cotidiano — tarifa, precariedade, dependência de serviços — e retorna ao ponto inicial do programa: quando política vira arranjo entre poucos, a democracia vira um serviço caro e falho para muitos.

Polarização, luta social e o que o Congresso revela sobre o país

Nos minutos finais, o professor relativizou a ideia de que polarização seria apenas um “mal do presente” ou um desvio a ser superado por boa vontade. Para ele, conflitos atravessam a história e se manifestam como disputa entre interesses sociais. Citou Marx diretamente: “A luta de classes é o motor da história”, e defendeu que o papel do pensamento crítico é “tirar a máscara” de discursos que pedem conciliação para manter desigualdades e impunidades.

Ao voltar ao tema da tentativa de golpe, Nelson Campos sustentou que crimes contra a democracia precisam ser tratados como crimes, e não como “exageros” políticos. E, ao agradecer o convite, encerrou reforçando a importância do debate público e da participação social que, desde o começo do programa, apareceu como contraponto ao isolamento institucional de Brasília.

Ao longo da entrevista, a crítica não foi apenas ao Congresso como prédio ou símbolo, mas ao modo de funcionamento que combina opacidade orçamentária, casuísmos legislativos, blindagens e seletividade moral. O resultado, na leitura do professor, é um Parlamento mais preocupado com autopreservação e controle de recursos do que com um pacto mínimo de dignidade social — e é isso que, pouco a pouco, corrói sua legitimidade diante do país.

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